"E aqueles que pensam em Me procurar, saibam que a vossa busca e vosso anseio devem beneficiar-vos apenas se vós souberdes o Mistério; se o que vós procurardes, vós não achardes dentro de vós mesmos, então nunca encontrarão fora. Pois eu tenho estado convosco desde o Início e Eu Sou Aquela que é alcançada ao final do desejo"


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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

OS MISTÉRIOS DA MÃE E DA FILHA DIVINA

“Uma filha, jovem e muito amada, é raptada de perto da sua mãe por um poderoso governante, conhecido pelos seus atos malvados. A mãe desesperada sai à procura da filha e descobre que o rapto tinha resultado de um acordo entre o supremo chefe religioso e o raptor, sendo que o primeiro era o pai da jovem e o segundo, seu tio materno. Determinada a buscar justiça, com a revolta e a dor devastando sua vida, a mãe inicia um longo e eficiente protesto contra as autoridades, que resulta na volta da filha, traumatizada, mas viva e forte o suficiente para transmutar a sua dolorosa vivência, aceitar e cuidar do seu filho, concebido na escuridão da sua prisão.”

Este relato - de um fato comum no nosso cotidiano atual - descreve a trama mítica de uma antiga história grega, que deu origem a um complexo ritualístico pagão, iniciado no segundo milênio a.C. e praticado durante pelo menos 1500 anos, até mesmo após o advento do cristianismo. A mãe descrita no drama era Deméter, a Deusa dos Grãos, cujas dádivas eram essenciais à sobrevivência humana; a filha era a donzela Kore, raptada por Hades, o Senhor do Mundo subterrâneo e que retornou como Perséfone, a “Rainha do Mundo dos Mortos”. O drama encenado e consagrado pelos “Mistérios Eleusínios” não representava apenas a felicidade do reencontro e a recuperação de uma mãe e filha após um trauma, mas a visão transcendental da morte e do renascimento, simbolizada pela volta de Perséfone do mundo subterrâneo e sua transformação em Brimo, “Senhora dos Mistérios”, grávida de Brimos, o filho da luz concebido na escuridão. Para os povos antigos este mito era a vívida e real dramatização do conflito e da oposição entre vida e morte e sua conciliação final pela aceitação e transcendência. A Morte aparece como o raptor e violentador da vida, que irrompe de repente das profundezas do mundo escuro e desconhecido, arrancando e levando consigo não apenas velhos e doentes, mas também ceifando vidas jovens e promissoras. A dor e o desespero humano perante as perdas, são retratadas no luto e na revolta da Mãe Divina, que segue um caminho longo, difícil e tortuoso, saindo da raiva, do ódio e desespero para confronto, luta e a busca de uma solução, culminando com a aceitação e a transmutação das forças do caos e da morte pela iniciação nos Seus Mistérios. O mito das Deusas Deméter e Perséfone, que deu origem aos Mistérios Eleusínios - celebrados por todos aqueles que falavam grego e não tinham cometido nenhum crime - preencheu uma universal e eterna necessidade humana: ultrapassar o terror perante a morte e nutrir a esperança no renascimento. A importância simbólica dos Mistérios foi resumida pelo poeta Homero nesta frase:"Feliz é aquele que dentre todos os homens vivenciou os Mistérios. Aqueles que não foram iniciados, nem deles participaram, não irão usufruir da mesma sorte quando vão morrer e mergulhar na tenebrosa escuridão". O poder sagrado dos Mistérios era tanto, que os antigos gregos acreditavam que, sem a sua celebração anual, a vida iria se tornar insuportável e não apenas a Grécia, mas toda a humanidade iria sucumbir. No início do mito, Kore , alegre e despreocupada estava colhendo flores, quando ficou atraída por uma estranha flor (o narciso), sem saber que ela era consagrada a Zeus e Hades. De repente, Hades apareceu em sua carruagem preta saindo das entranhas da terra e a pegou à força, levando-a para seu reino, a fim de fazêla sua consorte, sem buscar o consentimento dela ou da mãe. Ninguém ouviu os gritos de Kore além de Hécate, da sua gruta, e de Hélios, que tinha presenciado o rapto. Deméter, desesperada e sem saber o que tinha acontecido com Kore, saiu do Olímpo e iniciou uma busca incessante por ela, auxiliada por Hécate e perguntando a todos sobre seu paradeiro. Entristecida e furiosa por não achar sua amada filha, Deméter retirou suas dádivas e bênçãos da humanidade, o que levou à aridez da terra, à seca e à fome. Preocupado com a carestia dos humanos, que pararam de fazer seus sacrifícios e oferendas aos deuses, Zeus enviou Helios para convencer Deméter a parar de chorar e se lamentar, aceitar Hades por ser um poderoso e rico genro (além de ser seu irmão), permitir à filha se tornar mulher e não mais mantê-la dependente de si. Apesar desta intimação, Deméter não aceitou ser coagida, pelo contrario ficou enraivecida com a conivência de Zeus, pai de Kore, com o rapto, e continuou a busca, mantendo-se firme na sua recusa de devolver a vida à terra. Disfarçada em uma mulher idosa e após uma longa peregrinação, Deméter foi parar na cidade de Elêusis, na corte real, onde após alguns contratempos revelou a sua condição divina, ensinou os segredos da agricultura e deu ao povo a dádiva dos grãos, aconselhando a construção de um templo em Sua homenagem, para que nele fossem celebrados os Seus Mistérios.

Zeus acabou cedendo perante a dor de Deméter e as preces dos seres humanos e enviou Hermes para trazer Kore - agora transformada em Perséfone- de volta para a sua mãe; o encontro das duas Deusas é o ponto alto do mito, chamado heuresis, assinalando o fim do sofrimento, o triunfo de Deméter em resgatar sua filha e a volta da abundância para a terra. Porém, antes dela partir, Hades deu-lhe (ou a obrigou) para comer algumas sementes de romã, considerada a “fruta dos mortos”, além de ser um símbolo da fertilidade, fato que selou a sua união e a obrigou a voltar anualmente para o mundo subterrâneo, lá passando um terço do ano como consorte de Hades e “Rainha dos Mortos”, os restantes dois terços acompanhando sua mãe no mundo superior, como Deusas da vegetação. O mito do rapto de Perséfone e do desespero de Deméter representa o esforço coletivo de uma antiga cultura para enfrentar, mitigar e transcender o medo e o dilema humanos ‘ perante a inexorabilidade da morte.


Porém, ao mesmo tempo, ele descreve um evento histórico acontecido milhares de anos atrás, que ainda repercute na nossa existência até hoje. O rapto de Kore e o afastamento forçado da sua Mãe Divina retratam a usurpação e assimilação das religiões centradas no culto à Deusa do Sul da Europa antiga, pelas forças patriarcais invasoras, vindo do Norte e Leste europeu, trazendo consigo o poder da espada e os cultos dos deuses guerreiros. Deméter e Kore pertenciam às milenares tradições nativas matrifocais europeias, enquanto Zeus e Hades faziam parte da hierarquia patriarcal posterior às conquistas. Ao longo de alguns milênios a Nova Religião, com seus deuses dominantes e hierárquicos, se sobrepôs e depois assimilou mitos e símbolos da antiga tradição geocêntrica da Mãe Divina. Em vários mitos esta assimilação foi descrita e representada nas cenas de rapto, estupro, dominação e subordinação das deusas por deuses, que as transformaram em esposas ou amantes submissas ou filhas dóceis servindo aos seus propósitos. Desta maneira, o mito de Deméter e Perséfone pode ser interpretado como um drama descrevendo tensões e oposições históricas, religiosas, sociais e culturais, uma vívida demonstração dos conflitos de valores e conceitos entre o Masculino e o Feminino arquetípico. O imaginário e a dinâmica deste mito podem ser interpretados por duas perspectivas opostas: pelo prisma da permanência milenar dos valores matriarcais ou como a escalada e o triunfo do patriarcado invasor, estabelecendo uma nova ordem religiosa e social. O ângulo depende dos conceitos, necessidades e compensações psicológicas de quem o interpreta, enfatizando alguns elementos e omitindo outros.

Na visão matriarcal – que é mais fidedigna ao significado original - a ênfase está no poder transformador do Feminino, o ponto central sendo a relação positiva entre Mãe e Filha e excluindo o elemento masculino, que aparece de forma violenta e usurpadora rompendo este elo. A Deusa prevalece neste drama, como Mãe resgata a filha dos braços do invasor e do reino da morte; como Filha ela transforma o usurpador, absorvendo na sua matriz o elemento masculino, gestando, transformando sua energia e dando à luz o Filho, com uma nova forma de ser e agir (O Princípio Masclino original purificado e integro). Neste processo, a transformação de Kore em Perséfone e a presença de Hécate ao lado de Deméter, confirmam a supremacia das faces integradas da Deusa Tríplice como Filha, Mãe e Anciã. Na visão patriarcal o tema central é a ascensão do poder masculino, que se apropria de elementos e atributos da Deusa e rompe para sempre os elos matrifocais. Deméter é vista como uma figura negativa, neurótica e possessiva, enquanto Hades é o libertador da filha ingênua de uma dependência materna limitante, despertando-a sexualmente (o rapto visto como uma "iniciação"), tornando-a consorte e rainha e abrindo novos horizontes para a sua atuação. Assim que a Deusa se torna mãe do filho do conquistador, termina a supremacia da Mãe e Filha e é preparado o caminho para o nascimento da Nova Religião, em que se honra por algum tempo a dupla divina Mãe e Filho, substituídos depois pelo domínio do Pai e Filho. Este enfoque explica o predomínio dos comentários e das teorias patriarcais modernos - históricos e psicológicos -, que muitas vezes distorcem ou omitem aspectos do mito original, para validar valores e conceitos que fortalecem as estruturas patriarcais. O nosso mundo atual enfrenta tanto o medo da morte - no sentido literário ou psicológico – quanto as manifestações nefastas e destrutivas do poder patriarcal.


A riqueza mítica e a relevância no nível psicológico e comportamental não se limitam apenas aos períodos ou culturas que lhes deram origem. Assim como Jung demonstrou nas suas obras, os antigos padrões míticos, os temas e os dramas, bem como os símbolos arquivados no inconsciente coletivo aparecem e se manifestam nos sonhos, fantasias, criações artísticas, histórias das vidas e dos relacionamentos humanos contemporâneos. Mesmo que a sua origem e significados sejam ocultos ou enigmáticos para a nossa compreensão, eles podem ter um grande impacto emocional sobre nós. Este impacto é a marca sutil de um arquétipo, que atua no nosso campo astral e emocional, influenciando nosso comportamento e forma de agir ou reagir, mesmo que a nossa razão ou conhecimento intelectual não alcancem seu significado. Cada imagem ou padrão arquetípico pode se manifestar de forma sutil (nos sonhos ou emoções) ou no nível racional (na dinâmica dos relacionamentos pessoais ou coletivos). Esta manifestação dualística é importante ao estudar o mito de Deméter e Perséfone, vendo a manifestação dos personagens envolvidos (Deméter, Kore, Perséfone, Hades) como sendo aspectos, personas ou sombras de uma mesma mulher; ou interpretar o drama no contexto de uma relação entre duas mulheres (mãe e filha, irmãs, parentes, amigas, parceiras, terapeuta e cliente, mestra e discípula). No entanto, devemos levar em consideração a visão que os povos antigos tinham sobre os mitos, que eles viam como representações de uma realidade espiritual, compatível com as suas crenças e práticas religiosas, os deuses sendo figuras multifacetadas da dimensão espiritual. A Deusa Deméter não era apenas uma simples mãe (de uma filha e dos grãos), mas uma deusa tríplice, contendo os aspectos de Chloe (a donzela da primavera) e de Cthonia (a anciã do mundo subterrâneo), todos associados ao ciclo da vida vegetativa. Os seus ensinamentos eram os dons que a própria Natureza dava aos homens: como plantar, colher, seguir os ciclos naturais e das estações. A vida física não era oposta ao espírito, as vicissitudes do corpo e da idade respeitadas como reflexos dos processos naturais. Aquilo que acontecia na Natureza também se passava na vida humana. O fim do ciclo de vida de uma planta era o paradigma da morte humana; a semente abrigada na terra escura germinava e brotava, podendo frutificar (assim como Perséfone se tornou mãe), depois definhava e apodrecia.
Mas ao se tornar composto, ela enriquecia e revitalizava o solo e desta morte fértil nasciam novas sementes, que germinavam, floresciam e frutificavam, a vida contida no fruto sendo liberada na sua morte. Manifestava-se assim o poder da Anciã, que recicla, sem parar, a morte para reiniciar e continuar o permanente ciclo da vida. Ver-se como parte da Natureza, aceitar a dependência humana das Suas forças, participar no eterno ciclo de transformação da vida em morte e novamente em vida, proporcionava aos povos antigos a vibrante e prometedora visão do destino humano. Os mortos eram”plantados” na terra e chamados de “povo de Deméter”(Demeteroi), ou cremados para acelerar a transformação, suas cinzas sendo entregues também à terra, para que a sua decomposição e fertilização do solo proporcionasse o desabrochar de uma nova vida. Na Natureza tudo é reciclado e modificado, nada permanece estático ou fixo, a única constante sendo a mudança que é a assinatura da continuidade. Não existe um processo linear, nem um começo ou um fim, nem a eternidade da vida ou da morte, por isso a transformação era a essência e a base das crenças espirituais pagãs.
Para compreender-mos de fato a profundidade simbólica e a complexidade do mito grego de Deméter e Perséfone, devemos perceber e aceitar a riqueza e fluidez dos conceitos míticos e a sua atuação na nossa vida, procurando nos sintonizar com os ciclos naturais, aceitando as oposições, mudanças, contrariedades, conflitos e paradoxos que são inerentes à natureza humana.

Mirella Faur -IN: Jornal Online Deusa Viva

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

OS MISTÉRIOS ELEUSÍNIOS


“Feliz é o mortal que presenciou os Mistérios Eleusínios. Abençoados são seus olhos que os viram, pois após a morte a jornada da sua alma será diferente daqueles que não foram iniciados.”

Homero

Os Mistérios Eleusínios constituem o segredo mais bem guardado do mundo antigo. Originários de Creta como um festival de outono dedicado à Deusa Deméter e reservado somente às mulheres, eles foram expandidos e abertos a todas as pessoas se fossem adultas, falassem grego e não tivessem cometido nenhum crime. Iniciados na metade do segundo milênio a.C., os Mistérios Eleusínios perduraram por quase dois milênios sem que ninguém revelasse nada a respeito dos rituais e das iniciações. O pouco que se sabe foi divulgado pelos comentários literários, pelas referências históricas ou nas difamações cristãs sobre as práticas pagãs.

A palavra Eleusis simbolizava “O lugar da chegada feliz” e deu origem ao termo “Campos Elísios”, sinônimo do paraíso pré-helênico. A palavra Mistério tem como raiz a palavra mueín, que significa “fechar”, tanto os olhos quanto a boca, ressaltando a obrigatoriedade do segredo e do isolamento durante a iniciação.

Os candidatos deveriam primeiramente submeter-se a uma iniciação durante os Mistérios Menores, realizados na proximidade do equinócio da primavera, para poder participar dos Mistérios Maiores, realizados na proximidade do equinócio de outono. Desconhece-se a verdade sobre esta iniciação, sabendo-se apenas que incluía testes de coragem e práticas ascetas.

Os Mistérios Maiores eram celebrados a cada cinco anos e tinham duração de nove dias. Os candidatos chegavam a Atenas vindos de todas as partes do mundo helênico e romano. No primeiro dia, reuniam-se para atender às chamadas dos sacerdotes e receber suas instruções. No segundo dia, purificavam-se mergulhando no mar e fazendo as primeiras oferendas (leitões). O terceiro dia era dedicado às cerimônias e oferendas oficiais em benefício da cidade de Atenas e do povo grego. No quarto dia, conhecido como Asklepia, novas purificações eram feitas em homenagem a Asclépio, o deus da cura. No quinto dia, dava-se início à procissão que percorria os 32 km que separavam as cidades de Eleusis e Atenas. As sacerdotisas carregavam os objetos sacros, purificados no mar, em grandes cestos chamados Kista. Os iniciados vestiam túnicas brancas e cantavam, dançavam e invocavam as divindades, cujas estátuas eram levadas em carruagens. Nos limites da cidade de Eleusis, figuras mascaradas encenavam parte do mito de Deméter expondo, por meio de sátiras e deboches, os vícios, erros e defeitos humanos. Dessa forma, esperava-se que os velhos Eus morressem e dessem lugar à renovação. Ao cair da noite, o jejum de três dias terminava e havia uma grande festa do lado de fora do Santuário. O sexto dia era reservado ao descanso, à purificação, ao jejum, à introspecção e ao silêncio. Quando as primeiras estrelas apareciam no céu, os iniciados tomavam o Kyklon, bebida sagrada preparada com centeio fermentado e hortelã, e entravam no santuário de Telesterion. Desconhecem-se os rituais ali praticados. Sabe-se somente que havia três estágios: a iniciação, em uma gruta subterrânea, em que os iniciados passavam por provas e testes; a morte simbólica, em que os iniciados “renasciam”, sem mais temer o fim da vida física por terem “visto” a continuidade de jornada da alma; e a encenação do mito de Deméter e Perséfone. Neste momento, reproduzia-se a busca de Deméter por sua filha Perséfone, raptada por Hades, deus do mundo subterrâneo, festejando-se, ao final, sua volta à vida na Terra, após os rigores do inverno simbolizando sua ausência.

O final das celebrações era marcado pelo sacrifício de animais, celebrando com danças e cantos o último gesto ritualístico dos sacerdotes: o derramamento de água sobre o chão, invocando a chuva para conceber a vida na terra. Esse ato simbólico revelava o profundo simbolismo dos Mistérios de Eleusis – o casamento sagrado da chuva celeste com a terra fértil e receptiva para conceber o filho, representado nos grãos dos cereais. Para os iniciados, que viviam da terra e de seus ciclos e estações, os Mistérios representavam a confirmação sagrada de que a morte era seguida do renascimento, assim como a vegetação morria no outono e renascia na primavera, acordando de um sono profundo, por vezes comparado à própria morte.

Adaptando o mito de Deméter e Perséfone à nossa realidade, podemos melhor compreender a necessidade dos rituais de iniciação. Ao proporcionarem a visão dos medos, limitações e defeitos que restringem a evolução de nossa alma, os rituais apontam para a possibilidade de uma morte egóica que levará a uma renovação transcendental. As mulheres podem encontrar no mito de Perséfone um exemplo de coragem para descer ao mundo subterrâneo de seu inconsciente, atravessar as sombras e emergir para a luz.

IN: http://sitioremanso.multiply.com/journal/item/20

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

OS MISTÉRIOS DEMÉTER E PERSÉFONE



DEUSA DEMÉTER

Acredita-se que o culto à Deméter tenha sido trazido à Grécia vindo de Creta durante o período micênico, carregando consigo o seu nome.. Sendo assim, ela é descendente direta da Deusa-Mãe cretense, que com suas virgens e sacerdotisas, empunhavam serpentes e prestavam culto ao touro. Neste caso, podemos afirmar que Deméter representaria a sobrevivência da religião e dos valores matriarcais durante a cultura patriarcal guerreira dos gregos clássicos.

O hino homérico relata que ela teria chegado a Eleusis disfarçada de anciã, na época em que as pessoas vinham do outro lado do mar, de Creta.

A filha de Deméter, Perséfone, também nasceu em Creta, e a lenda arcaica da união de Zeus, em forma de serpente, com sua filha também teve lugar em Creta. O filho que nasceu dessa união foi Dionísio. As coincidências demonstram que existe uma conexão entre a Deméter documentada em Creta e a que é conhecida na Grécia.
Na Grécia antiga, Deméter era responsável por todas as formas de reprodução da vida, mas principalmente da vida vegetal, o que lhe rendeu o título de "Senhora das Plantas", "A Verde", "A que atrai o fruto" e "A que atri as estações". As pessoas a honravam ao usar guirlandas de flores enquanto marchavam pelas ruas, geralmente descalças. Acreditava-se que pisar na terra descalço aumentava a comunicação entre os humanos e a Deusa.

Para os gregos, Deméter era a criadora do tempo e a responsável por sua medição em todas as formas. Seus sacerdotes eram conhecidos como Filhos da Lua.

Outro vestígio da antiga consciência matriarcal da Deusa-Mãe, foi transmitido na devoção católica popular da Virgem Maria entre os povos do Mediterrâneo. Quase certamente há uma continuidade psíquica entre Maria, a Mãe de Deus, as antigas deusas da Grande Mãe no Mediterrâneo e no Oriente Próximo e a deusa Deméter. Mas embora se conheça muitas representações medievais de Maria com cereais e flores, ela não possui o poder emocional das antigas Mães da Terra e suas filhas.
Deméter era a protetora das mulheres e uma divindade do casamento, maternidade, amor materno e fidelidade. Ela regia as colheitas, o milho, o arado, iniciações, renovação, renascimento, vegetação, frutificação, agricultura, civilização, lei, filosofia da magia, expansão, alta magia e o solo.

O RAPTO DE PERSÉFONE


Quando falamos de Deméter, devemos falar de duas Deusas. O cerne do mito e do culto a Deméter, era o fato dela ter perdido sua adorada filha Coré (donzela, em grego). A intimidade entre mãe e filha ressalta o caráter profundamente feminino dessa religião e constelação mitológica. Coré mais tarde passa a ser conhecida como Perséfone.

O mais antigo documento que narra este mito é o belo "Hino à Deméter" homérico, que nos fala tanto da Deusa Deméter como de sua filha Coré. O objetivo deste poema é explicar a origem dos mistérios de Elêusis.
A jovem Coré, diz a narrativa, encontrava-se colhendo flores, quando foi atraída por um narciso muito belo, mas ao estender a mão para pegá-lo, a terra se abriu e Plutão (Hades), Senhor dos Mortos, em sua carruagem de ouro puxada por dois cavalos negros, arrebatou-a e levou-a para ser sua noiva e Rainha do Subterrâneo. Coré lutou e gritos, mas nem os deuses imortais como os homens mortais, ouviram seus clamores. Deméter só pode ouvir o eco do apelo de sua filha e então apressou-se para encontrá-la. Procurou sua filha por nove dias e nove noites, não parando para comer, dormir ou banhar-se, só andando errante pela terra, carregando em suas mãos tochas acesas. Porém quando se apresentou pela décima vez a Aurora, encontrou-se com Hécate, Deusa da Lua Escura, que lhe diz:



-"Soberana Deméter, dispensadora das estações, de esplendidos dons, quem dos deuses celestes ou dos homens mortais raptou Perséfone e afligiu teu animo? Ouvi a sua voz, porém não vi com meus olhos quem era. Em breve vamos desfazer esse engano".



Assim falou Hécate que partiu com Deméter, levando em suas mãos as tochas acesas. As duas então chegaram até Hélio, o deus do sol, que compartilha esse título com Apolo e a mãe aflita perguntou:



-"Sol, respeita-me tu ao menos, como Deusa que sou...A filha que pari, encantadora por sua figura...ouvi sua vibrante voz através do límpido éter, como a de quem se vê violentada, mas não a vi com meus olhos. Porém tu que sobre toda a terra e por todo o mar diriges desde o éter divino a olhar de teus raios, diga-me sem enganos se teria visto a minha filha querida em alguma parte; quem dos deuses ou dos homens mortais ousou capturá-la para longe de mim, contra sua vontade, pela força".



Hélio então respondeu:


-"Filha de Rea, ...pois é grande o meu respeito e compaixão que sinto por ti, aflita como estás por tua filha de esbeltos tornozelos. Nenhum outro dos imortais é mais culpado que Zeus fazedor de nuvens, que a entregou à Hades para que se torne sua esposa...Assim que tu, Deusa, dá fim a teu copioso pranto. Nenhuma necessidade há de que tu, sem razão, guarde então um insaciável rancor."



Deu a entender para a Deméter que ela deveria aceitar a violação de Perséfone, pois Hades, não era um genro tão sem valor, mas a Deusa não aceitou seu conselho e agora sentia-se traída por Zeus. Retirou-se do monte Olimpo, disfarçou-se de uma mulher anciã e vagou sem ser reconhecida entre as cidades dos homens e os campos. Um certo dia, ela se aproximou de Elêusis, sentou-se perto do poço Partenio e foi encontrada pelas filhas de Céleo, o governador de Elêusis. Quando Deméter disfarçada lhes revelou que procura um emprego de babá, ela a levaram para casa, à sua mãe Metanira, para cuidar do um irmãozinho chamado de Demofonte.

Sob os cuidados da Deusa, Demofonte criou-se como um deus. Ela o alimentou com ambrosia e secretamente o colocou em um fogo que o teria tornado imortal não tivesse Metanira entrado no local e gritado por medo do filho. Deméter reagiu com fúria, reclamou à Metanira por sua estupidez, e revelou sua verdadeira identidade. Ao mencionar seu nome mudou completamente seu visual revelando sua beleza divina. Seu cabelo dourado caiu pelas costas, e seu perfume e esplendor encheram a casa de luz.
Imediatamente Deméter ordenou que fosse construído um templo só seu e lá permaneceu envolta em sua dor e não permitindo que nada germinasse na terra.

Zeus, tendo conhecimento da situação enviou sua mensageira Íris até Deméter, pedindo que Deméter retornasse ao Olimpo. Como não concordou, um a um dos deuses olímpicos vieram até ela, trazendo dádivas e honras. Mas a cada um Deméter fez saber que de modo algum retornaria ao monte Olimpo, até que sua filha lhe fosse devolvida.
Finalmente Zeus resolve enviar seu mensageiro Hermes até Hades, ordenado-lhe que trouxesse Perséfone de volta para que "quando sua mãe a visse com seus próprios olhos, abandonasse a sua raiva". Hermes ao chegar ao mundo de Hades, encontrou-o sentado próximo à Perséfone que se encontrava muito deprimida.

O Senhor dos Mortos, antes de libertar Perséfone, deu-lhe uma semente de romã para comer, o que faria com que ela voltasse para ele. Assim, foi-lhe permitido voltar para Deméter dois terços do ano e o restante do ano no mundo das trevas com Hades.
Com a satisfação de recuperar a filha perdida, Deméter fez com que os cereais brotassem novamente e com que toda a Terra se enchesse de frutos e flores. Imediatamente mostrou esta feliz visão aos princípios de Elêusis, Triptolemo, Diocles e ao próprio rei Celeo e, além disso, revelou-lhes seus sagrados ritos e mistérios.

O amor entre Deméter e Coré é um sentimento que somente uma mãe e uma filha podem realmente compartilhar. Não importa o quanto um pai ame e adore sua filha, jamais chegará perto do estreito vínculo que existe entre mãe e filha. Ao dar á luz, a mãe, vê a si mesma em pura inocência naquela pequena pessoinha. Jung nos diria que uma mãe vê em sua filha é a percepção de seu próprio "self" feminino transcendente, a perfeição do ser feminino.
Podemos afirmar, com convicção, segundo Carl Jung, que "em toda mãe já existiu uma filha e toda a filha contêm sua mãe" e que toda mulher se estende para trás em sua mãe e para frente em sua filha. A conscientização destes laços gera o sentimento de que a vida se estende ao longo de gerações e provocam a sensação de imortalidade.

ARQUÉTIPO MATERNAL


No momento que a mulher recebe em seus braços o seu bebê, o poder arquetípico de Deméter é plenamente despertado. As dores do parto, consideradas como uma transição iniciática, desaparecem e uma irradiação de amor demétrico tudo abrange. Estará aqui e agora desperta para uma nova fase de sua vida: ser mãe. Uma vez mãe, permanecerá sempre mãe, pois nada apaga a emoção de carregar um filho sob o coração.
O arquétipo da Mãe era representado no Olimpo por Deméter. Embora muitas Deusas tenham sido mães, nenhuma se compara à esta Deusa, pois ela deseja ser mãe. Quando está grávida ou criando seus filhos, Deméter atinge o ápice de sua plenitude enquanto mãe. Ela orgulhosamente proporcionou vida nova e novas esperanças à sua comunidade.
No antigo simbolismo de seu ciclo, ela corporifica agora a lua cheia, e também o verão abundante com frutos da terra. O cálice da força vital dentro de si está transbordante.
Este arquétipo não está restrito à mãe biológica. Ser mãe de criação ou ama seca, permite que outras mulheres expressem seu amor maternal. A própria Deméter representou este papel com Demofonte.


MÃE-NATUREZA
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O povo grego. ano após ano, via, com natural pesar, os dias brilhantes do verão desvanecer-se com a tristeza da estagnação do inverno. Ano após ano, saudava a explosão de vida e cores da primavera. Habituado a personificar as forças da natureza e a vestir suas realidades com roupagem de fantasia mítica, ele criou para si um panteão de deuses e deusas, de espíritos e duendes, que oscilavam com as estações e seguiam as flutuações anuais de seus fados com emoções alternadas de alegria e tristeza, que expressava na forma de ritual e de mito. Um destes mitos é o da Deusa Deméter. Os romanos a conheciam como Ceres.
O símbolo principal de Deméter era um feixe de trigo e, em seus mistérios em, Elêusis, uma única espiga de milho. É retratada como uma mulher bonita de cabelo dourado e vestida com roupão azul, considerada a Senhora das Plantas. Seu animal sagrado é o porco, que representava um sacrifício de fertilidade em todo o mundo por causa de seus múltiplos úteros. Seu animal sagrado marinho era o golfinho.

AS TESMOFORIAS

O festival grego da "Tesmoforias" era celebrado anualmente em outubro, em honra a Deméter e era exclusivo para mulheres. Se constituía de três dias de celebrações pelo retorno de Core ao Submundo.

Neste festival, os iniciados compartilhavam uma beberagem sagrada, feita de cevada e bolos.
Uma das características da Tesmoforia era uma punição aos criminosos, que agiam contra as leis sagradas e contra as mulheres. Sacerdotisas liam a lista com os nomes dos criminosos diante das portas dos templos das Deusas, especialmente Deméter e Ártemis. Acreditava-se que aqueles desta forma amaldiçoados morreriam antes do término de um ano.


O primeiro dia da Tesmoforia era celebrado o "kathodos"(baixada) e o "ánodos"(subida), um ritual em que as sacerdotisas castas levavam leitões para serem soltos dentro de grutas profundas cheias de serpentes e os restos decompostos dos porcos do ano anterior eram recolhidos.



O segundo dia era chamado de "Nestía", nele as mulheres jejuavam, sentadas no chão, imitando a forma ritual dos processos da natureza e, de acordo com uma perspectiva mitológica, representando a dor de Deméter pela perda da filha, quando, inconsolada, se sentou ao lado do poço. O ambiente era triste e, portanto, não se usavam guirlandas.



No terceiro dia, se celebrava um banquete com carne e os leitões recolhidos (do ano anterior) eram espalhados na terra arada, e se invocava a Deusa de belo nascimento, "kalligeneia".





MISTÉRIOS ELEUSIANOS




O propósito e o significado dos Mistérios Eleusianos era a iniciação à uma visão. "Eleusis", significa "o lugar da feliz chegada", de onde os campos Elíseos tomam seu nome. O termo "Mistérios" provêm da palavra "muein", que significa "fechar" tanto os olhos como a boca. Faz referência ao segredo que rodeia as cerimônias e a conformidade requerida do iniciado, ou seja, se exige de ele ou ela permita que se faça algo: daí se deduz o significado de "iniciar". A culminação da cerimônia consistia na exposição de objetos sagrados no santuário interno à mãos do sumo sacerdote ou hierofante (hiera phainon), "o que faz que os objetos sagrados apareçam". Era somente permitido fazer alusões indiretas sobre o que ocorria. Entre elas, a fundamental era que Deméter falava à sua filha e se reunia com ela em Eleusis. Mas, alguns escritores cristãos violaram essa regra e um assinalou que o ponto culminante da cerimônia consistia em cortar uma espiga de trigo em silêncio.

Qualquer pessoa podia assistir os Mistérios, desde que falasse grego, mulheres e escravos inclusive, desde que não tivessem as mãos sujas de sangue por nenhum crime. Os Mistérios eram realizados uma vez ao ano para mais ou menos três mil pessoas. Se sabe que esses iniciados não formavam nenhuma sociedade secreta, eles vinham de todos os pontos da Hélade, participavam da experiência e logo se separavam.
Os Mistérios menores, que se celebravam até o final de inverno no mês das flores, o Antesterion (nosso fevereiro) e era pré-requisito para a participação nos Mistérios maiores, que se celebravam no outono. Esses Mistérios exploravam o que havia acontecido à Perséfone, Deusa do Mundo Subterrâneo, quando estava colhendo flores em Nisa. Se diz que ela foi raptada por Hades enquanto colhia um narciso de cem cabeças. Os gregos chamavam de narciso toda a planta que tinha propriedades narcóticas.
Esse rapto representa várias idéias, uma é o processo que experimenta a semente ao cair na terra e decompõem-se para voltar de novo à vida. Que se representava simbolicamente como as primeiras núpcias entre os reinos da vida e da morte.

Porém, também representa o rapto extático que proporcionavam certas substâncias que estavam relacionadas com Dionísio, deus da embriaguez, que por sua vez era Senhor de Hades por sua relação com tudo que apodrecia, fermentava e se transformava em outra coisa.
O primeiro estágio da iniciação no Mistérios menores era o sacrifício de um porco jovem, o animal consagrado à Deméter, que substituía simbolicamente a morte do próprio iniciado. Como nas Tesmoforias esse rito se ajusta à variante órfica do mito, que associava a morte do leitão com o rapto de Perséfone.
O segundo estágio da iniciação era uma cerimônia de purificação na qual o iniciado era vendado. As sucessivas etapas dos ritos de iniciação são descritas, através de alusões, inteligíveis para os já iniciados, porém não para os profanos.
O acontecimento central dos Mitos Eleusinos era a noite em que se consumia a poção sagrada Kykeon. Os ingredientes dessa poção se constituiu um segredo durante esses 4 mil anos.

Os Mistérios maiores se celebravam a princípio à cada cinco anos. Mais tarde passaram a celebrar anualmente, no outono: começava no dia 15 do mês Boedromión (nosso mês de setembro) e duravam nove dias. Se reuniam iniciados de todos os lugares do mundo helênico e romano, e se declarava uma trégua entre as cidades estado gregas durante quarenta e cinco dias, desde o mês anterior até o mês seguinte.

Na véspera do início, se levavam os objetos sagrados, o "hierá", de Deméter em procissão desde Eleusis até Atenas.


1- dia 15 do boedromion: Agyrmos, reunião. Proclamação:

Nesse dia tinha lugar a convocação e preparação dos iniciados. Os hierofontes declaravam o "prorrhesis", o início dos ritos.


2 dia- 16: Elasis ou Helade Mistay: "Ao mar, ó iniciados!"

No segundo dia os iniciados se purificavam no mar (Falero), num rito chamado de "expulsão". Durante nove dias fariam estas abluções na água do mar, nove dias como Deméter peregrinou pela terra em busca da verdade sobre o rapto de Perséfone. Nesse mesmo dia, os iniciados sacrificavam um leitão enquanto o hierofante os instava: Helade, Mysthai!


3 dia- 17: Hiereia Deuro: Sacrifício

Parece que nesse dia se celebravam o sacrifício oficial em nome da cidade de Atenas.


4 dia- 18: Asclepia

Esse dia era chamado de Asclepia em honra de Asclepio, deus da cura, era outro dia de purificação.


5 dia- 19: Yacós ou Pampa, procissão

Esse era um dia de celebração onde se realizava um grande procissão que inciava em Ceramico (Cemitério de Atenas) até Eleusis, seguindo o itinerário sagrado. Percorriam uns 32 Km. Algumas sacerdotisas levavam as "hierás" em "kistas"fechadas, ou cestas, rodeadas por uma multidão que dançava e gritava o nome de Yaco, cuja estátua, coroada de myrto e carregando uma tocha.



Yaco era o outro nome de Dionísio que, segundo a lenda órfica, era filho de Perséfone e Zeus, pai da mesma. Fui concebido em uma noite em que o deus se aproximou de uma caverna subterrânea transformado em serpente. Não se tratava de Dionísio, deus do vinho e do touro (cujo equivalente é o cretense Zagreo), deus que é desmembrado, porém vive de novo. Era Dionísio como criança de peito místico, o deus que morre e vive eternamente, imagem da renovação perpétua.



Na fronteira entre Eleusis (era uma cidade pequena à 30km noroeste de Atenas) e Atenas, pessoas mascaradas parodiavam a procissão. Encenavam o mito que relatava como Yambe ou Baubo animou Deméter. Como em tantas festas de renovação, preparavam o nascimento do novo para substituir o velho. Quando as estrelas apareciam, os "mystai" (iniciados) rompiam seu jejum, pois o dia vigésimo do mês havia chegado e segundo as "Ranas" de Aristófanes, o resto da noite passavam entre cantos e bailes. Os templos de Poseidón e Ártemis se abriam para todos, porém atrás deles estava a porta que dava ao santuário, e nada, exceto os iniciados, poderiam passar sob pena de morte.


6 dia - 20: Telete (mysteriodites Nychtes)

Esse era um dia de descanso, jejum, purificação e sacrifícios, de acordo com o mito de jejum de Deméter, representando o ritual de esterilidade do inverno. O jejum se rompia com a bebida de cevada, mel e polén (Kykeon) que preparavam e então se permitia que os iniciados entrassem no santuário sagrado. Essa celebração acontecia em um lugar chamado de Telesterion, chamado assim porque aqui se alcançava "o objetivo" ou "telos". Era um local enorme, que podia albergar milhares de pessoas e onde se exibiam os objetos sagrados de Deméter. No centro estava o Anactoron, uma construção retangular de pedra com uma porta em um de seus extremos, que só o hierofonte podia passar. Essa era a parte mais reservada dos Mistérios eleusianos.



Mas o que exatamente ocorria neste momento?Seria o começo da própria iniciação? Parece que se desenvolvia em três etapas: "drómena, o feito (Ação); legómena, o dito (texto falado); deiknýmena, o mostrado (visão). Depois tinha lugar uma cerimônia especial conhecida como "epoptía", o estado de "haver visto", se celebrava para os iniciados do ano anterior.



Em drómena os iniciados participavam de um desfile sagrado pelo qual se representava o relato de Deméter e Perséfone. Os legómena consistiam em invocações ritualísticas curtas, pequenos comentários que acompanhavam o desfile e explicavam o significado do drama. Os deiknýmena, a exibição dos objetos sagrados, culminava na revelação proferida pelo hierofante, cuja difusão era proibida. Os epoptía também incluiam a exibição de "hierá", não se sabe ao certo o que eram esses objetos sagrados. Segundo as fontes arqueológicas de A. Kórte (Zu den Eleusinischen Mysterien, «Archiv für Religions Wissenschaft» 15, 1915, 116) supõe-se que a enigmática cesta que tomavam os iniciados, entre outros objetos, havia um que representava o órgão sexual feminino, o qual, em contato com o corpo dos mystai, contribuía com a sua regeneração e passavam a ser considerados filhos de Deméter.

M. Picard (L'épisode de Baubó dans les mystéres d'pleusis, «Revue d'histoire des religions» 1927, 220-255) adiciona o órgão masculino. O iniciado tocaria sucessivamente os dois objetos, simbolizando assim a verdadeira união sexual.



7 dia- 21: Epopteia

Somente à tarde tinha início os ritos secretos. Em determinado momentos deviam pronunciar uma contra-senha sagrada:"Jejuei, bebi o kykeon, o tomei do canasto (calathus) e, depois de prová-lo o coloquei de novo no canasto e dali, ao cesto". Misteriosas palavras, que sem sombra de dúvida, tinham grande significado para os iniciados. Todo o resto do dia era passado em compasso de espera e somente à noite os iniciados entravam no santuário. Um muro à sua direita impedia que vissem o local da "Rocha sem alegria" (local em que se supõe que a Deusa Deméter esteve sentada). Ouviam lamentos procedentes dali. Chegavam ao Telesterion e depositavam os leitões nas "mégara", uma espécie de sótão do templo. Em seguida peregrinavam fora do Telesterion em busca de Core (Perséfone), na escuridão e com a cabeça coberta com uma carapuça que não lhes permitia ver nada, cada iniciado era guiado por um mystagogo. Imagine andar na escuridão, totalmente desorientado, esperando em silêncio, até que um gongo soa como um trovão e o hierofonte clamando por Core, até que o mundo inferior se abre e das profundezas da terra aparece a Deusa. Daí um clarão de luz enche a câmara, crescem as chamas da fogueira e o hierofonte canta:



-"A Grande Deusa deu à luz a um filho sagrado: Brimo pariu à Brimós". Então, em silêncio profundo, levanta com a mão uma espiga de trigo.



Para que entendam, Brimo era uma Deusa do Mundo Inferior em Tesália, ao norte. Os nomes Brimo e Brimós sugerem à introdução da agricultura e de que nos Mistérios da Grécia houve influência tesalia.

Mas que estão fazendo Brimo e Brimós em Eleusis?

Kerényi diz que Brimo é "fundamentalmente um nome que designa a rainha do reino dos mortos, atribuído à Demeter, Core e Hécate em sua qualidade de Deusas do Mundo Inferior". Nesse caso, o filho é o espírito da renovação concebido no Mundo Inferior como testemunho vivo de que na morte há vida, já que está na "riqueza" da colheita, o "tesouro" do conhecimento intuitivo espiritual.



Brimo, portanto, foi o nome dado ao filho de Perséfone, ao qual ela deu à luz no inferno em meio as chamas. Esse nome parece referir-se à Dionísio, o deus de vida indestrutível.


8 dia - 22: Plemochoai

Era dia de sacrifício e festa. Sacrificavam-se touros à Deméter e Perséfone (Core) e outros animais, especialmente leitões. Este festival era chamado Plemochoai, porque esse era o nome dado aos vasos (ou taças) que o sacerdote enchia com um certo líquido e, virando-se para oeste e depois para leste, derrama ao solo o que continham. O povo, olhando para o céu, grita "chuva!" e, olhando para a terra, grita "concebe!", hýe, kýe.



Harrison escreve que "o rito do matrimônio sagrado e o nascimento da criança sagrada....era o mistério central". Entretanto, a cerimônia final nos mostra o matrimônio simbólico da chuva celestial com à terra, que havia de conceber o filho do grão (da semente), porém existia a possibilidade se ser celebrado esse casamento simbólica ou literalmente, entre o hierofante e uma sacerdotisa antes do regresso de Core.


9 dia - 23: Epistrofe

Neste dia os iniciados voltavam à Atenas. Eleusis voltava a velar-se em seus mistérios, enquanto se despedia dos visitantes, agora renascidos, levando consigo as experiências de vinculação com as divindades. Assim acabam os Mistérios de Eleusis.


A gestão desse culto era exclusiva das famílias aristocráticas, com funções definidas para cada uma delas. O sumo sacerdote, o chamado hierofante, devia pertencer a família dos Eumólpidas, enquanto a família dos Cérices procediam dos sacerdotes de traço imediatamente inferior, o portador da tocha. A sacerdotisa vivia sempre no santuário. O hierofante ostentava o privilégio de escolher seus iniciados. Sobre todos eles se sobrepunha uma outra figura, o chamado arconte rei (archon basileus) no eleusino, que era ateniense (era os atenienses que controlavam o culto), ao qual assiste uma equipe de colaboradores (epistatai), encarregados das finanças.



MORRER PARA RENASCER


Morrer para renascer, esse é o sentido da iniciação. O sangue dos animais sacrificados simbolizavam a própria morte do iniciado. É Plutarco que nos diz que "morrer é ser iniciado". Só através da morte se regressa à luz. Clemente e Foucart realmente estão de acordo com essa idéia: representar a busca de Deméter e identificar-se com Perséfone é precisamente vagar no mundo subterrâneo da morte, do mesmo modo que encontrar Core é retornar à vida depois da morte.

Esse mito grego recupera um mito bem mais antigo conhecido como a "Descida de Inanna", que vai e vem entre ambos os mundos. Perséfone aqui é a faceta da mãe que desce e regressa de novo à mãe, configurando uma totalidade nova. Se percebe claramente uma continuidade nessa relação: vida em morte e morte em vida. Se "vê através" de uma a outra, e isso liberta a humanidade de sua natureza de entidades antagônicas. Quando mãe e filha se percebem como uma única realidade, nascimento e renascimento se convertem em fases que provêm de uma fonte em comum: através da dita percepção se transcende a dualidade.



A DEUSA TRÍPLICE



A triplicidade pode ser vista na lua, que é: crescente, cheia e minguante. E, no fato da Deusa reger o mundo superior, a terra e o mundo inferior. Ela era também a Donzela ou Virgem, a Mãe e a Anciã, as três principais fases da vida de toda a mulher. Pois Deméter se vê "Donzela" em sua filha Coré. É "Mãe" desta filha e de tudo que brota e cresce. Mas, ao perder sua filha Coré para Hades, torna-se "Anciã" associada diretamente com a morte.
Para cada fase ou ciclo há perdas que devem ser vivenciadas por todas as mulheres. No primeiro ciclo, visualiza-se a "morte da donzela", que torna-se uma jovem nubente e é uma iniciação para fase seguinte, que se tornará mãe, abençoada com seus próprios filhos. Quando a Mãe não pode mais conceber (menopausa), passa a tocha da maternidade para filha, transferindo para ela todos os poderes da fecundidade. A morte da mãe, constitui a mulher idosa que tem agora o potencial para ingressar na esfera espiritual das anciãs, guardiãs dos mistérios da morte.

Hoje estes ciclos raramente são reconhecidos e vividos plenamente pelas mulheres, pelo fato de habitarem um mundo predominantemente masculino. A realidade moderna e científica tornou a "Mãe" uma máquina biológica de produção de bebês, que favorece ou prejudica a política financeira de uma determinada sociedade.


DEMÉTER HOJE



Por mais belo que se pinte um quadro de uma mãe com o filho nos braços, ele estará longe de ser a realidade para a maioria das mães das sociedades industrializadas e urbanas do Ocidente. As pressões financeiras, privam a mulher de permanecer no seio da família, cuidando de seus amados filhos. Até a licença-maternidade, através de duras penas conseguida, possui um tempo vergonhosamente limitado, pois a volta ao trabalho quase de imediato, não permitem que a mãe acompanhe o desenvolvimento de seu bebê. Além de ser estigmatizada por tal feito, pois ter um filho em nossos dias, significa estar fora de ação, inativa e lhes é somente permitido olhar saudosamente para o mundo que caminha sem elas.
Deméter sofre com o eclipse em nossa civilização. As mulheres que representam seu modo de ser, não têm condições de competir com as mulheres mais instruídas, pois a Deméter natural não é tão intelectualizada. Ela adora apenas criar seus filhos e acaba ficando muito sentimentalizada, tratada com condescendência e destituída do poder por suas irmãs feministas.

Deméter nas antigas comunidades agrárias, tinha dignidade, autoridade e uma vida bastante gratificante. Tudo se perdeu numa sociedade onde tudo é subserviente às exigências econômicas do monopólio do consumo.

RITUAL



Todos nós experimentamos em nossas vidas momentos em que temos a sensação de estarmos mergulhando no Submundo e nas trevas, sem sabermos se conseguiremos emergir para a luz e tempos melhores.

O ritual que se segue é bem simples e lhe ajudará muito a iniciar as mudanças inconscientes necessárias para diluir esses sentimentos obscuros e negativos.

O sentimento de desamparo afeta tanto o espírito quanto a mente. Quando se atravessa um período negativo, o mais importante não é saber o porquê do quadro, mas sim saber como se pode revertê-lo.



Material:

1 vela branca em um suporte

1 incenso de patchulli

1 cobertor

1 sino



Acenda a vela e entre na banheira cheia de água com um pouco de sal. Concentre-se na lavagem de todas as vibrações negativas. Permaneça na banheira o tempo necessário para relaxar. Depois seque-se e vista uma túnica ou roupão. Segure a vela com uma mão e o sino na outra. No sentido horário visite todos os cômodos da casa, badalando o sino enquanto caminha. Erga a vela diante de cada janela, porta e espelho e em seguida toque o sino, dizendo:



"Trevas, fujam deste sino e desta vela,

Que entre o equilíbrio. Vá embora a escuridão".



Coloque a vela no suporte, acenda o incenso e espalhe a fumaça gentilmente sobre o seu corpo. Deite-se em uma posição confortável e enrole-se no cobertor, deixando apenas o nariz e a boca descobertos, para permitir sua respiração.

Feche os olhos e sinta-se afundando na Terra. Relaxe completamente e deixe-se levar às profundezas. À medida que afunda, derrame sua infelicidade e seus sentimentos depressivos na Mãe Terra e no Senhor da Floresta. Se você sentir vontade de chorar, chore, pois lhe fará muito bem.

Agora escute o seu coração. Deixe seus sentimentos fugirem ao controle da mente consciente e alcançarem aquele ponto onde não há explicação para se ouvir o que se ouve, sentir o que se sente, deixe rolar o que tiver que rolar...

Você sentirá então, o abraço da Mãe Terra e a escuridão e a depressão de seu interior começarão a se desintegrar. Uma paz profunda tomará conta de todo o seu ser.

À medida que sente estar dirigindo a mente para pensamentos mais positivos, comece a se livrar do cobertor. Mas saia lentamente de dentro dele, como se fosse um bebê nascendo para um novo mundo.

Uma vez livre do cobertor, estique os braços e as pernas. Não se espante se estiver rindo ou chorando de emoção, é bem normal.

Agradeça à Deusa por Sua ajuda passada, presente e futura e dê boas-vindas às mudanças que florescem dentro de você.

Agora vá e faça algo que lhe deixe muito feliz!


Texto pesquisado e desenvolvido por
Rosane Volpatto

Bibliografia consultada:

O Oráculo da Deusa - Amy Sophia Marashinsky
A Deusa e a Mulher - Jean Shinoda Bolen
A Deusa Interior - Jennifer Barker Woolger/Roger J. Woolger

IN:
http://www.rosanevolpatto.trd.br/deusademeter.htm

sábado, 10 de janeiro de 2009

Deméter & Perséfone




A Deusa Perséfone representa o arquétipo de deusa do submundo, foi raptado por Hades quando viu-la brincar no campo sempre acompanhada de ninfas esta interessou-se por um narciso de beleza exótica que o próprio Hades criou para distrai-la no exato momento em que ia colhe-lo o deus a raptou sua mãe que representa a Terra mostra que o seguinte aspecto ela Perséfone abanado a terra Deméter símbolo do mundo físico e vai pro reino do submundo representando assim o abandono do corpo físico para a o corpo astral