"E aqueles que pensam em Me procurar, saibam que a vossa busca e vosso anseio devem beneficiar-vos apenas se vós souberdes o Mistério; se o que vós procurardes, vós não achardes dentro de vós mesmos, então nunca encontrarão fora. Pois eu tenho estado convosco desde o Início e Eu Sou Aquela que é alcançada ao final do desejo"


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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

EM BUSCA DA DEUSA

EM BUSCA DE SI MESMA

Houve e há muitas formas de Busca da Deusa, digamos a nível exterior e a nível interior, mas para mim nenhuma se torna tão definitiva e substancial se a Mulher não estiver EM SI MESMA consciência à partida da causa e origem da sua cisão, da cisão da mulher ocidental…por isso só lhe vou responder a uma questão que para mim é essencial e que é toda a base do meu trabalho de muitos anos e experiência pessoal.

Trata-se da integração e consciência das duas mulheres separadas na psique da mulher, Lilith, primeira mulher de Adão, insubmissa ao macho e Eva mais tarde tirada da costela de Adão por suposto bíblico.

Mais tarde como sabemos, no Novo Testamento, essa cisão consolida-se quando em concílios sucessivos, no princípio do cristianismo, com a divisão das duas mulheres mais próximas de Cristo, a presumível amante, Maria Madalena, companheira de Jesus, e a mãe, a Virgem Santa, considerada imaculada, porque O concebe sem “pecado”. Um facto que pode ter sido extraordinário e mágico é elevado ao céu para rebaixar as outras mulheres…

Há deste o início da religião judaico-cristã, como vemos, uma cisão da mulher em duas…mas essas duas mulheres são afinal de contas…uma só. Uma só mulher que era integra e convivia “sem pecado” com o seu lado maternal em perfeito equilíbrio com o erótico.

Depois de tantos séculos de obscurantismo religioso e dogmas criados pela Igreja católica romana é agora tempo de as mulheres ACORDAREM para si mesmas e para o seu verdadeiro potencial e integrar as duas mulheres cindidas na Bíblia…

Essa integração pode dar-se AGORA, PORQUE ESTE É O TEMPO - na psique e na alma da mulher – na união do corpo alma e espírito – e porque elas coabitam e sempre coabitaram a um nível profundo, celular e fazem ambas parte do SER MULHER inteira. E não bastam rituais…ao luar ou no mar…evocar Iemanjá ou Lilith…ir de joelhos a Fátima… é preciso SER-SE MULHER INTEIRA.

E É urgente esse acordar porque é nessa divisão que a cultura judaico-cristã se baseia ainda para erguer o seu domínio e exclusão de uma delas criando a dicotomia da boa e da má mulher que impregna toda a literatura e hoje está obscenamente patente nas telenovelas. Essas duas mulheres em nós não são antagónicas, quem o decretou foi a cultura patriarcal…e a Igreja de Roma. Foram séculos de perseguição e ódio visceral à natureza instintiva da mulher sedutora, da mulher bela, da mulher sábia, da mulher sensual, da mulher curadora…

A convivência entre ambas ainda que a nível inconsciente é constante, mas no exterior o que se manifesta é o antagonismo entre os dois lados que se tornaram “opostos” em cada mulher, havendo como é natural mulheres mais tipo Afrodite e mulheres mais tipo Hestia ou Atena e um desses lados tem predominância no carácter da mulher – mas que só são opostos porque a natureza instintiva e sexual da mulher foi considerada indigna e perversa e separada da mulher séria e da esposa ou da mística, no caso óbvio das freiras: celibato, castidade e penitências…

Quanto a mim a única solução para o aparecimento de um novo paradigma, é a consciencialização desses dois aspectos básicos da sua cisão senão essa divisão continua a fazer-se no adjectivar uma ou a “outra” mulher de acordo com o lado da vida em que se situa, do lado do conhecimento que adquire e toma como verdadeiro. Se essa cisão não se desfaz a mulher vai viver sempre essa separação e luta consigo mesma e com a sociedade onde quer afirmar a sua verdade. Fa-lo-á nos círculos de mulheres, nas cerimónias ou rituais wiquianos ou noutro grupo qualquer de mulheres. Daí este aspecto ser tão importante. Aliena-lo é compactuar com o Sistema patriarcal e continuar a agir dentro sistema. Ele agradece e até acha graça…

É essa a razão porque as mulheres ditas “nova era” nem sequer querem ouvir falar nisto… no centro das suas esferas ainda está o Deus e o Homem…ainda que consortes da Deusa…elas continuam a ser a mulher do homem…e não senhoras de si mesmas!

Assim, todo o conhecimento intelectual e mesmo espiritual sem essa integração é sempre dual e eu não os nego enquanto informação básica história ou ritual, apenas defendo que há um Conhecimento inato e uma sabedoria intrínseca que passa ou se expressa ou manifesta pela fusão dos hemisférios esquerdo e direito, feminino e masculino, tanto no homem como na mulher, sim, mas nunca antes da integração das duas mulheres na Mulher.

A meu ver só isso permite o acesso à verdadeira Inteligência, a Inteligência do coração, o verdadeiro órgão da Inteligência (sabia que o coração tem dentro de si um pequeno cérebro motor ainda desconhecido da maioria dos cientistas…?) e que se desenvolve pela emoção pura (não sentimental).

Não é separando nem dividindo ou raciocinando que chegamos ao conhecimento do SER, essa é a minha experiência. Mas eu tive outros mestres/as, fora de qualquer sistema ortodoxo académico, que, por mais evoluído e moderno que se pretenda está sempre dentro do Sistema…falocrático e patriarcal. E enquanto ele se mantiver, para mim, tudo o que se fizer, mesmo o melhor, é destinado ao erro, digo à separação da mulher em duas, três, conforme os estereótipos…porque se baseia na aceitação implícita da divisão da mulher em si…Esse foi o erro de todas as ideologias que nunca consideraram a mulher em si nem a sua totalidade…Nunca a viram como um ser integro e total, mas sempre dependente e complementar do homem, (mesmo que economicamente fosse independente) vista mais como um apêndice e nem as filosofias, e já antes desde Sócrates, nem as teorias da moderna sexualidade, viram essa cisão essa separação inicial depois da Queda…claro…Primeiro era só Eva a culpada, depois passou a haver a culpada e a santa, a Virgem que se anulava no casamento-contrato e tinha de ser fiel.

Acha que as coisas mudaram muito? Então olhe para a violência doméstica ou para os crimes sexuais que são não só contra a mulher mas também as crianças ou ainda e principalmente para as doenças de foro feminino…de onde elas vêm?

- Olhe para a maneira como hoje em dia na política os homens falam das ministras e deputadas e fazem chacota delas. Atacam as mulheres na política de meretrizes e vadias e não falam assim dos homens…

Então porque dar razão à sociedade machista e continuar a servi-la contestando aquilo que não tem remédio dentro do sistema? Porque não antes ligar as duas mães – seja Oxum (Lilith) e Iemanjá (Eva ou Nossa Senhora da Conceição) os arquétipos femininos básicos digamos e aparentemente antagónicos; isso foi o que eles fizeram, e fizeram o mesmo com intelectual e a amante, a religiosa e a trabalhadora, mas isso é uma e só a mesma coisa: a santa é a intelectual e a amante a puta…nada varia. E ninguém também lhe diz, de facto, que por seguir uma carreira e os seus interesses científicos e literários que tem de deixar de as unir… eles sim. Eles é que lhe impõem essa condição. Criam à mulher essa confusão tão lógica da sua divisão que faz com que ela não veja o que é tão evidente à partida porque está tudo perfeitamente escamoteado (obnubilado) pela razão deles… o que eles têm é medo justamente que ao Integrar as duas mulheres ou deusas, os dois arquétipos dominantes no mundo católico, a mulher possa tornar-se na nova “Pensadora” ou “Intelectual” se quiser, mas que não usa só a cabeça e o cérebro ou a mente, mas que une e inclui o sentimento e a emoção; digo, o coração, que equilibra os pólos e expressa a sua totalidade.

Sem a totalidade da MULHER não há nada de novo ao cimo do Planeta…

Eu só lhe digo mais uma coisa: o Sistema Académico NUNCA aceitará isso por mais que lute por se afirmar…e isso só verá um dia se não se deixar dominar e subjugar por ele…A sociedade falocrática não aceita as mulheres que não lhes são submissas, não as elegem nem elogiam…não lêem os seus livros…não as ouvem, porque elas são as Cassandras que eles condenaram ao descrédito…falar da Deusa e eleger a Mulher é ridículo mesmo para as mulheres dentro do patriarcado. Desde os gregos e romanos…

E quanto mais cultas e dentro do conhecimento académico, filosófico, científico ou outro as mulheres estiverem mais pensarão como os homens que são seus mestres, desde há séculos e fazem escolas, mais se distanciarão da Mulher autêntica e da sua essência. Porque a haver uma Mulher de Palavra, será Sábia e não intelectual… porque de certeza que a sua palavra será a Profética e de Amor, a do Conhecimento abrangente, do dentro e do fora, do cimo e do baixo, porque a mulher integrada é iniciada por si e une os Opostos…ela une a Terra e o Céu…Tem é de primeiro descobri o seu matrimónio genético e celular a sua memória ancestral…

Eu não a quero convencer de nada nem parecer convencida e menos ainda dissuadi-la do seu percurso. Mas É assim que sinto…é assim que sinto a MULHER e a emergência da união das duas mulheres que se digladiam entre si e dentro de si!

Com todo o meu respeito pelo seu trabalho e desejo do maior sucesso na sua carreira. Não se zangue comigo por eu ser tão afirmativa, mas é mesmo o meu coração que me salta da boca…

Rosa Leonor Pedro - MULHERES & DEUSAS


"O retorno à Deusa, para renovação numa base de origem e num espírito feminino, é um aspecto vitalmente importante na busca que a mulher moderna empreende em direcção à totalidade."


De SYLVIA B. PERERA

terça-feira, 15 de junho de 2010

A MULHER ESSENCIAL


SALVAR GAIA, A NOSSA MÃE TERRA

AINDA QUE...

"No nível mais profundo da psiquê, continuamos vinculados com a Mãe-Terra, que nos trouxe à vida e nos alimenta. A conexão entre o eu profundo e o mundo natural foi denominado de inconsciente ecológico, que estaria um passo além do inconsciente colectivo junguiano. Um espaço/tempo onde Psiquê encontra Gaia.

Quando o movimento feminino e o movimento ecológico se encontram, surge o Ecofeminismo, que busca uma nova visão de mundo, com ênfase nas transformações dinâmicas, nos processos cíclicos e na interrelação de todos os seres. Intimamente ligado a uma espiritualidade feminina, recupera o mundo natural como sagrado - matéria imbuída de espírito - revalorizando o corpo e suas funções, incluindo a sexualidade, o nascimento, o envelhecimento, a morte.

A espiritualidade feminina recupera a concepção da Deusa, entendida como esta totalidade que nos engloba a todos: mulheres, homens, plantas, animais, minerais. Ela é o próprio mundo e o princípio de vida que pulsa em cada ser criado. Ela é o ecosistema.

O que se busca é uma nova identidade humana, uma inteireza que inclua além da racionalidade, da auto-confiança e do poder do intelecto, os aspectos intuitivos, compassivos e o poder de cura de cada pessoa. Uma identidade humana que nos inclua, de modo consciente, na natureza sagrada de todos os seres na Terra.

Precisamos nos conscientizar que somos feitos dos mesmos elementos que constituem toda manifestação: terra, água, ar e fogo.

Nós somos parte - e apenas uma - do ecosistema!"
(in “Caldeirão da Bruxa)



SÓ UMA ESPIRITUALIDADE FEMININA que passa obrigatoriamente pela integração das "duas" mulheres cindidas pelo patriarcado ou seja, entre dois aspectos de si mesma, embora com conotações e funções diferentes, de acordo com os conceitos da Igreja de Roma (que inverteu o sentido do Amor-roma) e que dividiu basicamente a mulher entre a "santa e a p..." no mundo ocidental, pode dar a Dimensão do verdadeiro feminino.
Este aspecto pouco perceptível ao nível da nossa cultura em geral é um aspecto dissimulado e escamoteado pelas próprias mulheres e poucas se dão conta do drama que encerra essa divisão do Ser mulher, essa cisão vivida no seu âmago.



Este é o drama essencial das mulheres no mundo. Mas ele é vivido não só na nossa sociedade liberal como o é hoje a sociedade ocidental católica e protestante, mas também nas sociedades orientais, nomeadamente a muçulmana, embora com conotações e preconceitos diferentes, (outros profetas mas todos contra a mulher), com repercussões e repressão mais drásticas sem dúvida, mas mesmo assim, no fundo, em todas as religiões as mulheres são limitadas a padrões de comportamento de acordo com os "estatutos" atribuídos pela norma social e religiosa. Numa sociedade, a ocidental, mais permissiva, a mulher é despida e serve de objecto sexual podendo sofrer agravos de ordem moral e psicológica enquanto a mulher oriental é espancada ou morta por infringir a lei dos homens, vive fechada e anda toda tapada na rua...

Não é difícil compreender que existem esses dois padrões de mulheres na base de todos os estereótipos associados às mulheres no mundo inteiro. Só não os vemos porque estamos cegas pelo hábito da repressão e pela alienação em que vivemos. Mas eles são velhos como o tempo... vivemos sempre de mulheres livres a escravas, de esposas a concubinas, de mulheres a amantes, de senhoras a prostitutas, elas são sempre de duas espécies...até aos nossos dias.

Essas duas espécies de mulheres são na realidade o resultado da divisão que a sociedade representa como natural para os dois tipos de mulheres que nos habituamos a encarar com "normalidade" e que são, digamos assim, a "mulher séria" e a "mulher fácil", a esposa e a prostituta...sempre designadas por um valor sexual, sofrendo sempre a mesma humilhação entre muitas designações pejorativas e outros epítetos que servem para distinguir essas qualidades ou defeitos que a sociedade machista e misógina atribui à mulher à partida e que nada tem a ver com os valores que se atribuem aos homens como qualidades e defeitos, tais como a honestidade ou a valentia ou a nobreza de carácter...
As mulheres pertencem sempre a esses dois padrões e só depois lhes são atribuídas as qualidades "morais"...

Independentemente disso temos sempre uma mulher desabitada de um fundo próprio, privada da sua totalidade, obrigada a viver ora como objecto sexual ora reprodutor, educada e preparada sempre para servir o homem e a sociedade sem ter em conta a sua pessoa, a sua intimidade - pois os seus interesses são sempre em função do homem ou dos filhos - e a sua verdadeira natureza de Mulher Essencial. Mesmo a sua sexualidade raramente é sua mas a resposta ao prazer do homem e não seu...

A mulher, apesar de forma diferente talvez, é ainda hoje totalmente sacrificada à ditadura da "beleza" ou aos ideais de uma beleza masculina para consumo do homem e dos seus interesses e tem de corresponder sempre aos seus estereótipos. Ela veste-se, pinta-se, faz dietas, opera-se e mutila-se para agradar ao homem.


Destituída do seu valor próprio e da sua integridade a mulher habituou-se a corresponder a esses padrões sem conseguir articular um pensamento próprio ou ter capacidade para se insurgir e colocar-se acima deles...mesmo as mulheres mais inteligentes e capacitadas intelectualmente não conseguem enxergar que partem de uma condição de sujeição a esses padrões e que lutam dentro do quadro social e psicológico em que foram aprisionadas há séculos e por isso não saem deles senão a muito custo. Por essa mesma razão acham legítimo serem cartazes de pornografia e anúncios que as aviltam e sentem-se livres por posarem nuas para a playboy e agradar aos rapazes...elas já nem percebem o grau de degradação que vivem em nome de uma pseudoliberdade que a sociedade de consumo hoje lhes aponta como alternativa.

Por tudo isso não vêm que a Natureza da Mulher se encontra cindida em duas e que foi fracturada tanto na sua psique como na sua alma e mesmo no seu corpo, e assim limitam-se a viver e sofrer as consequências de uma divisão profunda que se deu num dado momento histórico e que progressivamente esqueceram o seu dom de iniciadoras da vida: assim esqueceram a sua ligação com a Natureza, aliadas naturais que eram das forças vivas da Natureza e dos animais enquanto sacerdotisas ou representante da Grande Deusa Mãe. Foram contaminadas e feitas prisioneiras das sociedades patriarcais que inicialmente destruíram os elos e ritos que mantinham a coesão da vida das mulheres ao reprimirem o seu lado instintivo e intuitivo. Os homens separaram a natureza instintiva e sensual da mulher para eleger uma mulher social reprimida, escrava, castrada e frígida que os serviu durante milénios para gerar filhos escravos.


Enquanto a Mulher não integrar essa parte essencial de si mesma, reflectida na sua Sombra ou na "outra" que foi ensinada a temer, ela não poderá chegar a esse nível profundo da sua psique...nem voltar a ligar-se à Natureza e salvar Gaia de uma destruição iminente.

Enquanto a mulher não fizer a ligação dessas partes de si cindidas não poderá afirmar-se no seu real valor e ter o seu verdadeiro lugar na sociedade e no mundo. Apesar das mulheres terem cada vez mais lugares de destaque e de liderança, admitamos isso, a sua força não lhes vem de um Verdadeiro Feminino Integrado, mas de um simulacro que ela vive dentro da Ordem Masculina, em que impera a força da violência, a diferença social entre os seres e a guerra como monopólio da terra.

Rosa Leonor Pedro IN: MULHERES & DEUSAS

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A INTELIGÊNCIA DE UMA MATRIARCA

A Utopia das Mulheres:
O que é e só Apenas um sonho…

TIVE UM SONHO

" Quando o nosso país (França) iluminar de novo o mundo, podermos, com os nossos homens, ir ajudar as nossas irmãs estrangeiras, as raparigas afegãs, croatas, argelinas, ruandesas, iranianas, E também as adolescentes chinesas abandonadas, as jovens que se prostituem no mundo inteiro. Todas aquelas que, todos os dias, pagam o preço demasiado alto da barbárie machista.” *
* Isabelle Alonso
In, Todos os Homens são iguais mesmo as Mulheres

“Como uma região incógnita, uma espécie de caixa de surpresas que suspeita do discurso que veicula, o amor entre mulheres é capaz de disseminar perplexidade, seja quando parece optar pelo seu ruidoso silêncio, seja quando tenta uma tímida visibilidade. A promessa de transpor para uma realidade discursiva tudo aquilo que incide sobre os mais obscuros lugares da experiência humana faz do não dito algo, senão indesejável, ao menos incomodo à nossa disposição de tornar as coisas, mais que classificadas, bem ditas.

Enquanto as mulheres heterossexuais começam a caminhar na direção de uma maior liberdade, no sentido de manifestar e discutir as questões relativas à sexualidade, as lésbicas exercem e discutem a sua sexualidade à margem da sociedade, tolhidas pela discriminação.”
V
*Lyh
(…)

A NEGAÇÃO DA HUMANIDADE MULHER

Eu tenho uma interpretação bastante diferente daquela que é a mais comum e também da menos comum, como é o caso desse artigo, muito inteligente e bem escrito. Porém o que eu penso sobre a invisibilidade da homossexualidade feminina, não é por uma mulher ser lésbica que se torna invisível mas porque a invisibilidade da mulher como mulher na sociedade andocrática, machista, dominadora e falocrática é a realidade de todas as mulheres.
Todas as mulheres neste Sistema são invisíveis.

Só o não são as mulheres que correspondem ao imaginário masculino, as mulheres objecto, as mulher insufladas de silicone, concebidas e criadas por eles, NAS SALAS DE OPERAÇÃO, na publicidade, nas passerelles, nos filmes etc.
or isso ser Gay ou não, não faz diferença quando se trata de defender os homens homo, porque na sociedade de valores masculinos e onde o feminino foi simplesmente apagado da história e esmagado na mulher, é sempre o imperativo do falo, (logo existo) que prevalece. Portanto, independentemente de um homem ser homossexual, a sociedade falocrática, apesar de resistir à sua “feminização” e pretender desprezá-lo pela sua semelhança com a mulher (até conseguiram que os gays se tornassem musculados e aparentemente viris, em vez de travestis) considera o homem como parte de si mesma quer ele seja ou não gay, mas não a mulher, que não é mais do que um corpo (buraco) ao seu dispor…!


Não quero parecer vulgar mas é assim que a mulher foi considerada pelo patrismo e temos que olhar bem para as coisas como elas são na realidade e não idealizadas pelo intelecto e por uma falsa liberdade ou emancipação das mulheres. Ora neste caso, mais do que em qualquer outro caso, é muito óbvio que se a mulher não serve o homem, então não serve para nada…para quê dar visibilidade ao que não existe?
As mulheres não existem por si só…ou são esposas de, ou são filhas de, ou são amantes de, ou secretárias…
As observações históricas de não dar importância às mulheres lésbicas por vários períodos de repressão religiosa e preconceito social, têm a ver também, com o facto de que para eles só há relações sexuais onde há um falo, onde há penetração, onde há dominador e vencida…foi assim que se processaram e oficializaram as relações entre os homens e as mulheres na sociedade patriarcal.
A homossexualidade feminina pode até ser uma diversão para o homem, uma coisa com que ele por vezes alimenta o seu imaginário. Vemos isso nos filmes pornográficos e não só…portanto é ainda uma fantasia masculina consentida…mas não levada a sério.
Também nunca a sociedade machista se preocupou com a prostituição como um flagelo social, mas apenas por hipocrisia e por estar ao seu serviço. Nunca se questiona a origem e a legitimidade da prostituição seja dentro de que sistema for.

São as prostitutas visíveis?
Ou são escondidas e disfarçadas de acompanhantes e modelos etc.?


Esse uso e abuso do corpo da mulher como mercadoria foi sempre ou escondido ou consentido pelos Estados e as próprias mulheres hoje em dia a acham legítima e defendem-na como “profissão”- a chamada profissão mais velha do mundo - e acham-na uma coisa natural quando ela é apenas o reflexo da divisão interna, psicológica e social da mulher em dois tipos de mulher e assim sendo trata-se na verdade da repressão e abuso do ser humano mais velho da história do patriarcado…
O problema da invisibilidade das mulheres lésbicas posto da maneira como a autora do texto o pôs é como se ela acreditasse viver numa sociedade evoluída e de igualdade de direitos, onde a mulher normal e comum fosse visível, pelo seu valor intrínseco, e nós sabemos que não é assim. Portanto a autora do texto por muito bem intenciona e informada que seja nisso está iludida…como o estão todas as mulheres inteligentes e cultas ao pensarem que são consideradas pela sua essência feminina ou pelo seu valor de Mulheres.
Senão vejamos a verdadeira questão, a questão de fundo, aquela que foi escamoteada até pelas próprias feministas ao defender apenas os direitos e igualdades da mulher numa sociedade que as rejeitou. Uma sociedade que as negou na sua essência divina e as usou de todas as formas e que nunca poderá mudar isso porque só uma mudança global de mentalidades e de consciências, uma mudança de paradigma, podia solucionar, mas nunca sem a consciência da Mulher como ser em si.
Precisamente o problema da mulher em si tem a ver com a sua divisão interior em duas mulheres e não se é homo ou hetero ou prostituta.
Só depois da mulher tomar consciência desse facto e começar a integrar a sua outra parte e assumir a sua totalidade como mulher, como um ser consciente da sua natureza profunda e digo sempre isto, em termos ontológicos, é que a mulher pode sentir-se inteira e então escolher ou amar homens ou mulheres…
O importante sempre é que a mulher se encontre com ela mesma e seja completa em si…e esse é que o problema de fundo, um problema de identidade feminina que tem a ver com o Princípio Feminino e a sua natureza intrínseca, o seu dom inato, as suas características de fêmea, de amante e de mãe…
Tem a ver com a Mulher Ancestral aquela de que todas temos memória nos nossos genes e que passa de mãe para filha e se torna num Conhecimento que o homem não tem…É uma condição genética, um dos muitos mistérios da Mulher Criadora, da mulher geradora, da Deusa Mãe que lhe dá corpo.
Penso que só depois da mulher se tornar consciente da Deusa em si e através das funções do princípio feminino é que ela pode ser livre e resgatar o seu erotismo, o seu auto-erotiso…homo-erotismo ou hetero-erotismo…
Realizar o Divino Eros, através da união da alma do corpo e do espírito. Nunca antes dessa tríade ser completa!
Portanto minhas queridas amigas, a sexualidade não é nem nunca foi imperativo meu, mas o da alma e do espírito e depois o corpo divino e então pode caber-lhe ou não a expressão de um dos aspectos sagrados do poder da energia da mulher como iniciadora do homem ao Amor da Deusa, assim na Terra como no Céu…
Tudo o que façamos para nos libertar neste Sistema, onde somos por condição prisioneiras, não vemos que “a nossa cadeia” é o seu modo de funcionamento, onde prevalece o poder material do dinheiro, da força, dos média e do medo, da violência e da guerra, em que estamos ao serviço do Estado, da família e da religião e já agora das Instituições governamentais que nos exploram a nós mulheres muito particularmente, como escravas de escravos…
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ROSA LEONOR PEDRO

EM MULHERES & DEUSAS

sábado, 4 de julho de 2009

A MULHER SAGRADA


“AS PROSTITUTAS SAGRADAS”

O termo de “prostituta sagrada” é impróprio e não corresponde à realidade da época. Antes do cristianismo o Culto da Deusa Mãe e a sexualidade da mulher era sagrada e a liberdade do seu corpo igualmente enaltecida pelo amor, como forma de dádiva e iniciação amorosa.

“O termo escolhido pelos modernos tradutores, é aplicado à hierodulae, ou “mulher sagrada” do tempo da deusa, que desempenhava um papel importante no dia a – dia do mundo clássico.
As sacerdotisas de Deusa e os seus importantes encontros iam até ao periodo Neolítico (7000-3.500ª.C.), tempos em que Deus era honrado e amado no feminino em todas as regiões conhecidas hoje como a Europa e o Médio Oriente.

No mundo antigo, a sexualidade era considerada sagrada, uma dádiva especial da deusa do amor, e as sacerdotisas que oficiavamnos templos da deusa do amor do Médio Oriente eram consideradas sagradas pelos cidadãos dos impérios grego e romano. Conhecidas como “mulheres consagradas”, eram tidas em grande estima como invocadoras do amor, do êxtase e da fertilidade da Deusa. Em alguns periodos da História Judaica, até faziam parte da adoração ritual no Templo de Jerusalém, se bem que que alguns dos profetas de Javé deplorassem a influência da Grande Deusa, localmente chamada de “Ashera”.”

Maria Madalena e o Santo Graal , MARGARET STARBIRD (Quetzal)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A PROSTITUTA SAGRADA



maioria dos homens acredita que a maior ofensa para uma mulher é ser chamada de "prostituta". A partir deste momento você entenderá com a história da Santa Maria Madalena e outras deusas mitológicas, como esta palavra foi tão depurtada pelo cristianismo.

Imagine-se agora, se puder, que estamos viajando no tempo, por terras estrangeiras, alcançando civilizações muito antigas. Com o olho de sua mente veja um templo cintilando de luz. Lá dentro há uma bela mulher coberta de véus, que virá em sua direção dançando. Seus braços são cobertos de braceletes dourados cravados de pedras preciosas e quando passa por você, sentirá um aroma delicioso de flores. Ela é só amor e êxtase. Ela é a nossa prostituta sagrada que se entrega à Deusa e aos estranhos cansados de viver que vão até o templo venerar a Deusa do amor.



Esta imagem fenomenal que contemplamos em nossa imaginação, já foi uma realidade em tempos muito antigos. Inscrições antigas desenterradas de templos, nos contam com mais detalhes destas cerimônias religiosas que eram celebradas em honra a Deusa do amor e da fertilidade. Quem ainda hoje não se encanta com a beleza da nudez de Afrodite?

Mas, quando a prostituição sagrada existiu, as culturas eram embasadas no sistema matriarcal. Nestes tempos, natureza e maternidade eram prioridade, pois tinha-se um mundo imenso para povoar. Entretanto, a natureza sexual dos homens era tida como uma atitude religiosa. Na Babilônia, todas as virgens, antes de casar, eram iniciadas na feminilidade através da prostituição em templos sagrados. Matronas romanas, da mais alta aristocracia, iam ao templo Juno Sospita para entrar no ato de prostituição sagrada quando era necessária uma revelação.


Independentemente de onde vinham, por uma origem real ou comum, por uma noite ou toda a vida, as prostitutas sagradas eram nesta época, muito numerosas. Todas elas gozavam de "status" social e eram muito cultas, pois passavam por iniciações e muito estudo. A maioria delas, eram política e legalmente iguais aos homens. No Código de Hamurábi, uma legislação especial salvaguarda os direitos e o bom nome da prostituta sagrada. Ela era protegida contra difamações, assim como seus filhos. Também por lei, a prostituta sagrada podia herdar propriedades de seu pai e receber renda da terra trabalhada de seus irmãos. Se insatisfeita, ela podia dispor da propriedade da maneira que julgasse conveniente.





Avançando alguns passos de tempo à frente já encontramos a imagem da prostituta sagrada totalmente deturpada. Foi exatamente quando o sistema matriarcal evoluiu para o patriarcal e patrilinear. Mas este trunfo do patriarcado não foi resultado de uma revolução violenta. Foi com o surgimento da política, do militarismo e do comércio que gerou-se a estratificação social. A mulher passou à condição de subordinada porque seus papéis deixaram de ser importantes para os novos valores. À medida que as conquistas foram acontecendo, um enorme número de povos foram se mesclando e as divindades de uma foram incorporadas à outra. Imagine a quantidade de deusas e deuses que eram cultuados. Ficou então resolvido, que o melhor seria criarem somente um Deus Supremo, para ser adorado. Do ponto de vista patriarcal, ele deveria logicamente ser masculino. Foi assim, que o homem criou novas doutrinas religiosas, de acordo com suas crenças na supremacia masculina. Deste modo, os antigos templos do amor, deram lugar à casa do Senhor, deslocando radicalmente os papéis das mulheres nos ritos religiosos.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Rosa leonor:entre a santa e a puta





A mulher está dividida ao meio. Pelo menos, segundo a ótica da nossa sociedade moderna, erguida sob valores machistas e maniqueístas. Já viramos o milênio mas, bem no fundo, nossa cultura freqüentemente ainda reduz papéis femininos apenas às polaridades de santas ou prostitutas.Quem nos fala a respeito é a escritora portuguesa Rosa Leonor, que estréa no Absoluta com contundência, mostrando que a ideologia dominante nunca vê as mulheres nos eixos centrais das sociedades enquanto mães, irmãs e amantes na qualidade vibracional de sacerdotisas da Deusa.Na juventude, Rosa Leonor foi simpatizante da causa comunista, o que lhe valeu ter de fugir para Paris. Revolucionária por natureza e autodidata, publicou seu primeiro livro de poemas, MULHER INCESTO, em 1996. Em 2003, publicou ANTES DO VERBO ERA O ÚTERO, numa edição do Projecto Art for All (http://www.art-for-all.com/Artforall.swf).Em 2002, criou seu espaço na web, MULHERES & DEUSAS, que atualiza diariamente com textos de profunda identificação com o Feminino Essencial e que, só no primeiro ano, recebeu mais de 13.000 visitantes.

Em busca da Mulher Absoluta
“O feminismo pega fogo quando se nutre de sua espiritualidade inerente. Quando não o faz, é apenas mais uma forma de política, e a política nunca alimentou as nossas carências mais profundas.”Carol Lee Flinders, At The Root of This Longing
As nossas carências mais profundas… é disso justamente que se trata, mas não só das nossas carências mais profundas e, sim, principalmente da profundidade do nosso Ser e da nossa Alma. Trata-se da profundidade e da dimensão do nosso Ser ligado a essa espiritualidade inerente a esse feminino verdadeiro, o das profundezas.Não se trata pois e apenas da afirmação social ou psicológica da mulher que os múltiplos e variados conceitos dividem em estereótipos e que as religiões divulgaram acerca da natureza fragmentada da mulher. Não se trata da procura sistemática dos sistemas políticos para branquearem e destruírem a plenitude do seu poder interior, e essa espiritualidade inerente a todas as mulheres, e de que as feministas à partida não se deram conta. Porque não se trata de conseguir um lugar de chefia nem um salário igual que dará dignidade à mulher nem a restituirá a sua dimensão do sagrado, cuja noção de transcendência falta à política, como é óbvio, e as religiões só tratam de tabus e do dogma contra a mulher.Mas é o fogo interior do feminino, esse fogo que se nutre de uma essência feminina verdadeira e a sua ligação à Terra e à Deusa Mãe, da qual emerge o seu poder como mulher capaz, uma vez na posse da sua totalidade, amar integralmente e ser mãe, de dar à luz e iluminar os homens dando-lhe a conhecer o seu feminino também - o que as religiões patriarcais procuraram a todo o transe apagar da história da humanidade, tal como o fizeram denegrindo a imagem de Maria Madalena, como iniciadora e amante, transformando-a em pecadora, e elevando posteriormente a imagem da Virgem imaculada, dividindo assim a Mulher real na sua função erótica e maternal, como bem convinha aos padres do deserto e do seu deus misógino.
Dessacralização da mulher e do sexo - Na realidade, a política e os políticos, tal como as ideologias ou mesmo as revoluções, nunca foram além do simples remediar das diferenças sociais e econômicas das mulheres, mas jamais lhes deram ou restituíram o legítimo lugar que lhes cabe no Centro das sociedades como Mães, irmãs e amantes, como sibilas e sacerdotisas da Deusa. Pelo contrário, todas elas alimentaram esses estereótipos degradantes das duas (várias) mulheres e contribuíram para acentuar a divisão entre o erótico e o maternal, na divulgação da pornografia e da prostituição, acicatando as mulheres umas contra as outras, construindo e divulgando as figuras de esposa e prostituta como ainda hoje ostentam nos cabeçalhos dos seus jornais e noticiários como escândalos mundanos na risível queda de um “anjo”, como foi o caso do mayor de Nova Yorke… o homem "virtuoso" e moralista que engana a mulher “séria” e esposa legítima (a humilhada…) com a prostituta famosa…E é pela sua própria voz McInerney que diz…"A prostituta não é uma ameaça à estabilidade institucional e emotiva do matrimônio. Pelo contrário, historicamente sempre o reforçou"… que nós nos apercebemos como essa divisão histórica é ainda inquestionável e assente como regra das sociedades “civilizadas” e que continua a dividir as mulheres em duas espécies… Agora, o que não compreendo é que as próprias mulheres aceitem passivamente e contribuam também para essa divisão sem consciência da sua própria divisão interior e continuem a antagonizar umas com as outras, prejudicando o seu trabalho, como é o caso das eco-feministas, por exemplo...Mais à frente, no mesmo artigo, lemos: “As diversas igrejas sempre toleraram as prostitutas” - elas não só toleraram como as implementaram e contribuíram ao longo dos séculos para que a mulher continuasse dividida entre a esposa (católica) e a prostituta (não católica)…As feministas nunca se aperceberam da questão fulcral dessa divisão em si mesmas, e defendem até a profissionalização do sexo, o que é continuar a aceitar a sua divisão intrínseca e a dessacralização da mulher e do sexo, que é matriz do nexo… Só por isso, eu não sou feminista… mas defendo de alma e coração a Essência do Feminino como ponto de partida para uma verdadeira Consciência do SER MULHER. Em busca da Mulher Absoluta.

Rosa Leonor Pedro