"E aqueles que pensam em Me procurar, saibam que a vossa busca e vosso anseio devem beneficiar-vos apenas se vós souberdes o Mistério; se o que vós procurardes, vós não achardes dentro de vós mesmos, então nunca encontrarão fora. Pois eu tenho estado convosco desde o Início e Eu Sou Aquela que é alcançada ao final do desejo"


domingo, 10 de outubro de 2010

VEM ATÉ MIM...

....meu lado e me beije
Desnuda minha face e me profane
Vem até mim na escondida nos mantos azuis
Vem até rasga minha veste lunar
E revele minha veste solar
E Des-Vele
Rasga meu rostou com a tua garra
E veja minha face de estrelas
Rasga minha mão e veja a raiz do tempo
Rasga meu ventre e veja tudo que ele preenche
Rasga me inteira e ainda sim serei inviolada
Rasga me inteira e ainda sim
Alegre e docemente ainda mantenho a Fonte do Meu poder
Vem até mim com suas vestes de rei
E te mostrarei que sou Imperatriz
Vem coroado de sol
E te mostrarei meu diadema do infinto
Vem vestido com todo ouro
E eu nua serei ainda sim
Suprema em minha majestade
Vem beber do meu seio
E ainda sim meu leite jamais parará de jorrar
Vem se aventorar no meu portal
Vem buscar no interior do meu corpo a fonte de poder
E ainda sim, estarei intacta e rirei docemente
Vem e tentame
Vem sedutor
Vem até mim
E eu te mostrarei que sou mais que todos os homens e mulheres
Vem de mim
Vem buscar a tua coroa
E eu te darei a luz
Te dou sol como presente e estarte
Toma-o agora é teu
E ainda sim o Universo será ventre
Te darei a humanidade
E ainda sim, na hora da morte será a mim que iram chamar
Te darei meu amado todo o meu amor
E mesmo tu que é deleite e poder eterno
Não o compreenderá...
E ainda sim jamais se saciará
Vem até mim meu rei, meu consorte
Vem até mim...
E saiba que eu sou eterna
Vem até mim
Vem até mim
Vem até mim....

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

MÃE DOS GRÃOS

AS SENHORAS DA PLENITUDE

Nas culturas pré-cristãs celebrava-se a colheita com cerimônias de reconhecimento e gratidão pelas dádivas da terra. Os arquétipos cultuados eram na sua maioria femininos, os nomes e atributos variavam, porém os seus atributos comuns eram: abundância, plenitude, felicidade, alegria, celebração. Os povos indo-europeus reverenciavam a Mãe dos grãos ou a Senhora da vegetação sob diversos nomes e manifestações. No folclore dos povos eslavos, saxões, nórdicos e celtas permaneceram ocultados - em lendas, histórias e “superstições” - resquícios dos antigos cultos, principalmente a importância da última espiga remanescente nos campos, que estaria retendo o “espírito de fertilidade dos grãos”. Ela era cortada ritualisticamente, modelada e vestida como uma mulher, enfeitada com flores e frutos e carregada como representação da Mãe dos grãos em alegres procissões nos vilarejos. Em alguns lugares era transformada em guirlanda e usada pela moça escolhida como ”Rainha da colheita”, depois guardada e enterrada no próximo plantio. O cristianismo adotou algumas das antigas datas e práticas da época da colheita nas festas e procissões dedicadas à Maria, na Assunção e nas benzeduras de casas, pessoas, animais, ainda realizados nas áreas rurais de Hungria, Polônia, Romênia.

Na mitologia húngara a regente da fertilidade, nascimentos e abundância (vegetal, animal, humana) era Boldog Asszony (“A Rainha plena e alegre”); os seus atributos foram adotados pela igreja católica e transferidos para o culto de Maria, sendo nomeada Padroeira do país e festejada no dia 17/10 como a “Grande Rainha da Hungria”. Deusa protetora da terra, das famílias e curas, Boldog Asszony era filha de Nagy Boldogaszony (“A Grande Rainha”), Mãe Divina ancestral que tinha sete aspectos, cada um regendo um dia da semana e cujas datas ritualísticas foram preservadas nas comemorações do calendário cristão (25/03, 15/08, 17/10 e 26/12).

Pesquisas atuais encontraram semelhanças do Seu arquétipo e culto com os de Astarte, Inanna, Ishtar e principalmente Bau, a Grande Mãe da Mesopotâmia. Supõe-se que os ritos agrários neolíticos e os mitos das deusas da fertilidade migraram da Suméria e Anatólia para a Europa central, os seus atributos tendo equivalências em várias línguas: dravidiana (da Índia), suméria, persa, turca, balcânica e húngara. Os termos comuns aos atributos divinos são: plena, abundante, alegre, feliz, doadora, parteira, grávida, matrona, senhora, rainha, deusa. O culto de Bau data de 2500 a.C. e é semelhante ao da deusa sumeriana Gula, ambas sendo regentes da fertilidade, abundância e cura, mães divinas doadoras da vida, parteiras, rainhas da colheita e protetoras das almas na sua passagem entre os mundos. Acreditava-se que os espíritos das crianças ficavam escondidos nas pregas das Suas saias à espera da reencarnação. Seu símbolo era uma taça medidora chamada Bar, cujo hieróglifo X era equivalente à runa nórdica da doação e troca. Nos nascimentos das crianças as parteiras ou avós faziam oferendas de pão e vinho, pois nos mitos existiam advertências para aquelas mulheres que não reverenciavam ou agradeciam à Grande Mãe, privando assim seus filhos das bênçãos divinas.

Assim como as deusas sumérias, Boldog Asszony era celebrada como A Mulher Abençoada, A Mãe plena, Rainha alegre da colheita ou Senhora da foice (usada antigamente pelas mulheres nas colheitas de cereais). Em uma dança folclórica húngara, contemporânea, encena-se a reverência à Maria (a herdeira cristã da Deusa) com uma roda de mulheres, com saias coloridas e tiaras bordadas, que pedem cantando à Mulher Abençoada (personificada por uma mãe humana no centro da roda) visitar e abençoar suas casas, famílias, lavouras e bens.

Infelizmente, as proibições religiosas do regime comunista na Hungria, continuando a perseguição secular da igreja católica, suprimiram muitas das tradições antigas remanescentes no meio rural. Após a cristianização forçada no século 12, a língua original – de origem asiática (ramo ugro-fínico)- foi europeizada, perdendo-se assim antigos significados de palavras associadas aos ritos agrários. O atual povo húngaro originou-se da mescla de tribos citas, hunos, persas e magiares vindos das estepes da Ásia central. A religião pagã original era monoteísta, centrada em uma divindade incriada, etérica, sem forma, sexo ou nome, cercada por seres divinos. Reverenciavam-se as forças da natureza, o céu e a Mãe Terra, as deusas mais cultuadas sendo a Grande Mãe - Nagy Asszony -e sua filha Boldog Asszony, (“Senhora da plenitude e alegria”), a Velha Mulher Lua e o casal solar.

Inspirados pela riqueza mítica das antigas deusas nós podemos criar um singelo ritual atual de gratidão, oferecendo à Mãe Divina o tradicional pão e vinho, junto com símbolos da nossa “colheita”. Após fazer uma auto-avaliação das realizações dos meses anteriores, agradeceremos os “frutos” colhidos, refletiremos sobre as medidas necessárias para limpar nossos “plantios”, deles retirando as ervas daninhas, os insetos invasores e animais predadores. Depois, iremos assumir o compromisso de cuidar e proteger os brotos tênues dos nossos sonhos e aspirações, nutrindo-os com a energia da perseverança, confiança e fé, nos sentindo guiados pelas Mães do plantio e da colheita e abençoados pelas Senhoras ancestrais da plenitude.

IN: http://sitioremanso.multiply.com/journal/item/67

terça-feira, 5 de outubro de 2010

CULTIVANDO A DEUSA NA NOSSA ALMA


O poder da Deusa consagrando o cotidiano

O ressurgimento do Sagrado Feminino nos traz uma nova visão espiritual. A espiritualidade centrada no culto à Deusa implica no respeito à natureza e à vida em todos as suas manifestações, no cultivo da compaixão e aceitação nossa e dos outros, no reconhecimento da intuição e sabedoria existentes – mesmo que latentes – em todos nós, na celebração alegra da unidade com toda a criação.

Para sentir o poder da Deusa, comece a perceber o sagrado em tudo que a cerca, em cada dia, em cada lugar. Talvez precise de algum tempo para notar e experimentar conscientemente momentos, vivências, encontros, que antes passavam de forma fugaz sem que você percebesse o seu valor. Adquirindo uma nova consciência a sua vida torna-se mais rica, um acontecimento ou encontro não mais é algo fortuito, as “coincidências” passam a ser facetas da sincronicidade cósmica.

A mulher tem um enorme poder dentro de si. Não é o poder sobre alguém ou contra alguém, é o seu poder inato e ancestral, a sua intuição, percepção, compreensão, compaixão, criatividade, amor e conexão – consigo mesma, com os outros, com o Divino.

Nas antigas tradições e culturas o poder criativo e renovador da Deusa eram o símbolo da própria vida, a Terra e a mulher eram consideradas sagradas sendo suas representações. Nos cultos e Mistérios Femininos honravam-se os ciclos eternos que marcavam a vida do renascimento à morte, e desta para um novo início através do renascimento. Vida e morte eram interligadas de forma misteriosa e divina, competindo às mulheres as tarefas de recepcionar e cuidar da vida (como parteiras, mães, curandeiras), assistir e auxiliar as transições (como xamãs e sacerdotisas) e servir como intermediarias entre o humano e o divino (profetisas, oráculos).

O poder da Deusa possibilita a expansão do potencial emocional, mental, criativo e espiritual inatos em cada mulher. O poder da mulher está na sua sabedoria, a compreensão intuitiva, imparcial e sábia dos processos e das surpresas da vida. Nem toda mulher pode ser jovem, bonita, culta, rica, mas todas as mulheres podem se tornar sábias, permanecendo serenas no meio do tumulto.

As mulheres que almejam o poder da Deusa cultivam uma forma diferente de espiritualidade, buscando expandir sua consciência, honrando a vida em tudo ao seu redor e transformando o mundano em sagrado. A chave para a transformação espiritual é o enriquecimento e o aprofundamento de sua vida interior, podendo assim acessar e confiar no seu Eu Superior.

Para nutrir e embelezar nossas vidas podemos usar inúmeros recursos, simples ou elaborados, como alguns dos seguintes:

1. Crie um espaço sagrado no seu lar, não somente através de um altar, mas usando sua inspiração, imaginação e amorosidade para que todos se sintam bem, protegidos, nutridos e amados;

2. Crie momentos sagrados – para si mesma ou compartilhando-os com amigos e familiares – caminhando na natureza, ouvindo música suave, jantando a luz de velas, lendo textos que nutram a alma, enriqueça a sua mente e elevem o espírito;

3. Entre em comunhão com a natureza, honrando a Deusa em todos os seus aspectos e manifestações. Não basta encher sua casa de plantas se você não entrar em contato real e profundo com a terra, a chuva, o vento, as nuvens, o Sol, a Lua, os animais – seus irmãos de criação;

4. Respire e consagre seu corpo como a morada da sua alma durante esta encarnação. Procure viver de forma saudável, fazendo suas opções com consciência, sem se agredir e sem culpar – a si ou aos outros – pelos seus problemas ou compulsões. Coma bem para viver melhor. Observe suas fugas e compensações, cuide da sua “criança” carente ou ferida ajudando-a a crescer, curando-a com amor e dando-lhe os meios adequados para se tornar forte e auto-suficiente;

5. Manifeste sua criatividade – escreva, borde, pinte, desenhe, faça colagens, modele argila, cante, recite, dance, aprenda algo novo, componha um poema ou canção, faça pão, comece um diário de sonhos. A mulher que não dá vazão construtiva à sua imensa capacidade criativa pode torná-la em energia destrutiva – contra si ou contra os outros;

6. Coloque em prática os ensinamentos espirituais. Não se contente em ler inúmeros livros ou participar de cursos e workshops se você não pratica aquilo que aprendeu. Para mudar, precisa viver de forma consciente, reconhecer e transmutar seus pensamentos negativos e ser sincera nas avaliações – suas e dos outros. Todas as experiências dolorosas da vida são aprendizados cujas lições podem contribuir para sua transformação. Algumas mensagens levam momentos para serem assimilados, outras, meses ou anos. Quando começar a compreender o significado dos acontecimentos da sua vida, você começou a crescer de fato e assim poderá abrir novas portas na sua vida, se usar a chave certa;

7. Encontre o equilíbrio entre o falar e o silenciar, se movimentar ou se aquietar. Procure se relacionar com pessoas que compartilham das mesmas buscas e que têm o mesmo nível vibratório. Participe de círculos de mulheres em que possa encontrar apoio para a sua jornada espiritual, em que possa confiar para expressar suas dores ou suas conquistas. Celebre a Deusa sozinha ou em grupo, encontrando assim a verdadeira fonte de seu poder, da sua cura e transformação. Cultive a Deusa dentro de você reconhecendo a sacralidade do seu corpo, da sua mente, das suas emoções, da sua vida. E ao reconhecer a Deusa dentro de si, você se tornará uma com Ela.

Mirella Faur

Fonte: http://sitioremanso.multiply.com/journal/item/45

domingo, 3 de outubro de 2010

ORAÇÃO A GRANDE MÃE

Senhora da Terra
Guia e Alma de todas mulheres

Guie me no dia de hoje e nesta noite também
Quando serei marcada pelo Poder da Luz.
Guie me nas horas de Escuridão dentro e fora dos rituais
A Ti consagrados.
Guie me quando eu estiver sozinha na noite perdida
Na estrada e sem rumo,
Guie me na minha fé para que eu não busque apenas o Poder ou o êxtase
Mas também o Seu amor que é Fonte da Vida.
Guie me, ó Mãe Sagrada, que é Virgem e Amante,
Que nunca se entregou e que é em Si mesma,
Fonte, Força e Origem e ensina me a ser sagrada, una e integral para que eu como Tua sacerdotisa
Possa abrir caminhos em Teu nome em meio a escuridão da noite,
Segurando Sua tocha, Sua mensagem,
Sua luz para o mundo
E que mesmo na Escuridão do Seu Útero eu possa reverencia La ama La e compreende La acima de todas as coisas.
que assim seja.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A MÃE NEGRA


A Deusa Negra é a Sophia velada que, de muitas formas, é a manifestação primal do Divino Feminino. Ela pode ser mais prontamente identificada pelas mulheres porque seus processos e poderes ocultos se assemelham a suas próprias qualidades instintivas. Os homens raramente se aproximam dela, a não ser com medo, pois ela não se manifesta como uma musa sensual e desejável (se bem que por vezes ela assuma essa forma), mas como uma Mãe Obscura, imanente e detentora de poderes desconhecidos e inimagináveis, ou como Virago, uma poderosa virgem. O temor dos homens pelo feminino tem origem aqui, e é por isso que temos tão poucos textos falando das qualidades dela, pois poucos homens permaneceram perto dela tempo o bastante para serem capazes de registrar sua experiência orgânica da Deusa Negra, que é a poderosa base para a compreensão do Divino Feminino, pois é somente quando a homenageamos que podemos encontrar a Deusa da Sabedoria. Sophia está em ação desde o início, pois é uma Deusa Criadora. Ela aguarda ser redescoberta no interior da Deusa Negra, sua imagem refletida, ciente de que, até que façamos esse importante reconhecimento, ela terá que retornar vez após vez em diferentes formas. Ela pacientemente aguarda pelo momento de emergir, ciente de que terá de desempenhar diversos papéis no cenário que surgirá. O Ocidente lentamente começa a desenvolver uma apreciação da Deusa Negra. Nos últimos dois mil anos em que a deusa foi marginalizada, a maior parte das aparições do Divino Feminino foram avaliadas sob uma problemática ótica dualista. Nós não dispomos da válvula de segurança da metáfora feminina em nossa compreensão espiritual: consequentemente, o feminino (tanto humano quanto divino) passou a ser visto monstruosamente distorcido, ameaçador e incontrolável. O fato de que nossas metáforas de deidades podem mudar ou assumir facetas diferentes está além da compreensão ocidental. A Deusa pode ser vista de diversas formas, um fato que levou muitos filósofos e teólogos a chamar a Deusa de volátil e mutável, como uma prostituta e seus muitos clientes. O ocidente sempre se espantou com o fato de que o Hinduismo aceitava uma forma tão repulsiva quanto Kali. Porém, se a Deusa Negra é negada, como ocorre em nossa cultura, ela surgirá através de formas que nos levem a respeitá-la no futuro - se houver um futuro. Na sucessão das eras hindus, vivemos hoje a era de Kali Yuga, a era da destruição. Nós costumamos dar tamanha ênfase ao benéfico e ao belo que criamos um arquétipo falso para o Divino Feminino. A Deusa, para ser aceita em nossa cultura, tem de surgir na forma de candura e luz - uma mistura de Marilyn Monroe e Vênus de Milo - sexy e um tanto obtusa. Tais polarizações são perigosas e repercutem com força no Ocidente. Essa imagem não só cria uma norma pela qual as mulheres são vistas, mas também desequilibrou nossa relação com o resto da criação. A cultura ocidental, como suas manifestações espirituais ortodoxas, é dominadora, ditatorial e patriarcal. Não permite que as liberdades fundamentais do ser humano se desenvolvam de forma equilibrada, distorcendo até mesmo as qualidades da sabedoria, do amor, do conhecimento e da compaixão. O caminho de Sophia é o caminho da experiência pessoal. Ela nos leva a áreas que podemos chamar de 'realidade elevada' - os universos criativos a que os mortais comuns são levados por força de suas habilidades vocacionais e criativas. Contudo, o poético, o mágico e o criativo costumam ser negados por nossa cultura. Qualquer pessoa que tenha mergulhado no mundo da visão - definido por muitos como irreal - sabe que seu poder pode melhorar nossas vidas. É Sophia que atua como guia e companheira desta demanda interior, especialmente válida para as mulheres. Uma vez que a criatividade de Sophia é por nós negada, nós a vemos encoberta pelo manto da Deusa Negra, movendo-se silenciosa e misteriosamente para executar seus trabalhos."

IN:http://shaktilalla.blogspot.com/2008/09/deusa-negra.html

SHAKTI - FORMAS E FACES DA MÃE SUPREMA


"Os quatro Poderes da Mãe são quatro de suas Personalidades proeminentes, porções e encarnações de sua divindade através das quais ela age sobre suas criaturas, ordena e harmoniza suas criações nos mundos e dirige a realização de suas mil forças. Pois a Mãe é uma, mas ela se apresenta a nós com aspectos diferentes; muitos são seus poderes e personalidades, muitas suas emanações e Vibhutis que fazem seu trabalho no universo. A Única que adoramos como a Mãe é a Força Consciente divina que domina toda a existência, única e ao mesmo tempo de tantos aspectos que é impossível seguir seu movimento, mesmo para a mente mais veloz e para a inteligência mais livre e mais vasta. A Mãe é a consciência e força do Supremo e está totalmente acima de tudo que ela cria. Mas algo de seus modos pode ser visto e sentido através de suas encarnações e através do temperamento e ação mais palpáveis — porque mais definidos e limitados — daquelas formas de deusa nas quais ela consente em ser manifestada às suas criaturas.

Há três modos de ser da Mãe dos quais você pode tornar-se consciente quando você entra em relação de unicidade com a Força consciente que sustenta a nós e ao universo. Transcendente, a suprema Shakti original, ela está acima dos mundos e liga a criação ao mistério sempre não manifestado do Supremo Universal, a Mahashakti cósmica, ela cria todos estes seres e contém e penetra, suporta e conduz todos estes milhões de processos e forças. Individual, ela encarna o poder desses dois modos mais vastos de sua existência, torna-os vivos e próximos a nós e media entre a personalidade humana e a Natureza divina.


A Shakti única original transcendente, a Mãe, está acima de todos os mundos e suporta em sua consciência eterna o Divino Supremo. Sozinha, ela abriga o poder absoluto e a Presença inefável; contendo ou chamando as Verdades que devem ser manifestadas. Ela as faz descer, do Mistério no qual estavam escondidas, para a luz de sua consciência infinita e dá-lhes uma forma de força em seu poder onipotente e em sua vida ilimitada, e um corpo no universo. O Supremo está manifestado nela para sempre como o perene Sachchidananda, manifestado através dela nos mundos como a consciência una e dual de Ishwara-Shakti e o princípio dual de Purusha-Prakriti, corporificado por ela nos Mundos e nos Planos e nos Deuses e em suas Energias e, graças a ela, configurado como tudo que existe nos mundos conhecidos e em outros desconhecidos. Tudo é seu jogo com o Supremo; tudo é sua manifestação dos mistérios do Eterno, dos milagres do Infinito. Tudo é ela, porque todos são parcela e porção da Força Consciente divina. Nada pode haver aqui ou em outro lugar a não ser o que ela decide e o Supremo sanciona; nada pode tomar forma exceto o que ela, movida pelo Supremo, vê e forma após lançar em estado semente em sua Ananda criadora.


A Mahashakti, a Mãe universal, torna realidade tudo que por sua consciência transcendente é transmitido do Supremo e entra nos mundos que ela criou; sua presença enche-os e suporta-os com o espirito divino e a força e deleite todo-sustentadores divinos, sem os quais eles não poderiam existir. Aquilo que chamamos Natureza ou Prakriti é somente seu aspecto executivo mais exterior; ela conduz e organiza a harmonia de suas forças e processos, impele as operações da Natureza e se move entre elas secreta ou manifesta em tudo o que pode ser visto ou experimentado ou posto em movimento de vida. Cada um dos mundos não é mais que um jogo da Mahashakti daquele sistema de mundos ou universo, que está lá como a Alma e a Personalidade cósmicas da Mãe transcendente. Cada um é algo que ela viu em sua visão, reuniu em seu coração de beleza e poder e criou em sua Ananda.


Mas há muitos planos de sua criação, muitos estágios da Shakti Divina. No cimo desta manifestação de que fazemos parte há mundos de existência, consciência, força e bem-aventurança infinitas, acima dos quais a Mãe está com o poder eterno sem véus. Lá todos os seres vivem e se movem em uma inefável inteireza e uma inalterável unicidade, porque ela os carrega seguros em seus braços para sempre. Mais perto de nós estão os mundos de uma criação supramental perfeita, nos quais a Mãe é a Mahashakti supramental, um Poder de Vontade onisciente e um Conhecimento onipotente divinos que sempre aparecem em seus trabalhos infalíveis e espontaneamente perfeitos em cada processo. Lá todos os movimentos são os passos da Verdade; lá todos os seres são almas e poderes e corpos de Luz divina; lá todas as experiências são mares e inundações e ondas de uma intensa e absoluta Ananda. Mas aqui onde nós moramos estão os mundos da Ignorância, mundos de mente e vida e corpo separados em consciência de sua fonte, dos quais esta terra é um centro significativo e sua evolução um processo crucial. Também isto, com toda sua obscuridade e luta e imperfeição, é sustentado pela Mãe Universal; também isto é impelido e guiado a seu secreto objetivo pela Mahashakti.


A Mãe como a Mahashakti deste mundo triplo da Ignorância, fica num plano intermediário entre a Luz supramental, a vida da Verdade, a criação da Verdade que precisa ser trazida aqui para baixo, a esta hierarquia ascendente e descendente de planos de consciência que, como uma escada dupla, afunda até a insciência da Matéria e sobe de volta novamente, através do florescer da vida e da alma e da mente, até a infinidade do Espirito. Determinando tudo o que deve ser neste universo e na evolução terrestre pelo que ela vê e sente e emana de si, ela está acima dos Deuses, com todos seus Poderes e Personalidades dispostos diante dela para a ação, e envia emanações deles para estes mundos inferiores a fim de intervir, governar, lutar e conquistar, guiar e mudar os seus ciclos, dirigir as linhas totais e as linhas individuais de suas forças. Estas emanações são as muitas formas e personalidades divinas que os homens a cultuaram sob diferentes nomes através dos tempos. Mas ela também prepara e molda, através destes Poderes e suas emanações, as mentes e os corpos de seus Vibhutis, assim como prepara mentes e corpos para os Vibhutis do Ishwara, para que ela possa manifestar, no mundo físico e sob o disfarce da consciência humana, algum raio de seu poder e qualidade e presença. Todas as cenas do jogo terrestre foram, como um drama, arranjadas e planejadas e encenadas por ela, com os Deuses cósmicos como seus assistentes e ela própria como um ator velado.


A Mãe não só governa tudo de cima, mas ela desce para dentro deste universo triplo inferior. Impessoalmente, todas as coisas aqui, mesmo os movimentos da Ignorância, são ela mesma em poder velado e suas criações em substância diminuída, sua Natureza-corpo e sua Natureza-força e elas existem porque, movida pelo misterioso decreto do Supremo para tornar realidade algo que estava lá nas possibilidades do Infinito, ela consentiu no grande sacrifício e pôs sobre si, como uma máscara, a alma e as formas da Ignorância. Mas pessoalmente ela também concordou em descer aqui na Escuridão a fim de poder conduzi-la à Luz; na Falsidade e no Erro a fim de poder convertê-los em Verdade; nesta Morte a fim de poder mudá-la em Vida divina; nesta dor do mundo e sua tristeza e sofrimento obstinados a fim de poder finalizá-los no êxtase transformador de sua sublime Ananda. Em seu profundo e grande amor por suas crianças, ela consentiu em vestir o manto desta obscuridade, condescendeu em suportar os ataques e influências torturantes dos poderes da Escuridão e da Falsidade, sujeitou-se a passar através dos portais do nascimento que é uma morte, tomou sobre si as angústias e tristezas e sofrimentos da criação, porque parecia que somente assim poderia ser erguida para a Luz e Alegria e Verdade e Vida eterna. Este é o grande sacrifício, às vezes chamado o sacrifício do Purusha, mas muito mais profundamente o holocausto da Prakriti, o sacrifício da Mãe Divina.


Quatro grandes Aspectos da Mãe, quatro de seus Poderes e Personalidades principais tomaram a frente em sua direção deste Universo e em sua participação no jogo terrestre. Um deles é sua personalidade de calma amplitude, compreensiva sabedoria, tranqüila benignidade, compaixão inexaurível, majestade soberana e transcendente e grandeza que reina sobre tudo. Um outro encarna seu poder de vigor esplêndido e paixão irresistível, seu humor de guerreiro, sua vontade esmagadora, sua impetuosa velocidade e força que sacode o mundo. Um terceiro é vívido e doce e maravilhoso com seu profundo segredo de beleza e harmonia e ritmo delicado, sua opulência intrincada e sutil, sua atração irrecusável e graça cativante. O quarto é provido com sua capacidade densa e profunda de conhecimento íntimo e trabalho cuidadoso e impecável e perfeição quieta e exata em todas as coisas. Sabedoria, Vigor, Harmonia, Perfeição, são os diversos atributos das Personalidades da Mãe, e são estes os poderes que elas trazem consigo para dentro do mundo, manifestam num disfarce humano em seus Vibhutis e devem erigir, no grau divino de sua ascensão, naqueles que podem abrir sua natureza terrestre à influência direta e viva da Mãe. Às quatro damos os quatro grandes nomes: Maheshwari, Mahakali, Mahalakshmi, Mahasaraswati.


A imperial Maheshwari está situada na amplidão acima da mente e da vontade pensantes, sublimando-as e engrandecendo-as em sabedoria e vastidão ou inundando-as com um esplendor de além delas. Pois ela é a Única poderosa e sábia que nos abre às infinitudes supramentais e à vastidão cósmica, à grandeza da Luz suprema, à casa de tesouro do conhecimento milagroso, ao movimento incomensurável das forças eternas da Mãe. Tranqüila e maravilhosa é ela, grande e calma para sempre. Nada pode movê-la porque toda a sabedoria está nela: nada que ela deseje saber está escondido dela: ela compreende todas as coisas e todos os seres, sua natureza e o que os movimenta, a lei do mundo e seus tempos e como tudo foi e é e deve ser. Nela está uma força que defronta e domina tudo, e nada pode no fim prevalecer contra sua sabedoria vasta e intangível e seu poder alto e tranqüilo. Igual, paciente e inalterável em sua vontade, ela lida com os homens de acordo com sua natureza, e com as coisas e os acontecimentos de acordo com sua Força e a verdade que está neles. Ela não conhece parcialidade, mas segue os decretos do Supremo, e uns ela eleva enquanto outros ela abate ou afasta de si para dentro da escuridão. Ao sábio ela dá uma sabedoria maior e mais luminosa; aqueles que têm visão, ela os admite como seus conselheiros; ao hostil ela impõe a conseqüência de sua hostilidade; o ignorante e o tolo ela guia de acordo com sua cegueira. Em cada homem ela responde e maneja os diferentes elementos de sua natureza de acordo com sua necessidade e seu anseio e com a resposta que eles pedem, exerce neles a pressão requerida ou os deixa em sua querida liberdade para vingarem nos caminhos da Ignorância ou para perecerem. Pois ela está acima de tudo, por nada presa, a nada apegada no universo. E no entanto tem ela mais do que qualquer outra o coração da Mãe universal. Porque sua compaixão é ilimitada e inexaurível; todos são a seus olhos suas crianças e porções do Um, mesmo o Asura, o Rakshasa e o Pisacha e aqueles que são revoltados e hostis. Mesmo suas rejeições são somente um adiamento, mesmo suas punições, uma graça. Mas sua compaixão não cega sua sabedoria nem desvia sua ação do curso decretado; porque a Verdade das coisas é sua única preocupação, conhecimento seu centro de poder, construir nossa alma e nossa natureza na Verdade divina sua missão e seu trabalho.


Mahakali é de uma outra natureza. Não amplidão mas altura, não sabedoria mas força e vigor é seu poder peculiar. Há nela uma intensidade transbordante, uma poderosa paixão de força de alcançar, uma divina violência arremetendo-se para destroçar todo limite e obstáculo. Toda sua divindade se lança para fora num esplendor de ação tempestuosa; ela está aí para a velocidade, para o processo imediatamente efetivo, o golpe direto e rápido, o assalto frontal que arrasta tudo à sua frente. Terrível é seu rosto para o Asura, perigoso e implacável seu humor contra os inimigos do Divino; pois ela é o Guerreiro dos Mundos que nunca foge da batalha. Intolerante com imperfeição, ela lida asperamente com tudo no homem que é relutante e é rigorosa em relação a tudo que é obstinadamente ignorante e obscuro; sua fúria é imediata e direta contra traição e falsidade e malevolência, a má vontade é imediatamente golpeada pelo seu açoite. Ela não tolera indiferença, negligência e preguiça no trabalho divino e golpeia subitamente para despertar com dor aguda, se necessário, o sonolento e o ocioso. Os impulsos que são velozes e diretos e francos, os movimentos que são incondicionais e absolutos, a aspiração que sobe como uma chama são a moção de Mahakali. Seu espírito é indomável, sua visão e vontade são altas e de longo alcance, como o vôo de uma águia, seus pés são rápidos no caminho ascendente e suas mãos estão estendidas para bater e para socorrer. Porque ela é também a Mãe e seu amor é tão intenso quanto sua fúria e ela possui uma bondade profunda e apaixonada. Quando lhe é permitido intervir com seu vigor, os obstáculos que imobilizam ou os inimigos que assaltam àquele que busca, são então quebrados num instante como coisas sem consistência. Se sua raiva é medonha para o hostil e a veemência de sua pressão dolorosa para o fraco e o tímido, ela é amada e venerada pelo grande, o forte e o nobre; porque eles sentem que seus golpes, batendo, transformam em força e perfeita verdade o que no material deles é rebelde, malham o que é torto e perverso e expulsam o que é impuro ou defeituoso. Mas devido a ela o que é feito num dia poderia ter levado séculos; sem ela a Ananda poderia ser ampla e grave ou suave e doce e bela, mas perderia a alegria flamejante de suas intensidades mais absolutas. Ao conhecimento ela dá um poder vitorioso, traz para a beleza e a harmonia um movimento alto e de ascensão e concede ao trabalho lento e difícil em busca de perfeição um ímpeto que multiplica o poder e abrevia o longo caminho. Nada em que faltem os êxtases supremos, as alturas mais altas, os objetivos mais nobres, as visões mais abrangedoras pode satisfazê-la. Por isso, com ela está a força vitoriosa do Divino e é graças a seu fogo e paixão e rapidez que a grande realização pode ser feita agora, em vez de mais tarde.


Sabedoria e Força não são as únicas manifestações da Mãe suprema; há um mistério mais sutil de sua natureza, e sem ele a Sabedoria e a Força seriam coisas incompletas, sem ele a perfeição não seria perfeita. Acima delas está o milagre da eterna beleza, um segredo incaptável de harmonias divinas, a magia fascinante de um irresistível encanto e atração universais que reúnem e mantêm unidos coisas e forças e seres e os obrigam a se encontrarem e unirem para que uma oculta Ananda possa brincar secretamente e fazer deles seus ritmos e suas figuras. Este é o poder de Mahalakshmi, e não existe nenhum aspecto da Shakti Divina que seja mais atrativo para o coração dos seres encarnados. Maheshwari pode parecer demasiadamente calma e grande e distante para a pequenez da natureza terrestre aproximar-se dela ou contê-la, Mahakali demasiadamente veloz e formidável para ser agüentada por sua fraqueza; mas todos se voltam com alegria e anseio para Mahalakshmi. Pois ela lança o encantamento da doçura arrebatadora do Divino: estar perto dela é uma profunda felicidade e senti-la dentro do coração é fazer da existência um enlevo e uma maravilha; graça e encanto e ternura fluem dela como a luz do sol, e onde quer que ela fixe seu olhar maravilhoso ou deixe escapar a beleza de seu sorriso a alma é capturada e aprisionada e mergulhada nas profundezas de uma alegria insondável. Magnético é o toque de suas mãos e sua influência oculta e delicada refina a mente e vida e corpo, e onde ela imprime seus pés correm rios miraculosos de uma extasiante Ananda.


E no entanto não é fácil corrresponder à exigência deste Poder encantador ou manter sua Presença. Harmonia e beleza da mente e da alma, harmonia e beleza dos pensamentos e dos sentimentos, harmonia e beleza em cada ação e movimento exteriores, harmonia e beleza da vida e do ambiente, esta é a exigência de Mahalakshmi. Onde existe afinidade com o ritmos da secreta beatitude do mundo e resposta ao chamado do Todo-Belo e concordância e unidade e o feliz fluxo de muitas vidas voltadas em direção ao Divino, nessa atmosfera ela consente em ficar. Mas tudo o que é feio e mesquinho e vil, tudo o que é medíocre e sórdido e sujo, tudo o que é brutal e rude repele seu advento. Onde o amor e a beleza não estão ou relutam em nascer, ela não vai; onde eles estão misturados e desfigurados por coisas mais baixas, ela logo se volta para partir ou está pouco disposta a derramar suas riquezas. Se nos corações dos homens ela se encontra rodeada por egoísmo e ódio e ciúme e maldade e inveja e discórdia, se traição e cobiça e ingratidão estão misturadas no cálice sagrado, se vulgaridade de paixão e desejo não refinado degradam a devoção, em tais corações a graciosa e linda Deusa não vai demorar-se. Um divino desgosto apodera-se dela e ela se retira, pois não é alguém que insista ou lute; velando seu rosto, espera até que essa coisa diabólica, amarga e venenosa seja rejeitada e desapareça, antes que ela estabeleça de novo sua feliz influência. Nudez e aspereza ascéticas não lhe agradam, nem a supressão das emoções mais profundas do coração e a repressão rígida das partes de beleza da alma e da vida. Pois é através de amor e beleza que ela põe sobre os homens o jugo do Divino. A vida se torna em suas criações supremas um trabalho rico de arte celestial e toda a existência um poema de delícia sagrada; as riquezas do mundo são juntadas e harmonizadas em uma ordem suprema, e mesmo as coisas mais simples e comuns são tornadas maravilhosas por sua intuição de unidade e pelo sopro de seu espírito. Admitida no coração, ela eleva a sabedoria a pináculos de maravilha e revela-lhe os segredos místicos do êxtase que ultrapassa todo conhecimento, responde à devoção com a atração apaixonada do Divino, ensina à força e ao vigor o ritmo que mantém o poder de seus atos harmoniosos e na medida, e lança sobre a perfeição o encanto que a faz permanecer para sempre.

Mahasaraswati
é o Poder de Trabalho da Mãe e seu espírito de perfeição e ordem. A mais jovem das Quatro, ela é a mais hábil em faculdade executiva e a mais próxima da Natureza física. Maheshwari estabelece as grandes linhas das forças-mundo, Mahakali aciona sua energia e ímpeto, Mahalakshmi descobre seus ritmos e medidas, mas Mahasaraswati preside sobre seu processo detalhado de organização e execução, relação de partes e combinação efetiva de forças, exatidão infalível de resultado e realização. A ciência e a habilidade e a técnica das coisas são a província de Mahasaraswati. Ela conserva sempre em sua natureza e pode dar àqueles que escolheu o conhecimento íntimo e preciso, a sutileza e a paciência, a acurada precisão da mente intuitiva e da mão consciente e do olho perspicaz do perfeito trabalhador. Este Poder é o construtor forte, incansável, cuidadoso e eficiente, organizador, administrador, técnico, artesão e classificador dos mundos. Quando ela assume a transformação e a nova construção da natureza, sua ação é laboriosa e minuciosa e parece muitas vezes, à nossa impaciência, lenta e interminável, mas ela é persistente, integral e impecável. Pois em seus trabalhos a vontade é escrupulosa, desperta, infatigável; inclinando-se sobre nós ela nota e toca cada pequeno detalhe, descobre cada mínimo defeito, brecha, desvio ou imperfeição, considera e pesa com exatidão tudo que foi feito e tudo que ainda resta para ser feito depois. Nada é pequeno demais ou parece banal à sua atenção; nada, por mais impalpável ou disfarçado ou latente, pode escapar-lhe. Moldando e remoldando, ela trabalha cada parte até que esta tenha atingido sua forma verdadeira, seja posta em seu lugar exato no todo e cumpra sua finalidade precisa. Em seu constante e diligente arranjo e rearranjo das coisas, seu olho está ao mesmo tempo sobre todas as necessidades e a maneira de resolvê-las, sua intuição sabe o que deve ser escolhido e o que deve ser rejeitado e ela determina com sucesso o instrumento certo, a hora certa, as condições certas e o processo certo. Ela detesta a falta de cuidado e a negligência e a indolência; todo trabalho feito às pressas e irrefletido e enganador, toda falta de jeito e todo “mais ou menos” e todo acidente, toda adaptação errada e mau emprego dos instrumentos e faculdades e todo deixar as coisas por fazer ou feitas pela metade é ofensivo e estranho a seu temperamento. Quando seu trabalho está terminado, nada foi esquecido, nenhuma parte foi mal colocada ou omitida ou deixada numa condição defeituosa; tudo é sólido, acurado, completo, admirável. Nada em que falte a perfeição perfeita a satisfaz, e ela está pronta a enfrentar uma eternidade de labuta se isso for necessário para a plenitude de sua criação. Por isso ela é, de todos os poderes da Mãe, o de maior paciência com o homem e suas mil imperfeições. Gentil, risonha, próxima e prestativa, não facilmente afastada ou desencorajada, insistente mesmo depois de um falhar repetido, sua mão sustenta cada passo nosso, na condição de que sejamos íntegros em nossa vontade e retos e sinceros; pois ela não vai tolerar uma mente ambígua, e sua ironia reveladora é impiedosa para com o drama e a simulação e o auto-engano e a presunção. Uma mãe para nossas necessidades, uma amiga em nossas dificuldades, uma conselheira e mentora persistente e tranqüila, afastando com seu sorriso radiante as nuvens de tristeza e impaciência e depressão, lembrando continuamente a ajuda sempre presente, apontando para a eterna luz do sol, ela é firme, quieta e perseverante no profundo e constante ímpeto que nos impele em direção à integralidade da natureza mais alta. Todo o trabalho dos outros Poderes se apóia nela para ser completo; porque ela assegura o alicerce material, elabora os detalhes e erige e firma a armação da estrutura.


Há outras grandes Personalidades da Mãe Divina, mas foram mais difíceis de trazer para baixo e não sobressaíram com tanta proeminência na evolução do espírito-terra. Há entre elas Presenças indispensáveis à realização supramental — acima de tudo aquela que é a sua Personalidade daquele êxtase misterioso e poderoso e daquela Ananda que flui de um supremo Amor divino, a Ananda que, unicamente, pode sanar o golfo entre as alturas mais altas do espírito supramental e os abismos mais fundos da Matéria, a Ananda que guarda a chave de uma Vida maravilhosa mais divina e mesmo agora sustenta, de suas realidades secretas, o trabalho de todos os outros Poderes do universo. Mas a natureza humana limitada, egoísta e obscura está inapta para receber estas grandes Presenças ou suportar sua potente ação. Somente quando as Quatro tiverem fundado sua harmonia e liberdade de movimento na mente e na vida e no corpo transformados, esses outros Poderes mais raros vão poder se manifestar no movimento terrestre e a ação supramental tornar-se possível. Pois quando todas as suas Personalidades estiverem reunidas nela e manifestadas e o trabalho separado delas estiver convertido numa harmoniosa unidade e elas se elevarem à divindade supramental da Mãe, a Mãe então é revelada como a Mahashakti supramental e traz, vertendo as Personalidades para baixo, as luminosas transcendências de Mahashakti a partir do éter inefável de suas Personalidades. A natureza humana pode transformar-se então em natureza divina dinâmica, pois todas as cordas elementares da Consciência-Verdade e da Força-Verdade supramentais estão esticadas juntas e a harpa da vida está pronta para os ritmos do Eterno.

Se você deseja esta transformação, coloque-se nas mãos da Mãe e de seus Poderes, sem objeção ou resistência, e sem impedimentos, deixe-a fazer seu trabalho dentro de você. Você deve ter três coisas: consciência, plasticidade, entrega irrestrita. Pois você deve ser consciente em tua mente e alma e coração e vida e nas próprias células de teu corpo, percebendo a Mãe e seus Poderes e o trabalho deles; pois embora ela possa trabalhar em você, e realmente o faz, mesmo em tua obscuridade e em tuas partes e momentos não conscientes, isso não é a mesma coisa que você estar em uma comunhão desperta e viva com ela. Toda a tua natureza deve ser plástica ao toque dela — sem questionar, como a auto-suficiente mente ignorante questiona e duvida e disputa e é a inimiga da própria iluminação e mudança; sem insistir nos próprios movimentos como o vital no homem insiste e persistentemente opõe seus desejos obstinados e sua má vontade a toda influência divina; sem obstruir e ficar entrincheirado na incapacidade, inércia e Tamas, como a consciência física do homem obstrui e, prendendo-se a seu prazer em pequenez e escuridão, grita contra cada toque que perturba sua rotina sem alma ou sua preguiça estúpida ou sua sonolência entorpedida. A entrega sem reserva de teu ser interior e exterior trará esta plasticidade para dentro de todas as partes de tua natureza; a consciência irá despertar em todas as partes em você, pela constante abertura à Sabedoria e Luz, à Força, à Harmonia e Beleza, à Perfeição que vêm fluindo de cima. O próprio corpo despertará e unirá finalmente sua consciência, não mais subliminal, à Força supramental supraconsciente, sentirá todos os poderes dela impregnando-o de cima e de baixo e ao redor dele e vibrará com um Amor e Ananda supremos. Mas mantenha-se em guarda e não tente entender e julgar a Mãe Divina segundo tua pequena mente terrestre, que gosta até mesmo de submeter as coisas que estão além dela às suas próprias normas e padrões, aos seus raciocínios estreitos e impressões errôneas, à sua interminável ignorância agressiva e ao seu pequeno conhecimento autoconfiante. A mente humana, trancada na prisão de sua semi-iluminada obscuridade, não pode seguir a liberdade multiforme dos passos da Shakti Divina. A rapidez e a complexidade da visão e da ação Dela escapam à sua trôpega compreensão; as medidas do movimento Dela não são suas medidas. Desnorteada pela rápida alteração das muitas personalidades diferentes Dela, Sua criação de ritmos e Sua quebra de ritmos, Seu acelerar e Seu retardar a velocidade, Seus modos variados de lidar com o problema de um e de outro, Seu assumir e largar agora esta linha e logo aquela outra e Seu juntar todas elas, a mente humana não reconhecerá o caminho do Poder Supremo quando este descreve círculos e se arremessa impetuosamente para cima através do labirinto da Ignorância, rumo a uma Luz altíssima. Pelo contrário, abra tua alma para ela e satisfaça-se em senti-la com a natureza psíquica e em vê-la com a visão psíquica, as quais, unicamente, respondem corretamente à Verdade. A própria Mãe então iluminará tua mente e coração e vida e consciência física com os elementos psíquicos deles e também lhes revelará os caminhos e a natureza Dela. Evite também o erro da mente ignorante de exigir do Poder Divino que ele aja sempre de acordo com as nossas cruas noções superficiais de onisciência e onipotência. Pois nossa mente clama por ser a cada momento impressionada pelo poder milagroso e pelo sucesso fácil e pelo esplendor deslumbrante; senão, ela não pode acreditar que o Divino esteja aqui. A Mãe está lidando com a Ignorância nos campos da Ignorância; ela desceu lá e não está inteiramente acima. Em parte ela vela e em parte revela seu conhecimento e seu poder, freqüentemente não os dá ao seus instrumentos e às suas personalidades e, para poder transformá-los, segue o caminho da mente que busca, o caminho do psíquico que aspira, o caminho do vital que luta, o caminho da natureza física aprisionada e sofredora. Há condições que foram decretadas por uma Vontade Suprema, há muitos nós cegos que têm de ser desatados e não podem ser abruptamente cortados em pedaços. O Asura e o Rakshasa prendem esta natureza terrestre em evolução e têm de ser enfrentados e vencidos em suas próprias condições, em seu próprio domínio e província por eles conquistados durante muito tempo; o humano em nós precisa ser conduzido e preparado para transcender seus limites, e ele é fraco e obscuro demais para ser subitamente erguido a uma forma muito além dele. A Consciência e a Força Divinas estão aí e fazem a cada momento o que é necessário nas condições do trabalho, dão sempre o passo que é decretado e moldam no meio da imperfeição a perfeição que deve vir. Mas somente quando a supramente tiver descido em você é que a Mãe, como a Shakti supramental, pode lidar diretamente com naturezas supramentais. Se você segue tua mente, ela não reconhecerá a Mãe mesmo se ela se manifestar diante de você. Siga tua alma e não tua mente, tua alma que responde à Verdade, e não tua mente que se lança sobre aparências; confie no Poder Divino e ela libertará os elementos divinos em você e os moldará todos numa expressão da Natureza Divina. A mudança supramental é uma coisa decretada e inevitável na evolução da consciência da terra; pois sua ascensão não está terminada e a mente não é o seu último cimo. Mas para que a mudança possa chegar, tomar forma e perdurar, é necessário o chamado de baixo com a vontade de reconhecer e de não negar a Luz quando ela vier, e é necessária a sanção do Supremo, de cima. O poder que media entre a sanção e o chamado é a presença e o poder da Mãe Divina. Somente o poder da Mãe, e não um esforço e tapasya humanos, pode romper a tampa e arrancar a cobertura e moldar o vaso, e trazer para baixo, para este mundo de obscuridade e falsidade e morte e sofrimento, Verdade e Luz e Vida divinas e a Ananda do imortal."

Trecho do livro, "Mãe", do mestre Sri Aurobindo (Yoga Integral)
Encontrado em ÊXTASE DA DEUSA

MÃE GUERREIRA

1º DE OUTUBRO

Início do festival de Durga Puja, na Índia, celebrando Durga, a defensora contra o mal. A Grande Mãe Durga, “A Inacessível”, era parte de uma tríade de Deusas, juntamente com Parvati ou Maya, como donzelas e Uma ou Prisni, como anciãs. Representada como uma deusa guerreira, cavalgando um leão ou tigre e carregando diferentes armas em seus dez braços, ela lutava ferozmente para defender seus filhos divinos e humanos contra demônios e os monstros maléficos. Como ela bebia o sangue dos inimigos, seus altares eram salpicados com o sangue dos cativos de guerra ou de criminosos.
Durga personifica o instinto animal da maternidade, a Mãe que defende suas crias contra qualquer perigo. Às vezes chamada Shashti, “A Sexta”, padroeira das mães, invocada no sexto dia após os partos para tecer encantamentos de proteção aos filhos e às mães. O sétimo dia após o parto era considerado dia de repouso, tradição antiga que antecede em muitos mitos os deuses criadores como Ahura, Mazda, Ptah, Marduk, Baal e Jeovah, que descansaram no sétimo dia após a criação do mundo.
A função atual de Durga é restaurar a ordem no mundo e a paz nos corações em tempos de crise. Seu Festival na Índia é precedido de purificação, jejum e abstinência. As imagens da Deusa são limpas, purificadas com água dos rios sagrados e decoradas com guirlandas de flores. As pessoas lhe oferecem flores, folhagem, incenso e sacrificam cabras e ovelhas. A multidão canta e dança ao redor das fogueiras em louvor à Deusa. No final da cerimônia, algumas imagens são jogadas nos rios como um ritual de purificação. No Nepal, o festival equivalente é Dassehra, que dura quinze dias. Neste período ninguém trabalha e as famílias se reúnem para rituais de purificação e oferendas. Comemora-se a vitória de Durga sobre o demônio quando ela o matou, disfarçado de búfalo.
Festa de Fides, deusa romana da fé e da liberdade.
Dia de Santa Teresa, no México e em Cuba, modernização de uma antiga celebração de Oyá, a deusa ioruba do vento e das tempestades.

Informações extraídas do livro “ O Anuário da Grande Mãe”, de Mirella Faur.

IN: http://www.teiadethea.org/

domingo, 26 de setembro de 2010

DO FUNDO DO CORAÇÃO

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EU SOU PAGÃ HOJE NO BRASIL

Por Mavesper Cy Ceridwen


Eu sou pagã hoje no Brasil e vivo a religião da Deusa em amor e sinceridade, caminhando e aprendendo a fluir com os ritmos da natureza. Eu procuro viver em beleza, para que a beleza me envolva. Conheço a Deusa e a cada dia mais a compreendo um pouco, sabendo que jamais acabarei essa tarefa, o que enche minha vida de propósito e riqueza. Encontro a Deusa na face de cada pessoa que cruza meu caminho, mesmo as que me são desagradáveis.

Eu sou pagã hoje no Brasil e meu corpo dói com cada notícia de água envenenada, natureza esgotada, animais maltratados, extermínios e queimadas insanas... Conheço a Lua no meu próprio sangue, mesmo quando as nuvens a encobrem no céu. Vivo os ciclos da natureza e celebro as datas ancestrais, danço, canto e comemoro os grandes e pequenos Sabbats. A cada fase da Lua saúdo-a em grupo ou sozinha, mas nunca deixo de sorrir para cada um de seus mistérios.

Eu sou pagã hoje no Brasil e uso a magia para melhorar minha vida e das pessoas que me procuram, aprendendo com meus erros e renovando minha capacidade de reconhecer o universo como um milagre de magia e perfeito equilíbrio. Conheço os diversos mundos e busco trazer deles o que melhor condiz com minha realidade e as necessidades que surgem nos giros da Roda da Vida, aprendendo a lição dos ciclos.

Eu sou pagã hoje no Brasil e luto para me conhecer cada vez mais, vendo minha sombra e acolhendo o que posso integrar, conhecendo a Deusa Negra em minha vida e aprendendo a amá-la. Como pagã também vejo a sombra coletiva de nossa nação e não fecho os olhos quanto ao crime, a violência, a corrupção, a posse da terra, a miséria e a fome. Como pagã sou revolucionária, não conformista, universalista e ardorosa defensora das liberdades, mantendo a unidade da consciência ecológica a sabendo a importância de defender o direito de quem pensa diferente de nós.

Eu sou pagã hoje no Brasil e vejo com inquietação nossa religião se tornar mais conhecida e visada. Combato a ignorância esclarecendo todos os que se interessam pela bruxaria, mostrando que somos pessoas normais, com vidas normais e não espetáculos de salão. Sofro com a incompreensão, muito mais pelos outros do que por mim. Admiro quem se mantém fiel ao Caminho mesmo diante de dificuldades familiares e sociais e faço valer nossas leis de não discriminação religiosa.

Eu sou pagã hoje no Brasil e percebo a importância de conscientizar as pessoas de sua própria auto-imposta escravidão. Vejo a importância de agir e viver de acordo com meu poder pessoal e abençoo cada chance de transformação que a vida me traz. Como bruxa, tenho orgulho de ser mulher, de falar a outras mulheres sobre nossa irmandade básica e de ver os homens tocados pela Deusa como os companheiros ideais e a única esperança de uma sociedade feita de parceria e soma de capacidades.

Eu sou pagã hoje no Brasil e celebro a Roda do Ano criando junto com os deuses e com as pessoas que me cercam a dança ancestral, refazendo os caminhos já trilhados por nossos antepassado de uma maneira nova e em consonância com nosso tempo. Levo minhas crianças às celebrações lunares e solares, desejando que elas cresçam cada vez mais em consciência, auto-determinação, independência e liberdade. Que elas possam fazer a magia do amor modificar os mundos.

Eu sou pagã hoje no Brasil, vivendo em cidades grandes sou uma bruxa urbana que descobre a natureza nos locais mais inusitados. Danço minhas danças de poder nas danceterias, ou vou para parques. Sempre que posso busco a mata., o cerrado e a praia. Compro meus instrumentos em shoppings ou os faço com minhas mãos . Me reabasteço na natureza e dou poder a tudo que me cerca, vivificando com minha magia tudo o que faço, de escrever um texto a preparar um almoço, da roupa que uso ao modo como me movimento. Descubro a riqueza da minha terra, da herança indígena às contribuições européias e africanas, e as honro em meus rituais sem esquecer que a Deusa não tem nacionalidade, e fala todas as línguas.

Eu sou pagã hoje no Brasil e conheço muitos pagãos, cada vez mais gente que acorda do pesadelo das visões retilíneas do universo e passa a sonhar o doce sonho da Terra. Nessas pessoas descubro meus irmãos de alma, meus companheiros de caminho, meus parceiros na dança espiral. Me orgulho de viver em um tempo em que a Deusa sorri e podemos retribuir seu sorriso em alegria e liberdade. Nunca mais os tempos da fogueira!

Eu sou pagã hoje no Brasil e vejo mais e mais gente ouvindo o Chamado da Senhora. Eu sou pagã hoje no Brasil e a cada dia vejo aumentar a responsabilidade de orientação e auxílio que devemos dar aos mais novos na Arte, como expressão de nosso compromisso com os Antigos.

Eu sou pagã hoje no Brasil e sei que temos um dos maiores movimentos wiccanianos do mundo na atualidade, e busco me integrar às iniciativas e eventos que façam uma ponte entre nós e nossos irmãos de outros países, sabendo que isso fortalece nossos elos e o paganismo como um todo.

Eu sou pagã hoje no Brasil e sei como é difícil explicar a alguém que não o seja o que significa essa sensação única de ser integrado à Mãe e ser único e múltiplo, unido, completo e sagrado.


Eu sou pagã hoje no Brasil e a respiração de cada ser vivo deste planeta, e a pulsação de cada estrela além, bate no compasso do meu coração, pois eu sei que Dela é toda vida e todo amor.

IN: http://www.templodadeusa.com.br/virtual/vida/paga.htm

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

MONIKA VON KOSS

Pacífica guerreira

Depois que entraram no mercado de trabalho, as mulheres transformaram radicalmente suas expectativas de vida. Conquistaram direitos, curaram muitos aspectos, equilibraram o jogo, mas temos a sensação de que o pêndulo da civilização foi para o outro lado. As mulheres, por exemplo, atualmente estão comprando sexo, que era o máximo simbólico do poder masculino. Perguntamos a quem entende: o que está acontecendo com as mulheres hoje?
As mulheres sempre ‘compraram’ sexo, mas não pagavam com dinheiro, mesmo porque elas não tinham acesso ao dinheiro. Elas compravam indiretamente com a submissão, a sedução e outras artimanhas. A grande diferença é que agora elas o fazem de modo direto e, neste sentido, elas se equiparam e imitam os homens.
Aliás, seria necessário definir melhor o que entendemos por sexo. A compra de sexo não está relacionada com prazer, mas com poder. O sexo físico é a arena onde se defrontam os poderes de um ou de outro.
Os motivos são sempre individuais, podendo ir desde a imitação do comportamento dos homens até o desejo de vingar-se. Uma das razões é o fato de que, pela liberação dos costumes e a oferta fácil e abundante de parceiras sexuais jovens e freqüentemente inexperientes e menos exigentes, as mulheres de uma certa idade não encontram parceiros sexuais para vivenciar seu impulso sexual em uma relação de companheirismo. Fica como alternativa pagar para satisfazer-se fisicamente. Com dinheiro, são elas que estão no poder.
Um encontro íntimo de uma mulher e um homem tem um sentido muito mais amplo do que simplesmente um momento de prazer físico.
Prazer físico é a sensação de alívio ao descarregar uma quantia de energia acumulada. Neste sentido, também compro prazer físico quando vou ao massagista e me alivio das tensões acumuladas no corpo. Ou quanto tomo um analgésico e me desvencilho de dores.
Um encontro sexual significativo e nutridor é mais do que alívio físico; requer o encontro de almas, onde há uma troca energética que nos traz um sentimento de união, se não com a totalidade do universo (isto seria o êxtase!), pelo menos com uma outra pessoa. Este sentimento de união não se obtém em uma troca puramente física.
Assim, poderia dizer que as mulheres de hoje estão descobrindo seu próprio poder e exercendo-o de uma forma distorcida pela falta de modelos femininos de exercício do poder. Toda experiência de poder na nossa sociedade está baseada no modelo masculino, e é este que é imitado.

No livro Feminino + masculino, você afirma que somos irracionalmente apegados às imagens que temos a respeito de como deveria ser uma mulher ou um homem. E que devemos buscar a possibilidade de nos expressar enquanto “humanos”, sem nos preocupar com nossa conformação biológica. É por aí que começa o caminho das pedras para a cura das polaridades sexuais?

Sim, e é um caminho longo, que requer muita consciência. Primeiro, precisamos tornar conscientes as imagens impressas em nossa mente profunda, entendê-las, acolhê-las e avaliar se elas estão em consonância com aquilo que somos e queremos. Depois precisamos substituí-las por imagens que sustentem de forma positiva o que somos ou queremos ser. Parte deste trabalho pode ser feito sozinho ou com a ajuda de pessoas amigas e inimigas (estas muitas vezes nos ajudam mais, porque revelam coisas a nosso respeito que não queremos saber!). Mas, no que diz respeito às impressões mais profundas, que sustentam crenças e emoções limitadoras, podemos precisar de ajuda especializada, terapeutas que disponham de consciência e técnicas que nos ajudem a aprofundar o processo e que nos auxiliem a encontrar o caminho para nosso verdadeiro Ser.
Não acho que possamos desconsiderar nossa conformação biológica. Sempre seremos mulheres e homens, mas se pudermos ser plenamente quem somos, sem os papéis limitadores e fixos que nos são prescritos socialmente, podemos nos relacionar com todas as demais pessoas do lugar de inteireza e valor próprio com o lugar de inteireza e valor da outra pessoa.
Uma dica, que pode ajudar qualquer pessoa a começar este caminho das pedras e transformá-lo em um caminho gramado, é suspender o julgamento - sobre os outros e sobre si mesmo. Em vez de julgarmos o comportamento, a atitude, a reação de uma pessoa (nós incluídas!), podemos buscar entender sua razão e nos perguntar: Para quê? Como? De que outra forma? Estas perguntas são sempre melhores do que a clássica pergunta “Por quê?”, que apenas fecha a questão e não abre vias alternativas.
Suspender o julgamento não é achar tudo lindo e maravilhoso, sem discriminação. Apenas significa que, antes que eu tenha acesso a múltiplas perspectivas de um evento, eu suspendo meu julgamento e continuo olhando, perguntando e refletindo a respeito. Depois eu posso concluir minha posição em relação a ele.

O que são, na prática, parceiros equivalentes?
Parceiros equivalentes são duas pessoas inteiras em si mesmas
. Elas podem ser diferentes, cada qual com suas características próprias, suas habilidades específicas, seus saberes e preferências pessoais, sem que isto signifique que uma é melhor que a outra, que uma ‘manda’ mais que a outra, que uma tenha ascendência sobre a outra. Isto requer respeito mútuo e valorização das próprias qualidades e das qualidades da outra pessoa, uma complementando a outra com suas habilidades. Quando duas pessoas conseguem se relacionar neste nível, isto indica que cada uma delas é inteira em si mesma e que a parceria enriquece a vida de ambas. Isto significa incluir em vez de excluir.

Como funciona a polarização sexual reprojetada no anímico? Freud e a teoria da inveja do pênis caducaram? As mulheres já encontraram o conforto do seu espaço único?
Freud baseou a distinção psicológica entre homens e mulheres a partir das diferenças sexuais anatômicas. A inveja do pênis é apenas a inveja do poder do outro. Quando eu tenho poder próprio, não preciso ter ciúme do poder do outro. A curiosidade sexual entre crianças é mútua, os meninos querendo ver como são as meninas, e estas vendo mais facilmente como são eles. O feminino sempre é mais misterioso, porque seu poder se baseia em processos mais interiorizados: menstruação, gestação, lactação, por exemplo, enquanto o masculino é exteriorizado, o poder se expressa mais no social.
Jung re-projetou esta polarização sexual no anímico, ou seja, ele polarizou a fonte interna, estabelecendo a distinção social entre homens e mulheres no mundo também na dimensão anímica, de modo que os homens são impulsionados pelo feminino interno (anima) e as mulheres pelo masculino interno (animus). Assim, em vez de conduzir a uma inteireza pessoal, ao retorno da unidade a partir da qual surge a polaridade necessária para qualquer manifestação, ele aprofundou a polarização. Mesmo falando em última instância do self, para Freud o self masculino é a referência do equilíbrio desejável para homens e mulheres.
Para que as mulheres encontrem conforto em serem mulheres, é preciso que valorizem ambas as polaridades em si mesmas e nos homens, sem valoração de uma em detrimento da outra. O modelo que nós, mulheres, usamos para nos reconhecer ainda é o modelo masculino, pois este é o valorizado e enfatizado em quase todas as instâncias da vida cotidiana. Esta é uma das razões pelas quais as mulheres buscam imitar este modelo. Elas buscam valorização e reconhecimento através do modelo masculino. Mas isto elas só vão conseguir encontrar em si mesmas, valorizando e reconhecendo a si mesmas, suas companheiras de viagem e também - e isto é importante! - todos os parceiros masculinos nesta empreitada que é a vida.
Algumas mulheres já estão exercitando isto em suas vidas, mas para que isto se torne possível para todas, é preciso que a sociedade como um todo se transforme.

Qual é, hoje em dia, a verdadeira influência das mães na reprodução de uma educação machista? Seria correto afirmar que a maioria das famílias ainda cria homens e mulheres impregnados de machismo?
Há muito que as mães são culpadas de tudo! Vamos pensar nas mães como mulheres? Elas estão inseridas em um mundo definido pelo masculino, influenciadas por todos os meios, como qualquer outra mulher e homem. Tornar-se mãe não traz imediata e magicamente uma mudança nos valores e crenças que a mulher aprendeu a sustentar, em conseqüência de seu processo de socialização.
Além disso, a mulher não é a única ‘educadora’ no seio familiar, mesmo porque ela hoje não educa sozinha e antigamente não tinha poder para decidir como educar. É importante sempre levar em consideração o contexto de uma situação, porque a mãe também não é a única influência de uma criança enquanto cresce. Vivemos em uma sociedade machista, o que as mães podem fazer sozinhas? Isto não é pedir pelas Supermães, para que depois possamos culpá-las pelos nossos equívocos?
A família reproduz a organização social vigente e, se as mães são as mantenedoras desta organização social, quando as mulheres saem para o mundo do trabalho dito ‘masculino’, elas vão ter outras experiências, reflexões e elaborações, transformando-se. Com sua própria transformação, elas vão transmitir isto não apenas para seus filhos, mas para todas as pessoas com as quais se relacionam. É assim que a sociedade muda. Isto é tarefa de cada pessoa e leva seu tempo. Depende de cada uma/um de nós.

Em seu livro Rubra Força, sangrar vibra como um ato de poder. Se as mulheres, em sua maioria, retomassem conexão com seu sagrado, haveria menos cólicas menstruais e dores de parto?

As dores de parto não são um castigo de deus, mas estão relacionadas com a configuração anatômica humana: um ser com uma cabeça mais ou menos grande precisa passar por um canal estreito que pode ser mais ou menos flexível. O conforto e o sedentarismo da vida moderna não ajudam a facilitar este processo. A perda do sentido do sagrado transforma uma dor “engrandecedora” em algo indesejável. Apesar disto, certamente muitas mulheres experimentam o parto como um momento de realização profunda - isto talvez não significa ausência de dor, mas esta dor traz uma recompensa que a torna insignificante diante da experiência. Ao parir a partir de seu próprio poder, o esforço da mulher tem outro significado.
Podemos fazer um raciocínio semelhante com as cólicas menstruais. Diante dos desenvolvimentos tecnológicos, mudamos nosso modo de viver, de nos alimentar, de nos relacionar com os eventos biológicos. Isto altera o equilíbrio biológico e o corpo busca se adaptar e compensar. Cólicas são sempre contrações musculares; e contrações são sempre indicações de tensão, e uma tentativa de eliminar a tensão, ao mesmo tempo. Neste sentido, as cólicas menstruais podem nos fornecer informações sobre nós mesmas, se nos abrirmos para ouvir a voz do corpo, em vez de tentar calá-la pelo uso de analgésicos. Isto não quer dizer que devemos procurar o sofrimento e não aliviá-lo, mas podemos penetrar mais profundamente nas nossas sensações e sentimentos, trazendo consciência e, talvez, alívio de nossa tensão e das cólicas, por decorrência.
Há um grande movimento de retorno ao sagrado, mas a grande maioria segue um caminho masculino, mesmo quando atividades físicas são envolvidas. Para as mulheres, é importante retornar aos processos físicos femininos, pois estes foram o alvo principal da supressão do valor das mulheres no patriarcado.

Fluxos tão fundamentais na vida de uma mulher, o leite e o sangue... Como você traduz esse interessante link feminino com os líquidos?
Homens e mulheres, somos compostos por 80% de água, assim como o planeta possui muito mais água do que terra. Assim como a vida emergiu do mar, a cria humana emerge das águas uterinas. Como mamíferos, o alimento para a cria humana jorra dos seios das fêmeas. Estas experiências arcaicas são atávicas, ou seja, estão profundamente inscritas na matéria de que somos feitos e entretecidas com o que somos. Isto faz com que as águas, e tudo que flui, simbolicamente sejam associadas com o feminino.

Nos anos recentes, há um retorno bem expressivo da espiritualidade matrifocal em nível mundial. Como você enxerga esse fenômeno no Brasil?
Não tenho conhecimento direto suficiente para emitir uma opinião objetiva. Do que conheço, sei que não basta usar o rótulo de matrifocal para que seja, realmente, uma perspectiva feminina. Apesar disto, acho todas as tentativas válidas, pois de alguma forma são manifestações de algo que está muito emaranhado e precisa de meios variados para vir à tona.
A espiritualidade matrifocal busca recuperar um tempo em que o centro da organização social era a mãe e seus filhotes - o que ainda hoje predomina. Havia uma valorização do papel materno, uma questão básica para a sobrevivência de pequenos grupos humanos e sua expansão. Em minha opinião, isto não estava relacionado com poder, mas com o funcionamento natural da vida, pois estes pequenos grupos arcaicos dependiam profundamente de todos os indivíduos do grupo para sua sobrevivência.
Acredito que o desenvolvimento dos conceitos de masculino e feminino tem mais a ver com as sociedades modernas, onde o poder está desigualmente dividido entre seus integrantes, e especialmente entre mulheres e homens.

Qual é a importância dos clãs modernos? Mulheres de cidade grande em comunhão pelo simples prazer de estarem juntas... Como você vê a retomada da ritualização dos ciclos, da natureza “circular”, da sintonia com a lua, etc.?
Por que as mulheres não deveriam se reunir pelo simples prazer de estarem juntas? Aliás, acho que este é o motivo mais genuíno para que mulheres e homens, separados ou misturados, estejam juntos.
Acho de fundamental importância as mulheres se reunirem, porque a organização familiar nuclear isolou as mulheres, cada qual em sua casa com sua cria, isolando-a do contato humano adulto tão necessário à qualquer pessoa. Quando as mulheres se reúnem, elas ficam mais à vontade para ser quem são. Assim que um homem se faz presente, há uma mudança de atitude, em virtude da contaminação pela perspectiva masculina dominante, também na mente das mulheres.
Assim, para que as mulheres aprendam a sustentar seu próprio jeito de ser no mundo, é importante experienciarem este mundo feminino em um ambiente apropriado, como sempre fizeram as mulheres tribais, quando se retiravam para a tenda da lua, para viverem sua menstruação, ou se retiravam para a floresta para parir seus filhos.
Quando nos conectamos com os ciclos da natureza, estamos nos conectando com nossa natureza interna. Quando ritualizamos estes momentos, criamos novas impressões e hábitos, que vão nos possibilitar sustentar nosso jeito de ser em todos os momentos da vida.

Há dezenas de revistas femininas no Brasil, e outros tantos programas especializados na tevê. Como você vê essa explosão editorial, e a quantas anda o foco e o “discurso” da mídia?
A mídia é uma atividade econômica que precisa trazer lucro, como toda atividade econômica. Isto posto, o tema do feminino é atual, as mulheres estão em busca de si mesmas, as pessoas de um modo geral não têm tempo, nem hábito, nem são estimuladas para se aprofundarem em qualquer tema.
As revistas procuram atender à demanda de seu público por soluções rápidas, fáceis, simplistas e charmosas. Precisam vender os produtos de seus anunciantes para financiar sua atividade. A busca incessante de novidade faz com que o de hoje já esteja ultrapassado amanhã. Todos estes elementos não propiciam um mergulho nas profundezas do Ser. Qualquer tema que requer aprofundamento e transformação vai contra todas estas demandas.
A grande contribuição da mídia é a divulgação da informação e um primeiro contato com temas que, de outro modo, a pessoa não teria. Boa informação, transmitida em sintonia com o estado de coisas do mundo atual, pode abrir caminhos. O aprofundamento fica restrito a espaços mais intimistas.

A intuição é domínio do feminino? Procede a sensação geral de que as mulheres têm mais curiosidade pelo esoterismo? A febre pelos oráculos, por exemplo, como você explica?

A intuição é uma habilidade humana e, portanto, mulheres e homens a possuem. O que se chama do ‘sexto sentido’ das mulheres foi e é uma habilidade necessária para criar os rebentos. É a capacidade de empatia com sua cria, para saber o que estes seres recém chegados ao mundo precisam para que se desenvolvam de modo saudável.
Menos submetidas ao mundo estritamente racional como foram os homens, as mulheres tiveram mais experiência, tempo e permissão para manterem despertas suas habilidades ditas metafísicas, como é o caso da intuição. E isto faz com que sejam mais atraídas para o “esoterismo”. E ponho esta palavra entre aspas, porque o verdadeiramente esotérico são as ditas ciências secretas, que eram secretas apenas porque eram inacessíveis aos não iniciados, do mesmo modo que uma matéria universitária é inacessível ao aluno do primeiro grau.
A febre pelos oráculos revela o sentimento das mulheres de que não possuem, elas próprias, a capacidade de determinarem sua vida. Precisam que alguém lhes diga que vai acontecer o que desejam. Isto não quer dizer que os oráculos não têm sua função e importância, para nos revelar coisas a respeito de nós mesmas, trazendo consciência. Mas isto não seria uma “febre”.

Como você relaciona as deusas “Afrodite” e “Artemísia” com a mulher atual? É possível reconhecer um homem pelas deusas que sua mulher vibra?

Afrodite é a Deusa que representa a energia que mantém o universo coeso. Ela é o poder de atração que une as pessoas e que nós reduzimos ao apelo sexual, empobrecendo nossa experiência. Também violamos Afrodite quando reduzimos a beleza a uma forma pré-determinada, como fazem as cirurgias plásticas e os regimes, enquanto permitimos que todo nosso meio-ambiente seja degradado pela feiúra. Há uma exacerbação da sexualidade como distorção de Afrodite que precisa ser curada. E a cura pode ser fornecida por Artemísia, esta deusa que se recusa a participar do patriarcado e se retira para a floresta, onde vive de acordo com seus desejos e a natureza. Ela se expressa pela busca pela natureza, pelo movimento ecológico e a busca pela solitude, onde nos encontramos com nós mesmas. Ela, por sua vez, precisa de Afrodite para curar seu sentimento de solidão.
As Deusas que uma mulher vibra dizem respeito apenas a ela. Podemos talvez reconhecer o que busca um homem, pelas mulheres com quem se relaciona. Mas podemos reconhecer as deusas em um homem, pois os homens também são permeados pela energia feminina, assim como as mulheres são permeadas pela energia masculina.

Qual mensagem final você deixaria para os leitores do ABSOLUTA? Como vê nossa proposta editorial?
Acho importante um site como o ABSOLUTA, pois divulga as questões do feminino e do espiritual e as pessoas ligadas a este tema, com qualidade e conhecimento. A internet hoje é um veículo importante de conexão entre as pessoas.
Gostaria de dizer a todas as pessoas - mulheres e homens - que busquem ser quem são, conscientes de que sua participação é importante, independente do que sejam ou façam. Todos somos uma parte única e importante da humanidade.


Colaborou:
Paloma Piragibe
Jornalista
palomapiragibe@hotmail.com
Rio de janeiro/RJ

IN: ABSOLUTA - ONLINE