"E aqueles que pensam em Me procurar, saibam que a vossa busca e vosso anseio devem beneficiar-vos apenas se vós souberdes o Mistério; se o que vós procurardes, vós não achardes dentro de vós mesmos, então nunca encontrarão fora. Pois eu tenho estado convosco desde o Início e Eu Sou Aquela que é alcançada ao final do desejo"


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domingo, 8 de agosto de 2010

O CULTO DA MÃE SERPENTE

A Deusa e a Serpente

Todas as mitologias do mundo tinham uma representação simbólica, divinizada ou mágica da serpente, como a Serpente do Mundo na mitologia nórdica, Leviathan, a serpente marinha hebraica ou o ouroboros, "representado pela serpente mordendo a própria cauda, o grande dragão que vivia no mundo subterrâneo, antigo símbolo de sabedoria e do "eterno retorno" (do espírito para a matéria). Desde a sociedade neolítica e durante a Idade de Bronze, a serpente era divinizada na Europa, no Egito e Oriente pela sua vitalidade e rejuvenescimento periódico, sendo honrada pelo seu poder mágico e a habilidade de regeneração, sendo ao mesmo tempo subterrânea, celeste, telúrica e aquática. Devido aos seus movimentos ondulantes e a regeneração pela troca de pele, a serpente tornou-se imagem da Deusa da renovação e do renascimento, representando o despertar da vida após a hibernação vegetal ou a morte física. Uma antiga crença afirmava que a serpente não morria de velhice, mas que, ao trocar de pele, emergia renovada ou renascida, assim como os antigos chineses viam a ressurreição dos mortos, como um homem descartando a velha pele e dela mergindo jovem.
As culturas antigas não promoviam o atual medo irracional da serpente, que foi incutido pelo cristianismo; para os povos matrifocais ela era um ser sagrado, benevolente, mágico, símbolo da vida, da morte e do renascimento, guardiã das moradas, dos lugares e dos templos, curadora dos doentes, constituindo uma ligação com o mundo dos deuses e dos mortos. Imagens de deusas de várias culturas retratam uma figura feminina parcial ou totalmente representada como serpente, envolvida por ela ou tendo filhote de serpente nos seus braços. A junção simbólica da Deusa com a serpente representa a conjugação e o partilhar dos seus atributos, ambas sendo associadas ao nascimento, morte, ressurreição; a serpente através do seu hábito de trocar de pele, a Deusa pelos atributos lunares e o alternar dos ciclos da vida e das estações. A Lua era associada com a serpente devido à alternância das suas fases, representando o ciclo vegetal de ascensão, declínio, repouso e regeneração. Através de uma teia complexa de fios simbólicos, elas partilham os reinos da terra, da água, do mundo subterrâneo, da vida, da morte e do renascimento (vegetal e espiritual). O imaginário neolítico apresentou ao mundo inúmeras deusas com formas de serpente, tendo corpos longilíneos cobertos com listras ou linhas sinuosas, conhecidas pelas qualidades de fertilidade, maternidade, renovação. Os achados pré-históricos de estatuetas femininas eram associados com figuras de animais, principalmente pássaros, peixes, serpentes e felinos. Confeccionadas em marfim, osso, chifres ou pedras, estas representações antigas de Potnia Theron, a “Senhora dos Animais”, têm traços gravados nos seus corpos em forma de meandros, ondas ou espirais, que representavam o caminho sagrado para alcançar uma dimensão sutil, conectando o mundo visível ao invisível e a morte ao renascimento. A espiral é associada à água e à serpente, o labirinto sendo considerado o caminho percorrido por correntes de água ou o deslizar da serpente, dentro ou fora da terra. O mais antigo risco de um meandro serpentiforme, datado de 135.000 anos, foi encontrado sobre a parede de uma gruta de Dordogne, França. O meandro era a estilização da serpente, representando a energia da transmutação, que transcendia a compreensão humana. Uma antiga representação da serpente como Deusa-Mãe é originária do século V a.C. pertencendo aos antigos habitantes de Tessália, Grécia, associada ao mito de Eurynome, a Deusa Criadora que surge do caos dançando.
À medida que seus movimentos separam a terra do céu, Eurynome cria uma serpente gigante - Ophion – que se enrosca ao redor do seu corpo e copula com ela. Eurynome assume depois a forma de uma pomba, põe um ovo sobre as ondas e pede a Ophion que se enrosque sobre ele, para chocá-lo. Deste ovo cósmico surge a Criação universal: Sol, Lua estrelas, planetas e todos os seres vivos. Muitas imagens de Deusas da Europa Antiga são compostas, associando pássaro e serpente, ambos os animais dotados de poderes criadores e renovadores. A Deusa Pássaro e a Deusa Serpente podiam aparecer juntas, unidas em uma só imagem ou separadas, abrangendo a regência da terra, da água e do ar. Uma Deusa com características duplas de serpente e pássaro oriunda do século V a.C. e encontrada na Ucrânia, tem o corpo decorado com losangos e meandros, a púbis marcado com um losango. Dentro das suas amplas nádegas ela guarda um ovo, enquanto sobre o ventre são gravadas imagens de sementes, apontando seu papel no crescimento da vegetação. A forma curvilínea da serpente lembra a água corrente, o elemento indispensável para a sobrevivência das comunidades agrárias do período neolítico. A habilidade da troca da pele da serpente sugere a renovação constante do manto verde da terra e da vegetação, sendo uma descrição da energia que se autoregenera ao longo de um ciclo.
Em inúmeras culturas da Europa antiga até Índia, Mesopotâmia, Egito e Oriente próximo, foram encontradas estatuetas de madonas arcaicas, com filhos nos braços, muitas delas com reprodução de escamas no corpo ou com serpentes e espirais ao redor dos seus ventres, nádegas e braços. A antiga Deusa Serpente europeia reapareceu em Creta com uma nova definição e apresentação. As serpentes no seu corpo ou nos vasos com formas femininas representam o poder de dar e tirar a vida, contendo em si os pólos da dualidade, que se reconciliam, sem oposição, no equilíbrio da vida e da morte, da unidade e multiplicidade. Em Creta a Deusa é vista como uma energia fluida, divinamente manifesta no vôo dos pássaros e das abelhas, na dança dos golfinhos ou no entrelaçamento ondulante das serpentes, a multiplicidade de formas sendo um hino à natureza, celebrando a alegria e a vida. Inúmeros afrescos com deusas as mostram cercadas por serpentes, labrys, pombas, papoulas, sentadas ou ao lado da Árvore da Vida e oferecendo seus frutos. Serpentes ondulam entre Sol, Lua, estrelas, chuva, plantas, árvores como símbolos do principio dinâmico da energia vital, a água e a sua representação como serpente sendo as energias da vida. Uma estatueta em terracota de uma Deusa Serpente de Creta de 6000 a.C. sentada em posição de lótus, tem o corpo gravado com linhas paralelas e outras que ondulam, com a base larga afinando para cima, dando uma nítida sensação do seu poder telúrico. Uma madona micénica de 1400 a.C. com cabeça de pássaro, roupa solta e colar no pescoço afilado, segura um filho serpente nos braços; linhas horizontais serpenteiam e cobrem o corpo da mãe e do filho. Uma fascinante divindade serpentiforme de Creta de 1100 a.C. aparece dentro de um altar pequeno e pintado com padrões ondulantes; seu corpo é listrado, no pescoço tem um colar de três voltas, seus braços elevados - como se fossem invocar a força da vida - seguram uma corda, um gesto comum nos giros usados para os ritos de fertilidade.
Espirais duplas - que sugerem o movimento de entrar e sair de um labirinto - são encontradas em todo o mundo, como nos monumentos megalíticos de Irlanda, Grã-Bretanha, Malta e Creta, dentro dos túmulos ou gravados sobre pedras e altares, representando a renovação e o renascimento. No antigo Egito a serpente foi amplamente divinizada e ela presidia sobre assuntos ligados à fertilidade, nascimento, vida, morte e mundo subterrâneo. Estátuas de Deusas celestes, solares, telúricas e ctônicas usam formas de serpentes sobre as suas cabeças. Várias divindades são representadas com cabeças ou corpos de serpente, suas qualidades curativas, renovadoras e transformadoras sendo associadas ao mundo subterrâneo. A proteção conferida pela serpente como guardiã era tão importante que nenhum templo a dispensava. O bem estar da nação egípcia dependia da força da serpente, como símbolo de fertilidade, e do poder de Ísis como regente do rio Nilo. A venerada Deusa Neith, Senhora da Vida e do Destino aparece em uma das suas manifestações como uma grande cobra dourada; quando assumia feições humanas sua face e mãos eram verdes, simbolizando a vegetação. Neith é conhecida como a mais Antiga Deusa, pré-dinástica, regente da tecelagem e da magia, personificando as águas primordiais, o eterno principio da vida auto-sustentável, misteriosa e toda abrangente. Ela gerou o deus Ra, teceu com seu tear o céu e o mundo e com a rede recolheu das águas primordiais as criaturas que iriam viver na terra. Por ser a Mãe Criadora, nenhum mortal podia olhar sua face oculta, sob um véu, por isso na sua estátua estava escrito:

"Eu sou Aquela que é, foi e será e nenhum mortal levantou ainda o meu véu".
Ísis e Nephtis, a polaridade divina da luz e da sombra, foram equiparadas com a serpente dupla da vida e da morte, elas eram as únicas capazes de orientar as almas no mundo subterrâneo habitado por divindadesserpentes. Outra deusa egípcia com forma de serpente era Ua- Zit, a "Serpente Celestial" Doadora da Vida Eterna; seu símbolo, o ureus, significava "serpente" e "Deusa". No Oriente próximo, a serpente era reverenciada como personificação da sabedoria, por compreender os mistérios da vida e honrada pela sua habilidade de viver tanto nos vales férteis dos rios Tigre e Eufrates, quanto nos desertos áridos. Em ambos os ambientes, se deslocava velozmente sem pernas, trocava de pele para se renovar e atacava de forma fulminante, qualidades que a definiram como uma criatura mágica, mestra da cura e da sabedoria. Uma estatueta encontrada no templo da Deusa Ishtar, datada de 4000 a.C. representa uma mulher nua com cabeça de serpente e amamentando um filhote de serpente, aliando assim o calor e amor humanos com o sangue frio e os poderes ctônicos da serpente. A Deusa Anat era representa montada sobre um leão, segurando um lótus e cercada por serpentes, que representavam o ciclo da vegetação, seus atributos sendo de criação e destruição. A antiga Deusa síria da fertilidade Atargatis, Deusa celeste, telúrica e ctônica, tinha uma estátua de bronze em que sua cabeça emergia da boca da serpente, seu corpo cercado por sete voltas de uma grande serpente, em cujas escamas havia sete ovos escondidos, personificando o poder fertilizador da água, que gera e nutre a vida. A Deusa acadiana Ninhursag "A que dava vida aos mortos" era chamada de "Senhora das Serpentes". Na Índia a Deusa Kadru era a "Mãe Serpente" que gerou os Nagas, seres meio-serpentes, meio-humanos, muito sábios. Ananta,"O infinito", a Senhora do Fogo criador e da força feminina, também era uma Mãe-Serpente, protetora do ovo universal, enquanto Kundalini, a serpente ígnea feminina representava o poder vital encolhido na base da coluna e ativado por práticas tântricas para a iluminação. Os Serafins eram originariamente espíritos serpentiformes representando as chamas do fogo divino e que foram transformados depois em anjos. A serpente atua como um elo simbólico entre a Europa neolítica e Creta, os ancestrais dos minoanos chegaram a Creta trazendo totens como a serpente, pomba, chifres de touro e a machadinha de duas lâminas (labrys), imagens que foram também encontradas na Turquia e nos Balcãs, assim como nos vasos cretenses decorados com serpentes. Os mais belos exemplares de Creta são as estatuetas de deusas com serpentes originárias do palácio de Knossos, de 7000 a.C. A onipotência da Deusa é expressa pela tiara tríplice coroada por serpentes, seu corpete expõe os seios fartos mostrando sua qualidade nutridora, o avental tem desenhos ondulantes, os olhos grandes e fixos sugerem um estado hipnótico. Três serpentes cercam uma das figuras, duas entrelaçam sua cintura, sobem até as orelhas e se enroscam na tiara, a terceira sobe por um braço, atravessa os ombros e desce no outro braço. Outra estátua grande do porto de Knossos representa a "Mãe Serpente" com tiara tríplice, segurando uma serpente nas mãos, que sobe até a testa e olha para ela com um ar de devoção. No altar da Deusa Eileithia, regente dos partos, foi encontrada uma Deusa Serpente junto com vasos com formas femininas, cujas alças são formadas por serpentes. A famosa pedra Omphalos, de Delfos, considerada o "umbigo do mundo", tinha uma forma cônica - esculpida de um meteorito - representando o ventre da Mãe Terra e ao seu redor estava enrolada uma serpente, simbolizando o poder profético. Comprova-se assim o antigo culto de Gaia em uma gruta, a entrada para o Mundo Subterrâneo e dos mortos, cujo guardião era a serpente Python, que conhecia todos os segredos e transmitia-os apenas às sacerdotisas oraculares.

Pythia, a sacerdotisa oracular, entrava em transe inalando vapores emitidos por uma fonte sulfurosa e, com uma serpente enrolada no seu pescoço, transmitia as profecias “ouvidas” no som da água corrente. O culto de Gaia foi usurpado depois pelo deus Apolo, que matou a serpente Python, gesto que representou a destruição das forças matrifocais e do culto geocêntrico pelo novo poder solar e patriarcal. Mas a serpente, assim como a Pythia, sobreviveram durante séculos às tentativas dos sacerdotes de Apolo para erradicar o antigo culto oracular e a sacralidade feminina do templo de Delfos. Resquícios das Deusas Serpentes se encontram em vários mitos e imagens das deusas gregas como Athena (cujo templo tinha uma serpente viva e no seu manto apareciam várias serpentes), as Gorgonas e a Medusa (cujos cabelos formados por serpentes representavam seus poderes de vida e morte), Deméter e Hécate, cercadas por serpentes como símbolos do Mundo Subterrâneo. Em muitas outras culturas como a celta, escandinava, hindu, japonesa, chinesa, mexicana, hebraica e nas tradições nativas americanas e australianas, a serpente faz parte da mitologia, aparecendo também na arte e na literatura como um símbolo sagrado, transformador e renovador.
A serpente reaparece no Antigo Testamento, sendo um dos mais temidos e combatidos símbolos pelos cristãos, empenhados em suprimir os vestígios da Tradição da Deusa e a diminuição da importância da mulher e do seu poder sagrado. A serpente do Gênesis enrolada ao redor da Árvore da Vida relembra antigos mitos da Mesopotâmia, Egito, Grécia, em que a serpente era a manifestação da Deusa porém a serpente não mais era vista como guardiã da Árvore da Vida e do conhecimento - como nas antigas religiões -, mas um poder negativo e destrutivo, que provocou a expulsão do paraíso. Ela sobreviveu no caduceu, cujo eixo representa o Pilar Cósmico e, as serpentes, os poderes de vida, cura e morte. No Gênesis não existe a Deusa, apenas uma mulher mortal com o mesmo nome divino de Eva, "A Mãe de todos os seres vivos"; a serpente aparece como a instigadora da desgraça e não mais promotora da sabedoria e do renascimento. A associação entre a Eva e serpente foi feita de forma pejorativa, acrescentando também a figura do diabo; em pinturas medievais Satã aparece como uma serpente, com o rosto de Eva, "tentando" Adão. A serpente passou a ser considerada um poderoso elo entre mal, pecado e sexualidade, Eva sendo uma criação de Satã ou sua emissária no mundo, usando a astúcia e maldade da serpente. É possível que o mito do Jardim de Éden tenha sido inspirado na antiga imagem da Deusa de Canãa, representada como a Árvore da Vida, entregando a maçã da sabedoria para o primeiro ser humano, enquanto a serpente está enroscada nos galhos da árvore. Em uma antiga imagem sumeriana da Idade de Bronze a Deusa e Seu Consorte estão sentados na frente de uma árvore frutífera, com a serpente enrolada nela. Ambos estendem suas mãos para obter os dons da imortalidade e iluminação, representando assim a união dos opostos –vida e morte - e a regeneração. A Árvore da Vida tinha sido associada com a serpente mil anos antes do Gênesis, a árvore unindo o céu e a terra e conciliando os opostos, a serpente sendo o espírito que a animava, guardiã e símbolo dos processos alternantes de vida e morte. A tualmente a serpente serve como metáfora para a maneira imprevisível e enigmática em que as nossas vidas mudam, se entrelaçam, serpenteiam e se renovam. Também é conhecida sua utilização simbólica e mágica em rituais de transmutação dos "venenos" psíquicos, emocionais e energéticos, liberando as energias prejudiciais para a evolução espiritual e transmutando-as em ferramentas de poder, sabedoria e evolução.

Teia de Theia - Jornal Online Deusa Viva

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A SERPENTE SAGRADA À TERRA MÃE



Como acompanhantes de todas as grandes deusas, encontramos os animais, que se postavam ao lado da Grande Mãe de forma tão proeminente que são tidos como sua epifania: a simples presença do animal evoca a presença da Deusa.

Estes animais, longe de serem totens ou divindades individuais de crenças politeísticas, corporificam a própria divindade, definindo sua personalidade e exemplificando seu poder.

Por seu movimento e renovação cíclica, a serpente foi o animal mais freqüentemente associado com o fluir do sangue menstrual. Pelo hábito de recolher-se nas reentrâncias da terra para hibernar, bem como se desfazer anualmente de sua pele, como um recém-nascido se desfaz da placenta, a serpente é considerada símbolo de continuidade da vida e da conexão com o mundo profundo.

Um símbolo universal altamente complexo, encontramos a serpente na origem de muitas mitologias. Como emblema das divindades auto-criadas, representa a fonte de todas as potencialidade, tanto materiais quanto espirituais. E neste sentido também representa a primordial natureza instintiva humana, a força de vida potencial e animadora que surge das profundezas do ser.

Como uma das muitas epifanias da Deusa, quer represente o Sol ou a Lua, a vida ou a morte, a sabedoria ou a paixão cega, o reino espiritual ou o reino físico, nos relatos cosmogônicos este animal primordial e misterioso habita o oceano primordial, do qual tudo emerge, ao qual tudo retorna.

Como uroboros, a serpente que morde seu rabo, simboliza o caráter cíclico de todo ser, o fim que se une ao começo. Neste sentido, ainda faz parte de uma visão integrada da vida humana. Sua associação com vida, fertilidade, rejuvenescimento e regeneração faz dela um símbolo de imortalidade, razão pela qual é sempre encontrada junto à Árvore da Vida, possibilitando o acesso a ela.

Nas diferentes partes da África, a força primordial da criação é concebida como a "serpente cósmica", uma das criaturas mais amplamente encontradas nas diversas mitologias. No começo, o poder serpentino se enrolou em torno da terra disforme, mantendo-a coesa, e ainda tem essa função. Ela se move constantemente, seu fluxo espiral pondo os corpos celestes em movimento. Seu poder criativo está intimamente associado com às águas e o arco-íris.

Na cosmologia andina, as serpentes representam o mundo profundo (ukupacha). Entre os incas do Peru, todas as coisas retornam ao útero da Mãe Terra para serem transformadas. Entre os astecas, a mãe das divindades era Coatlicue, que dá a vida e a toma na morte. Nos mais antigos dias dos povos do México, a mãe Coatlicue escondia-se no nebuloso topo da montanha no país de Aztlan, enquanto seus servos-serpente viviam dentro das cavernas da montanha. Desta casa secreta ela deu nascimento à luz, ao sol e a todas as estrelas no céu

Representando bem mais do que fertilidade sexual, as serpentes hibernam no inverno e reaparecem na primavera. Por isso, eram consideradas pelos egípcios como a vida da terra. Nos livros dos mortos egípcios, é dito que ela oscila entre amar e odiar os deuses. Por este seu aspecto duplo, era usada para representar poderes sagrados benéficos e hostis. Quando benéfica, estava protetoramente ereta, como na fronte dos faraós. Quando hostil, era a serpente Apófis, que diariamente ameaçava o sol em sua trajetória noturna.

As divindades-cobra eram sempre femininas. De registros do antigo Egito, sabemos que a imagem da cobra era o sinal hieroglífico para a palavra "Deusa" e que a cobra era conhecida como "o Olho", uzait, um símbolo de insight místico e sabedoria.

Na tradição aborígine australiana, o poder do sangue menstrual é designado e identificado mitologicamente como uma grande serpente. Esta força semelhante ao arco-íris, de cor vermelho-sangue, é entendida como característicamente maternal.

Na mitologia da terra de Arnhem, no centro-norte da Austrália, "tornar-se um arco-íris" é um encanto menstrual. A serpente representa, simbolicamente, o poder criador universal manifestado pelo sangrar da mulher. Descrita como amante da água, detectora de odores, envolvendo as mulheres e, acima de tudo, amante de sangue, a serpente "não é outra coisa que o poder simbólico da ‘inundação’ ou do ‘fluxo’ das mulheres".


ENCONTRADO EM JANELA DA ALMA
(Texto extraído do livro Rubra Força – Fluxos do poder feminino – de Monika von Koss)

http://clafilhasdalua.blogspot.com/2008/11/serpente-csmica.html

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A ÁRVORE SAGRADA DE ASERÁ

E A SERPENTE DA GRANDE DEUSA

Os antigos rituais sexuais (que atualmente são erroneamente considerados como simples cultos à prostituição) associados à adoração de Aserá, asseguravam a continuação dos padrões de descendência matrilinear, com sua sociedade afastada dos valores do dominador
Os ícones dedicados a Aserá mostram pinturas de uma "árvore sagrada". Entre outros títulos, Asera era conhecida como "A Deusa da Árvore da Vida", "A Divina Dama do Éden" e "A Senhora da Serpente". Aserá era representada, as vezes, como uma mulher que carregava uma ou mais serpentes nas mãos. Era a serpente de Aserá quem aconselhou Eva para desobedecer a ordem de deus de não comer da árvore sagrada. Rituais sempre eram realizados em frente à uma árvore que representava a Deusa. Era a árvore do bem e do mal, a árvore do conhecimento, a árvore da vida, enfim, a árvore Huluppu.
Esse ritual realizado em torno da árvore, chegou aos nossos dias e hoje nós a conhecemos como a Árvore de Natal.
(
Deusa Aserá)


A evidência mais surpreendente do poder duradouro da serpente, contudo, chega-nos com a história da expulsão de Adão e Eva do paraíso. É a serpente quem aconselha a mulher a desobedecer a Jeová e alimentar-se da árvore da sabedoria, conselho que desde então é considerado responsável pela condenação da humanidade à punição eterna.

Há muitas tentativas dos teólogos para interpretar a expulsão do paraíso de forma que não "explica" o barbarismo, a crueldade e a insensibilidade como resultados inevitáveis do "pecado original".

De fato, a reinterpretação desse que é o mais famoso mito de todas as religiões com simbolismo novo e humanista combina integralmente com a transformação ideológica que deverá acompanhar a mudança social, econômica e tecnológica de um sistema dominador para um sistema de parceria. Mas é também essencial compreendermos claramente o significado social e ideológico dessa importante história, em termos de seu contexto histórico. Na verdade, só sob tal perspectiva histórica faz sentido o fato de Eva aconselhar-se com a serpente.
Não é nada casual o fato de a serpente, antigo símbolo profético ou oracular da Deusa, aconselhar Eva, o protótipo da mulher, a desobedecer às ordens de um deus masculino.
Tampouco é casualidade Eva seguir o conselho da serpente, desrespeitando as ordens de Jeová e comendo da sagrada árvore da sabedoria.

À semelhança da árvore da vida, a árvore da sabedoria também era um símbolo associado à Deusa na mitologia primitiva. Além do mais, sob a antiga realidade mítica e social (como ainda era o caso da Pitonisa da Grécia e depois de Sibila em Roma) uma mulher, como sacerdotisa, era o veículo da sabedoria e revelação divinas. Segundo a perspectiva da realidade anterior, as ordens desse poderoso e arrogante Deus Jeová para que Eva não comesse da árvore sagrada (fosse da sabedoria, do conhecimento divino ou da vida) teriam sido não só artificiais como sacrílegas. Bosques de árvore sagradas eram parte integral da antiga religião, assim como os ritos destinados a induzir nos adoradores uma consciência receptiva à revelação das verdades divinas ou místicas — ritos estes em que as mulheres exerciam as funções de sacerdotisas da Deusa.
Assim, em termos da realidade antiga, Jeová não tinha o direito de dar tais ordens.

Mas, já tendo sido elas dadas, não se poderia esperar que Eva ou a serpente obedecessem, como representantes da Deusa.

O "pecado" de Eva ao desafiar Jeová e lançar-se na fonte da sabedoria foi essencialmente sua recusa em abdicar desse culto
. E, como Eva — simbolicamente a primeira mulher — agarrouse à antiga fé com mais tenacidade do que Adão, o qual se limitou a seguir sua liderança, as punições de Eva seriam mais terríveis. Dali em diante, ela teria de se submeter a tudo. Não só seu infortúnio mas também a concepção — o número de filhos que deveria criar — seriam grandemente multiplicados. Para toda a eternidade, ela passaria a ser dominada por esse Deus vingativo e seu representante terrestre, o homem. Além disso, a difamação da serpente e a associação da mulher ao mal representaram formas de desacreditar a Deusa. De fato, o exemplo mais revelador de como a Bíblia serviu para estabelecer e manter uma realidade de dominação, hierarquia e guerra masculinas não está na forma como ela lidou com a serpente. Ainda mais revelador — e, extraordinário — foi o modo como os homens que escreveram a Bíblia lidaram com a própria Deusa
.

PATRIARCADO E MATRIARCADO

A continuação de dois sistemas — um modelo dominador sobreposto ao antigo modelo de parceria — implicava enorme risco de que o antigo sistema, com todo o seu apelo ao povo sedento de paz e liberdade em relação à opressão, pudesse recobrar sua força. O antigo sistema socioeconômico, no qual os líderes dos clãs matrilineares mantinham a terra como propriedade do povo, tomava-se assim uma constante ameaça.
Para consolidar o poder das novas elites dominantes, essas mulheres precisariam ser despidas de seu poder de decisão. Ao mesmo tempo, as sacerdotisas teriam que ser despojadas da autoridade espiritual. E o sistema patrilinear deveria substituir o matrilinear mesmo entre os povos conquistados — o que de fato ocorreu na Europa antiga, em Anatólia, na Mesopotâmia e em Canaã, onde as mulheres cada vez mais passaram a ser consideradas instrumentos de produção e reprodução controlados pelos homens, em vez de membros independentes e líderes da comunidade. Mas as mulheres não foram só demovidas de suas antigas posições de responsabilidade e poder. De forma igualmente crítica, com os novos progressos tecnológicos, foram usadas na consolidação e manutenção de um sistema socioeconômico baseado na superioridade.

A AUSÊNCIA DA DEUSA

Esta absoluta negação do feminino — conseqüentemente, da mulher —partilhando a
divindade é extraordinária à luz do fato de grande parte da mitologia hebraica ter sido retirada dos antigos mitos da Mesopotâmia e Canaã. Ainda mais notáveis, diante de indícios arqueológicos, são as evidências de que o povo de Canaã, muito após as invasões hebraicas, e incluindo os próprios hebreus, continuou a cultuar a Deusa.

Como escreve o historiador bíblico Raphael Patai em seu livro A Deusa Hebraica, achados arqueológicos não deixam "dúvida de que até o fim da monarquia hebraica o culto a antigos mitos de Canaã constituiu parte integral da religião dos hebreus". Além do mais, "a adoração à Deusa representava nessa religião popular papel bem mais importante do que o dos deuses".7 Por exemplo, no outeiro de Tell Beit Mirsim (cidade bíblica de Devir, a sudoeste da atual Hebron), os objetos religiosos mais comuns encontrados em níveis posteriores do bronze (vinte e um a trinta séculos a.C.) eram as chamadas estatuetas ou placas de Astarte. Mesmo após a invasão hebraica de cerca de 1300-1200 a.C., como observa Patai, "evidências arqueológicas não deixam dúvida de que estas estatuetas eram muito populares entre os hebreus".
Naturalmente, há algumas alusões a esse fato na própria Bíblia. Os profetas Esdras, Oséias, Neemias e Jeremias reclamavam com freqüência contra a "abominável" adoração a outros deuses. Mostravam-se particularmente indignados com aqueles que ainda cultuavam a "Rainha dos Céus". E sua ira lançava-se sobretudo contra "a deslealdade das filhas de Jerusalém", as quais compreensivelmente "reincidiam" nas crenças em que toda autoridade temporal e espiritual não era monopólio dos homens. Mas, afora essas passagens ocasionais, e sempre pejorativas, não há vestígios da existência — ou possibilidade de existência — de uma deidade não-masculina.
Fosse como deus do trovão, da montanha ou da guerra, ou posteriormente como o deus mais civilizado dos profetas, há um só deus: o "ciumento" e inescrutável Jeová, que na mitologia cristã posterior envia seu único filho divino, Jesus Cristo, para morrer, assim expiando os "pecados" de seus filhos humanos. Embora a palavra hebraica Elohim tenha raízes femininas e masculinas (por acaso explicando como na primeira história da criação no Gênese tanto a mulher quanto o homem puderam ser criados à imagem de Elohim), todas as outras denominações da deidade, tais como Rei, Senhor, Pai e Pastor, são especificamente masculinas.
Se fizermos uma leitura da Bíblia como literatura social normativa, veremos que a ausência da Deusa é a mais importante evidência sobre o tipo de ordem social que os homens que escreveram e reescreveram ao longo de muitos séculos este documento religioso lutaram para estabelecer e preservar.

Simbolicamente, a ausência da Deusa nas Escrituras Sagradas oficialmente sancionadas representava a ausência de um poder divino que protegesse as mulheres e vingasse os erros que lhes fossem infligidos pelos homens.

Enxertos de O CÁLICE E A ESPADA - Riane Eisler

NOTA:

É no entanto, é interessante lembrar que o significado do nome "Eva" é "MÃE DE TODOS", e Adão significa "FILHO DA TERRA" - e isso já é suficiente para estabelecer sua antigüidade em relação à própria Bíblia. Certamente trata-se de um mito passado de geração em geração, via oral (como de hábito naqueles povos), que falava de uma GRANDE MÃE e de seu Filho. Mito este que foi modificado e adaptado PELO PATRIARCADO para a BÍBLIA na pretensão de desacreditar o culto á Deusa-Mãe e justificar a dominação das mulheres por parte dos homens sendo que na Bíblia a primeira mulher não foi feita igual ao homem mas feita apartir dele, enquando que no mito original falava de como o homens e mulheres nasciam do ventre da Grande Mãe de Todos.

Mais do que nunca, com um mundo a beira do caos e da destruição se a Mulher não unir sua sexualidade com sua espiritualidade e se libertar dessa cisão interior (a Prostituta cheia de "luxúria" e a Virgem "santíssima") e não assumir o poder da Deusa e sua responsabilidade social como governante, política e Mulher consciente sem imitar os padrões "masculinos" de dominação, não assumir sua Força Sagrada de Sacerdotisa da Deusa, sua Fonte Interior, não avançaremos um só passo sequer em rumo a uma sociedade de parceria e/ou a uma Nova Era (verdadeiramente nova)
Este ano sob a energia da Imperatriz e sob o selo da manifestação da Grande Mãe, a Mulher precisa , mais uma vez, dar seu corpo e sua alma a Deusa assumindo todo o seu potencial interior, conscientizando e mudando o Mundo os valores da sociedade. Deixemos que a Deusa renasça mude o Mundo e torne realidade todos os nossos sonhos.


Gaia Lil

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

TIAMAT, A MÃE DAS ÁGUAS E SEU CONSORTE, O PAI DA SABEDORIA


MÃE SERPENTE PRIMORDIAL


TIAMAT


Senhora das Águas Primordiais da Vida
Rainhas dos Mares e Fluxos Menstruais
Deusa Mãe dos Animais e dos Deus Imortais
Útero de Toda a existência
Grande Mãe Cobra!
Rainha Naja!
Senhora da Lua Negra
Doadora da Vida e Rainha do Caos
Nesta Noite de Lua Cheia
Clamamos tua bênção
Sobre nossos corpos mortais
e sobre nossas almas eternas
Mãe Terra,Senhora da Colheita Sagrada
Rainha das Almas
Senhora das Trevas Subterrâneas
Pedimos que nos guie em direção
A Alma da Grande Mulher
A Grande Natureza
Que conserva e nutre no seu Útero Luminoso
Mãe de Todas as Estrelas
Senhora do Amanhecer, Mãe do Sol
E da madrugada
Senhora do Crescente Fertil
Grande Tiamat!
Rio do Sangue Sagrado
Abençoe as Tuas Filhas
E os Teus Filhos
O Mãe do Pai Celeste
Grande Apsu
Senhor dos Rios e da Sabedoria.

Que Assim Seja
E Assim se faça
(Gaia Lil)

A Deusa babilônia Tiamat é conhecida por ser o oceano primordial de onde toda a vida surgiu. Não apenas a vida na Terra, mas a própria Terra e o Universo inteiro. Este oceano simbolizava um estado no qual não havia nada, mas ao mesmo tempo possuía todas as coisas em potencial. Ele era sentido como uma imagem espiritual de poder criativo que também se manifestava na Terra como seus grandes oceanos. Tiamat é a governante das marés, internas e externas. Ela não representa apenas o princípio dos ritmos da natureza, ela também ordena o destino. Por isso, os fluxos e refluxos da Sorte estão em suas mãos.

Infelizmente, a única versão de seu mito que nos foi legada é a versão patriarcal, conforme contada no Épico da Criação do Enuma Elish. Mas se olharmos essa versão com atenção poderemos perceber que a história poderia ser uma metáfora para a história da raça humana.
Tiamat, a Deusa do Oceano e seu filho e consorte Apsu, Deus das águas intercontinentais foram a primeira mãe e o primeiro pai de toda a vida. Eles criaram o Universo e uma raça de Deuses menores.

Os Deuses menores perturbavam a paz eterna de Tiamat e Apsu e por isso, Apsu sugeriu destruí-los. Com medo do pai, os Deuses se reuniram e escolheram um campeão para matá-lo. A dor de Tiamat foi imensa e ela por fim, decidiu combater os Deuses jovens. Ela criou uma raça de monstros para combater seus filhos, mas acabou sendo derrotada por Marduk. Uma vez que eles não podiam destruí-la, os Deuses cortaram seu corpo em duas partes, usando uma metade para formar o céu e outra para formar a terra.

Em um nível, essa é a história da dominação de uma cultura mais antiga, matriarcal e adoradora da Deusa por uma cultura patriarcal. Mas por trás desta história política de disputa de poder entre homens e mulheres jaz outra história sobre os ciclos da criação.

Tiamat, como a Mãe da Vida, criou todos os seres, junto com seu consorte Apsu, o Pai de tudo. Ela começou assim, o processo do destino. Seu consorte estava de acordo com ela e a harmonia e a paz que eles desfrutavam eram infinitas e eternas. Juntos, eles eram a Fonte de Toda a Vida. Mas seus filhos (que aqui representam a raça humana) foram se distanciando da sabedoria original, deixando de ver a terra como sagrada, envolvendo-se em conflitos, deixando-se levar pela ganância. Por isso, eles se tornaram barulhentos, causando dor à Mãe e ao Pai.

O Pai de tudo, prevendo problemas, começou a ter dúvidas. As crianças haviam deixado a paz verdadeira da espiritualidade (a paz do ventre da Mãe) e se entregaram a processos de vida violentos e caóticos. Havia sofrimento, conflito e competição. Isto perturbava Apsu. As crianças finalmente se voltaram contra seus próprios criadores e mataram o pai. Em outras palavras, o harmonioso Apsu, Guardião da Lei Divina, que era um com a Mãe, foi destruído por uma nova forma de energia masculina, beligerante e violenta. O masculino e o feminino entraram em conflito.

A FÚRIA DA MÃE

Uma vez que assassinamos nosso conceito de Leis da Natureza (Apsu) e voltamos nossas costas para o amor (a Deusa Mãe Tiamat) somos obrigados a lidar com a fúria do destino – a perturbação da Mãe Natureza (A decisão de Tiamat de combater seus filhos).

Tiamat tentou derrotar as forças beligerantes do patriarcado e talvez isso tenha limitado o poder dessas forças. Como o final do mito nos conta, eles não puderam destruí-la. Colocando de outra forma, o Princípio Feminino do Universo lutou para barrar um poder masculino desequilibrado, uma vez que o verdadeiro e eterno masculino havia sido destruído. O sacrifício deste masculino original, que era um com o feminino e o apoiava, lançou a humanidade em um ciclo de conflitos, guerras, violência e dor. E será assim até que um novo ciclo do tempo traga o renascimento do verdadeiro masculino (um princípio de harmonia e respeito às leis naturais).

Mas para que a Grande Mãe Tiamat possa novamente dar à luz a Apsu, seu próprio corpo dividido deves ser reunido. No mundo humano, podemos ver essa partição do feminino na forma pela qual o patriarcado (em suas 3 religiões dominantes) vê as mulheres. De um lado uma prostituta terrena, o corpo “imundo” e pornográfico da mulher sexual, cheio(segundo os sacerdotes dessas religiões alegam) de luxúria carnal. De outro um ser espiritual assexuado sem auto-afirmação ou sensualidade. Uma bela e obediente virgem que mal tem um corpo e depois se torna (sem nenhum contato carnal) uma figura materna de auto-sacríficio.

O que podemos fazer sobre isso começa então dentro de nós mesmos, com nossas decisões pessoais e individuais. Se nós rejeitarmos a assim chamada separação entre nossa espiritualidade e nossos corpos (em particular, a sexualidade de nossos corpos) e celebrarmos o corpo físico pelo que ele é, uma manifestação dos princípios Divinos, podemos começar a reunir o corpo partido de Tiamat. Isso significa reclamar nossa sexualidade como sagrada e de uma beleza vibrante, quer a expressemos com um parceiro, parceira ou sozinhos. Este é o princípio por trás da nudez ritual, estar nu não em vergonha ou temor, mas em orgulho, ao viver sua espiritualidade. Este é o rito de Tiamat.


Alguns estudiosos acreditam que a guerra descrita no Enuma Elish pode ter sido baseada em batalhas físicas reais pela supremacia entre os povos adoradores da Deusa do sul da Suméria e a civilização patriarcal em expansão, vinda do norte.

Antes que possamos virar a maré contra o patriarcado, devemos olhar além da violência para nos reunirmos, corpo e espírito em um só. Devemos primeiro curar a velha ferida da dualidade corpo/espírito que internalizamos dentro de nós. Então, nosso mundo, também poderá ser um só.

Os babilônios patriarcais celebravam a destruição do “Monstro Marinho” Tiamat por Marduk a cada ano. Ela foi associada então a qualidades “sombrias” – violência caótica, feiúra e malícia. De seu desmembramento um novo mundo foi criado, um mundo de autoritarismo e hierarquia, exploração e sofrimento, opressão dos pobres e o denegrir das mulheres e rebaixamento de seu status em termos espirituais e políticos. Uma humanidade em desarmonia consigo mesma e conseqüentemente, com todos os demais seres vivos. É um mundo que nos parece horrivelmente familiar – pois é o mundo em que vivemos.


ADAPTADO DE Naelyan Wyvern , Sacerdotisa da Grande Mãe na Tradição Caminhos das Sombras

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

AS MULHERES PRECISAM DA DEUSA


AS MULHERES E A DEUSA

Na busca da Deusa as mulheres encontram a si mesmas. Conhecendo as antigas tradições matrifocais elas despertam o arquétipo da Grande Mãe guardado no inconsciente.

Durante milênios a Grande Mãe e suas manifestações arquétipicas como deusas ocuparam em várias culturas o centro da vida humana. Suas representações honravam e celebravam a fertilidade, a dança da vida e da morte, os ciclos da lua, as energias e os seres da natureza.

Por que as mulheres precisam da Deusa:

1. Sentem-se desnutridas espiritualmente, tendo sido alimentadas nos últimos 4000 anos somente por imagens e valores do divino masculino.

2. Precisam de imagens que reconheçam e honrem a complexidade, riqueza, beleza, poder gerador e nutridor da sagrada energia feminina, a conexão com os ciclos da lua, as energias da terra, e que celebrem os laços de sangue que ligam entre si todas as mulheres.

3. Além das imagens, necessitam também de mitos, histórias, relatos, estudos e experiências que afirmem qualidades femininas de coragem, força, criatividade, visão, paixão, cura, sabedoria, parceria, reavaliando e corrigindo a história antes escrita apenas por homens.

Mirella Faur

http://www.teiadethea.org/?q=node/102


AMARGI


Esses são apenas alguns dos motivos pelos quais as mulheres precisam resgatar o Feminino Sagrado, não apenas para devolver lhes a alma (esta que foi sufocada e oprimida pelo patriarcado) como também reconhecer suas outras polaridades e forças que vão para muito além da santa e da prostituta, ou da mulher casada e da solteira...Reconhecer a força da Grande Mãe existente no seu corpo, seu poder não apenas de gerar a vida mas como de abençoar com a morte , que no fim é apenas um novo começo e um salto para uma nova existência e revelação. A Deusa volta com sua força total não apenas como uma Mãe bondosa mas também como Senhora do Caos e das águas, a Mãe Serpente telúrica, que como a Terra estéril e seca guarda em seu interior os segredos de deis de antes do inicio dos Tempos.
Como disse uma sacerdotisa uma vez, aquela que nunca nasceu nunca poderá morrer , voltando sempre e sempre com a sua mensagem de esperança e renovação, com sua mensagem de aceitação da vida corpórea e da Alma da Mulher Terra, a Grande Mãe que vive deis do mais profundo magma no centro da Terra, como na mais longincoa parte do cosmos, sendo Éter e Matéria ao mesmo tempo, em todo lugar Criadora e Criatura ao mesmo tempo.
Urge o resgate daquela antiga mulher que em Creta deis dos tempos antigos levanta o labrys (machado-duplo ritual da Deusa Mãe em forma de borboleta) acima da cabeça em direção ao altar em gesto de bênção, urge a volta daquele homem, o filho da Deusa Terra, seu consorte e amante, filho da Deusa da Criação.Urge a volto desse homem pacifico que adorava a Terra junto com a mulher nos tempos antigos.
Urge em fim uma nova consciência da Divindade Primordial, que ao invés de ser um pai distante e transcendente lá no céu, seja uma Mãe que impregna toda a Criação.
Urge a liberdade para amar o ser amado independente de seu corpo.

Gaia Lil
Nota:
Amargi possui duplo significado em sumérico "liberdade", e "retorno a Mãe"...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

SACERDOTISA DA MÃE SERPENTE



As longas jornadas, em um denso vale obscuro, me guiavam para o preciso obstáculo de minhas caminhadas.
Seguindo o chamado da Deusa, curvava-me para desvencilhar as pequenas fendas dos mágicos caminhos da escuridão. Os pensamentos pairavam entre minhas entranhas assim como o frio assombrava o revestimento de meu ser.
Lembranças de vidas passadas inundavam minha memória, imersa em profundas reflexões sobre os desejos da Grande Mãe Serpente.
Dançando os ritos sagrados em meus pés desnudos, traçava as tranças divinas no solo de escamas antigas.
Minha voz ressoava em ecos aos mundos, melodias gritavam de meu corpo, transmutando em energias sonoras, as abençoadas vibrações pagãs.
A fogueira iluminava a profunda noite, a Rainha Naja dançava a fertilidade e seu espírito serpenteava a sensualidade de germinar a Terra.
As brasas estalavam o brilhar dourado de uma nova jornada de viver.
Escrituras cravadas no chão proliferavam as filhas da Deusa, sementes plantadas na genital da Grande Mãe Terra.

Os pandeiros conduziam os chocalhos em um frenesi sagrado; os ventres veneravam a colheita em espirais e intenções de reverências aos Imortais.
O rubro coloria as vestes e os presentes, em um círculo rastejante ao solo virginal. As dengosas serpentes enroscavam-se nos braços sacerdotais em eternas circulares, contemplando a imunidade dos venenosos e as seivas da Grande Mãe Natureza.
Ao redor da celebração da fecundação escamosa, reuniam as mais veneradas ervas em caldeirões ferventes e em poções ardentes.
A terra era cultivada, os pedidos recebidos, as oferendas realizadas e a Sagrada Serpente reverenciada em sua espiral; que não parava de girar e girar nas diversas encarnações de seu ventre de fertilidade eterna.

Autoria: Morgan le Fay
IN: http://www.circulosagrado.com/cs/leitura/colunas/morgan_deusa.php

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

TODO PODER DA MÃE SERPENTE


A serpente é símbolo da sabedoria em diversas tradições, inclusive no Evangelho (Mt.10,16), a responsável pelo despertar de uma nova consciência. Não foi à toa que a serpente procurou primeiro a mulher, mais dada a intuições. Somente a intuição pode romper com as normas estabelecidas e inaugurar novas abordagens da realidade. É ela que permite grandes saltos no tratamento de questões complexas; ao contrário da abordagem racional, passo a passo, mais própria do homem. A serpente, sábia que era, procurou Eva (a intuição) e não Adão (a razão) para alcançar seu objetivo.(http://www.espirito.org.br/portal/artigos/fguedes/a-serpente.html)


Tiamat é uma Deusa das mitologia babilônica e sumérica. Na maioria das vezes Tiamat é descrita como uma Serpente do Mar ou um Dragão mas nenhum texto foi encontrado nos quais contenham uma associação clara com essas criaturas.No entanto tal ligação nos revela que Tiamat era uma Deusa poderosa que detinha o poder das Tabuletas do Destino, sabendo e profetizando o destino de todos os seres-imortais e mortais.


E a Serpente símbolo da Grande –Mãe e do poder da Mulher, regeneradora e mutante, Melusine au l’Androgyne, “estava em contacto com os mistérios da terra, das águas, da escuridão – auto- suficiente, insensível, reservada, às vezes venenosa, capaz de deslizar sem deixar rasto, magicamente engolindo grandes criaturas e rejuvenescendo-se pela mudança da pele.”J.M
(...)
Consequentemente, a serpente tornou-se o maior símbolo animista e esotérico mas por ouro lado posteriormente ou paralelamente tornou-se para a Igreja católica simplesmente símbolo do pecado e da mulher tentadora para os seus padres misóginos e castrados ao serviço de um “deus macho” que pôs inimizade entre a mulher e a serpente, antagonizando assim as mulheres ou seja, dividindo-a em duas, usando-as como mera mercadoria, uma para serviço do homem e da familia, cingida ao lar e a outra à prostituição e ao bordel. Compra uma e vende “a outra!” Hoje os mercados são mais latos...
O desequilibrio que se reflete hoje nas sociedades e criou todas as desigualdades começou com essa divisão na mulher; assim a psicologia do homem de hoje é toda baseada no seu poder e na força bruta com o qual a própria mulher compete e luta por ser igual ao homem, sem perceber qual é a sua verdadeira força...o seu poder interior... a da Serpente de Fogo!(http://rosaleonor.blogspot.com/search?q=Serpente)


A Mãe Serpente é uma das manifestações mais antigas da Grande Mãe.Seu significado esta no fato de que seu símbolo( o ouroboros, uma serpente que morde a própria cauda formando um circulo) representa a continuidade da vida e do universo, assim sendo precisamos perder para ganhar, diminuir para crescer morrer para viver, e tal fato ainda esta ligado ao ciclos lunares da Deusa e suas facetas( Donzela , Mãe e Anciã) que representam coragem,amor e sabedoria, sendo a sabedoria o ultimo estagio da evolução da alma feminina. Depois da sabedoria chegamos a plenitude do ser feminino aonde a mulher já vivenciou todos os arquétipos espirituais e sociais(mãe,filha, amante e esposa e trabalhadora) e deve concentrar se em uma única coisa: Ser Mulher.gl

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

TIAMAT,A PRIMEIRA MÃE-TERRA


Senhora da Noite escura
O teu corpo é a bênção sobre a Terra
O teu rio é teu seio com o leite que dá sempre de beber
Tua dança é a fertilidade que se prolonga pelo mundo
O teu rosto e o céu infinito e a terra negra
Tua voz são os grunhidos dos animais selvagens
Suas Flores são teus olhos sempre delicados e macios sobre o mundo
O teu cheiro é da Terra fresca e molhada:fertilizada
Suas costas são os desertos cheios de historias a contar
A tua cabeça é o Sol e a Lua,reluzindo força e sabedoria
O teu símbolo é a serpente que morde a própria cauda,Grande Tiamat
A Senhora da Dança ,da paz e da guerra
Tua luz e serena sobre os montes e vales
O teu calor é a energia que se irradia sobre o mundo
E teu canto e a alma de todo mundo o zumbido que me ecoa a noite
E eu danço a Tua dança do silencio
E eu danço tudo o que faço
Pois sou um instrumento do seu amor,Tiamat
Grande Mãe Dragão que com seu rugido faz desmoronar os medos do mundo
Que com seu rugido liberta a alma das feiticeiras
Eu danço a tua Dança
Eu sou o Teu Eu.




Gaia Lil


O reino da Babilônia se desenvolveu ao sul da Mesopotâmia durante 2200 até 538 a. C., quando os persas conquistaram a cidade. Os babilônios eram os herdeiros do grande legado cultural dos antigos sumérios.

Para os babilônios como para o sumérios, o rei obtinha sua autoridade diretamente dos Deuses. Por exemplo, o rei Hammurabi afirmava que havia recebido as leis de seu Código diretamente da mão do Deus Sol Shamash. Os reis eram tão importantes que, em anos recentes, o agora condenado ditador Saddam Hussein (nascido em 1937), justificava em parte sua soberania sobre o Iraque atual, comparando-se com o rei Nabucodonosor, que governou desde o ano de 606 até 562 a. C.

A história de Tiamat pode ser encontrada no épico babilônico Enuma Elish, data do século XIX-XVI a. C., que foi cantada ante a estátua de Marduk, Deus principal babilônico, celebrando a fundação do mundo e da própria Babilônia que era o centro do mundo.

Tudo inicia-se com o caos aquático. Apsu a água doce que origina rios e riachos, e Tiamat, o mar ou as águas salgadas (representada na forma de um dragão), combinam seus poderes para criar o universo e os Deuses. Os primeiros dois Deuses chamaram-se: Lachmu e Lachamu. A primeira prole se reproduziu e formou-se outra prole. Esses Deuses irritavam profundamente Apsu que convocou seu auxiliar Mummu e foram juntos a Tiamat, a quem disseram que a descendência de ambos deveria ser eliminada para que regressasse a tranqüilidade. Tiamat, entretanto, enfureceu-se rechaçou a idéia, pois embora estivesse perturbada com os ruídos dos deuses, os perdoava.

As crianças-Deuses acabam descobrindo que Apsu tinha plano de matá-las e enviam o Deus Ea para matá-lo primeiro.



Tiamat não apoiava os planos de Apsu de destruir seus filhos mas, diante da morte de seu esposo, passa a lutar contra eles. A Deusa encontra outro companheiro, Kingu, com quem gera vários monstros: serpentes de garras venenosas, homens-escorpiões, leões-demônios, monstros-tempestade, centauros e dragões voadores. Depois, partiu para a retaliação.

Antes designou Kingu como chefe de seu exército dizendo:

-"Exaltando-te na assembléia dos Deuses, eu te dou o poder para dirigir todos eles. Tu és magnífico e meu único esposo. Que os Anunnaki exaltem teu nome." Entregou-lhe então as Tábuas do Destino.



As crianças-Deuses temiam lutar contra Tiamat até que Marduk, filho de Ea, decidi lutar contra ela. O restante dos deuses rebentos prometeram a Marduk que, em caso de vitória, ele seria coroado como rei dos Deuses.

Marduk teceu uma rede e apanhou Kingu e todos os monstros. Ele os acorrentou e os atirou no Submundo. Partiu então para matar Tiamat. Primeiro Marduk cegou o dragão com seu disco mágico, possivelmente representado pelo próprio sol, pois o Deus era também um herói-solar. Depois feriu mortalmente Tiamat com uma lança, símbolo da vontade criativa e procriação. O herói teve ainda o auxílio dos sete ventos para destruir Tiamat. Com metade do corpo dela ele fez o céu, e com a outra metade a Terra. Tomou sua saliva e formou as nuvens e de seus olhos fez fluir o Tigre e o Eufrates. Finalmente de seus seios criou grandes montanhas.



Os humanos foram criados a partir do sangue de Kingu misturado com terra. Marduk, de posse das Tábuas do Destino, criou em seguida, uma habitação para os Deuses no céu, fixou as estrelas e regulou a duração do ano e fundou a cidade da Babilônia para que fosse sua residência terrestre.

Outros mitos, descrevem o processo de criação como um fluxo contínuo de energias originadas do sangue menstrual de Tiamat, armazenado no Mar Vermelho ou Tiamat, em árabe. Foi essa a razão pela qual, mesmo após a interpretação patriarcal do mito, na qual foi acrescentada a figura de Marduk, que teria matado Tiamat, o Dragão do Caos e criado o mundo com seu corpo, foi mantido na Babilônia, durante muito tempo, o calendário menstrual, celebrando os Abbats e nomeando os meses do ano de acordo com as fases da Lua.



O mistério de Tiamat e de Marduk era comemorado anualmente na Babilônia durante o Ano Novo ou no festival de Akitu.

Pouco resta da magnífica cidade da Babilônia, somente uns quatro bancos de barro às margens do rio Eufrates, sul da atual Bagdá, Iraque. Porém um dia, a cidade da Babilônia foi famosa por seus "jardins suspensos", uma das maravilhas do antigo mundo. No coração da cidade estava o templo de Marduk, a Casa da Fundação do Céu e da Terra.



Como em incontáveis mitos, a origem de toda a vida teria vindo do mar primordial, quer na terra, ou no céu, mas o que existe de comum em todas estas possíveis procedências são as trevas primordiais. São delas que se origina a luz, sob a forma de luz ou estrelas e do dia acompanhado pelo sol. É esse fator comum, a escuridão da noite primordial como símbolo do inconsciente que explica a identidade entre o céu noturno, terra, mundo inferior e água primordial anterior à luz. Com efeito, o inconsciente é a mãe de todas as coisas, e tudo o que surgiu depois e permanece na luz da consciência está em uma relação filial com a escuridão. Designamos como urobórica, essa situação psíquica primordial, que abrange os opostos e, ma qual os elementos masculinos e femininos, os inerentes à consciência e os hostis a ela, confundem-se uns com os outros.



Na Babilônia, a unidade masculino-feminina dos uroboros era constituída por Tiamat e Apsu, que representavam o caos primordial da água. Mas é Tiamat, o verdadeiro elemento de origem, a mãe de todos os deuses, e a possuidora das tábuas do destino.

A existência original de Tiamat também resulta do fato desta ter sobrevivido à morte de Apsu e, quando finalmente derrotada pelo Deus-sol patriarcal Marduk, formam-se a partir de seu corpo a abóbada celeste superior e a abóbada inferior das profundezas. Assim, mesmo depois de ter sido derrotada, ela permanece como o Grande Círculo que tudo contém.



Tiamat, não é apenas o monstro terrível (dragão) do abismo, tal como a via o mundo patriarcal daquele que a venceu, Marduk. Ela é não só geradora, como também a mãe legítima de suas criaturas, que se enfureceu quando Apsu decidiu matar os deuses que eram seus filhos. Somente depois destes terem assassinado Apsu, seu marido, o pai primordial, é que ela dá inicia à sua vingança e propaga a sua força destruidora.

Tiamat representa o poder irracional dos primórdios e do inconsciente criador. Mesmo na morte, ela continuou a representar o mundo superior e o inferior. Marduk, ao contrário, é um legislador. A cada uma das forças celestes ele atribuiu um lugar fixo e, como Deus bíblico do Gênese, organizou o mundo segundo leis racionais que correspondem à consciência e sua natureza solar.



O caráter numinoso da Grande Deusa ainda se manifesta na forma de um Dragão em Tiamat, entretanto, é mais freqüente este deusa primitiva surgir despida e com características sexuais acentuadas quando a ênfase recai em sua fecundidade e em seu caráter sexual.

Taimat não é uma Deusa cruel, mas seus templos eram escondidos, devido a sua impopularidade, provavelmente por causa dos sacrifícios humanos que faziam parte de seus rituais. Isto mudou, em algumas cidades do Império, quando Tiamat passou a ser adorada abertamente e onde, os rituais mais sangrentos eram executados raramente. Tiamat representa todos os cinco elementos chineses: terra, água, fogo, ar e metal.



A DERROTA DA DEUSA

O Enuma Elish é a primeira história da substituição de uma Deusa Mãe por um deus que "fabrica" a criação como algo distinto e separado de si mesmo. Em todos os mitos da Idade do Ferro (que começa em 1250 a.C.) em que um deus do céu ou do sol vence a uma grande serpente ou dragão, podemos encontrar traços desse poema épico babilônico, nele a humanidade foi criada a partir do sangue de um deus sacrificado, e não há útero de uma Deusa primordial. Sua influência pode ser rastreada ao longo da mitologia hitita, assíria, persa, cananeia, hebréia, grega e romana.

Na cultura da Deusa, a concepção da relação entre "criador" e "criação" se expressa na imagem da Mãe, como "zoé", a fonte eterna, dando a luz a seu filho como "bios", a vida eterna criada no tempo, que está viva e que ao morrer regressa à fonte. O filho era a parte que emergia do todo, através da qual o todo podia chegar a conhecer-se a si mesmo. A medida que o deus "cresceu" no transcurso da Idade do Bronze, chegou a ser consorte da Deusa e em algumas ocasiões co-criador com ela. Porém, na Idade do Ferro a imagem da relação representada no matrimônio sagrado desaparece e se perde o equilíbrio entre as imagens feminina e masculina da divindade que derivava da dita cerimônia.

Agora, um deus pai se estabelece em uma posição de supremacia em relação à Deusa Mãe, e se transforma paulatinamente em um deus sem consorte das três religiões patriarcais que hoje em dia conhecemos: o judaísmo, o cristianismo e o islam. O deus é então o único criador principal, quando antes era a Deusa quem havia sido a única fonte da vida. Porém, o deus se converte em fazedor do céu e da terra, enquanto que a Deusa era o céu e a terra. O conceito de "fazer' difere radicalmente do de "ser", no sentido de que o que se faz e quem o faz não compartilham necessariamente da mesma substância; pode conceber-se o que se faz como inferior a quem o faz. No entanto, o que emerge da Mãe é necessariamente parte dela, como ela também é parte do que dela emerge.

Portanto, a identidade essencial entre criador e criação se quebrou e desta separação nasceu um dualismo fundamental, o conhecido dualismo entre espírito e natureza. No mito da Deusa esses dois termos carecem de significado se forem considerados em separado: a natureza é espiritual e o espírito é natural porque o divino é imanente à criação. No mito do deus, a natureza já não é "espiritual" e o espírito já não é "natural", porque o divino transcende da criação. O espírito não é inerente à natureza, mas está além dela e chega inclusive a converter-se em fonte da natureza. Assim, um novo significado se introduz na linguagem: o espírito se torna criativo e a natureza se torna criada. Esse novo tipo de mito da criação é resultado de uma ação divina que estabelece a ordem a partir do caos.

Podemos considerar esses mitos como relatos narrados pela humanidade em distintos momentos de evolução: ambos explorariam, deste ponto de vista, distintos modos de existir no universo. Porém, a atual tradição judeu-cristã, apresenta implicitamente o mito da dualidade de espírito e natureza como "dado", como inerente ao modo de ser das coisas. Aliás, sua origem na história humana se perdeu para a consciência: nas culturas patriarcais em que o deus pai se adorava como criador único não sobreviveu recordação alguma cuja forma possa conhecer-se das imagens anteriores da Deusa Mãe como criadora.

AS MUDANÇAS

O desejo de poder, junto com o medo, sempre presente, a ser atacado, explica em grande parte a necessidade de um deus cada vez mais poderoso, finalmente um deus "supremo", capaz de um unir um povo embaixo de uma causa comum de defesa ou ataque. Porém, como resultado do predomínio do deus pai do céu, apareceu uma idéia de tempo diferente. Esse já não se concedia como cíclico, segundo o modelo lunar da Deusa Mãe, que acolhia de volta os mortos em na escuridão de seu útero. O deus pai não podia acolher os mortos em seu interior, nem devolvê-los à terra para renascerem. Portanto, o tempo tornou linear aos olhos da humanidade: tinham um começo no nascimento e um final na morte. De maneira similar, a própria criação, elevada a uma proporção cósmica, tinha um começo absoluto e teria um final definitivo, que coincidiria com o triunfo final da luz sobre a escuridão, uma afirmação definitiva da vitória original que havia dotado de existência o universo.

Esse modelo de tempo linear é que influenciou o "mito da criação" do século XX, segundo o qual o "big bang" marcou o início da vida e é possível que também está por detrás do temor contemporâneo ante ao "big bang" apocalíptico que marque o final dos tempo.

IN: http://www.rosanevolpatto.trd.br/tiamat.htm

quinta-feira, 14 de maio de 2009

MÃE DA DOR

texto encontrado por acaso na internet,para todas as mulheres serpentes para que elas curem suas feridas



COATLICUE, ARQUÉTIPO DA RENOVAÇÃO




Considerava-se a serpente como tendo o poder de auto-renovação, por causa de sua habilidade de mudar e renovar a sua pele. Este poder foi considerado semelhante ao poder da Lua que se renova todo mês depois de sua morte aparente. O caráter sempre mutante, sempre renovador, tanto da lua quanto da cobra, deu origem às crenças que atribuem o poder de imortalidade ora à lua e ora à serpente. Diferentes mitos primitivos e antigos relatam que o dom da imortalidade foi trazido aos homens ora pela lua e ora por uma serpente. Em alguns mitos a serpente revela aos homens a virtude que está escondida na fruta da Árvore-da-lua ou na bebida "soma", que dela pode ser feita.

A cobra, tal qual a Lua, foi guardada por virgens. Algumas jóias de oflito mostram Cibele, a grande deusa Lua, oferecendo uma xícara a uma cobra sagrada. Em Espiro, no templo de Apolo, uma cobra sagrada era guardada, talvez como remanescência de um culto antigo que os Deuses do Olimpo usurparam. Essa cobra era alimentada por uma virgem que, significativamente, tinha que estar nua enquanto executava o serviço. A grande mãe-terra, Deméter, era guardada em seu templo, em Elêusis, por uma cobra chamada Kychreus e uma união mística com uma cobra que provavelmente formou o ritual central dos mistérios eleusinos da Grande-Mãe. Outro exemplo, Hécate, a deusa da lua escura, era ela própria parcialmente cobra ou tinha cobras no cabelo, como a Medusa, e dizia-se que Istar era coberta de escamas de uma cobra.

Dentre todos os animais do planeta, nenhum afetou tanto a imaginação humana quanto a serpente.

Há mitos e crenças antigas afirmando que as cobras se reuniam com as mulheres, podendo engravidá-las. Pensava-se também, em alguns lugares, que a mordida de uma cobra era responsável pela primeira menstruação de uma menina, e que as mulheres eram particularmente sujeitas a atrair "o amor de uma serpente" quando menstruadas. Por este motivo, as mulheres de algumas tribos não iam ao mato ou a uma fonte quando menstruadas, por medo de ficarem grávidas de uma cobra. Em outros casos, ao contrário, faziam peregrinações com o mesmo propósito a uma fonte onde se dizia viver uma cobra sagrada.

Desde os antigos egípcios até os dias de hoje, a serpente, tem sido parte integrante de muitas religiões e símbolo essencial em muitos cultos. Como podemos perceber, o poder simbólico da serpente afetou as culturas de todos os povos e deixou um rastro indelével nos sonhos da Humanidade.





COATLICUE, DEUSA DA DOR



Coatlicue é a Mãe de todos os deuses. Era também a deusa do sacrifício e adorada como a Mãe Terra, da vida e da Morte. Sua representação geralmente é horrível, pintada como uma mulher estranha, com uma saia de serpentes e ostentando um colar de corações de sacrifícios.

Há diversas lendas sobre sua origem. Esta Deusa, sedenta de sacrifícios, tinha seios flácidos e afiadas garras nos pés e nas mãos. Mixcoatl, a serpente das nuvens era seu marido.

Coatlicue, a Terra, mãe do deus Sol, Huitzilopochtli deu à luz em primeiro lugar a Coyolxauhqui, identificada como a Lua, estando associada com um grupo de 400 deidades-estrelas, conhecidas com o nome de Huitzauna, que se encontravam sob seu controle.

Alguns povos a chamam de Coatlicue (saia de serpente), outros de Cihuacoath (mulher serpente) ou Tonantzin (Nossa Mãe).

Conta-se que um dia Coatlicue encontrou uma bola de plumas com penugem branca na pirâmide onde estava varrendo e, colocando-as sobre o peito, ficou grávida. Quando os outros 400 deuses, seus filhos, descobriram a estranha gravidez, juraram matá-la para impedir que o recém-nascido sobrevivesse. Apenas sua amada filha, Coyolxauhqui, a Deusa da Lua, avisou-a do perigo, mas acabou decapitada pelo Deus do Sol, por esta atitude. Coatlicue, cheia de dor, colocou a cabeça luminosa da filha no céu, onde se converteu na Lua.

A pedra com a representação de Coyolxauhqui foi descoberta nos finais do século XX no centro da cidade do México, aos pés do que foi uma das grandes pirâmides astecas. Huitzilopochtli saiu do ventre de sua mãe completamente armado e a salvou. Foi ele que cortou a cabeça da irmã Coyolxauhqui.





ARQUÉTIPO DA VIDA E DA MORTE



Coatlicue é um arquétipo da Vida e da Morte. Mas, arquétipo da Vida e Morte tem sido mal interpretado por algumas culturas modernas. Entretanto, para outras mais antigas, esta Dama da Morte representava uma pauta essencial da criação, pois é graças a seus amorosos cuidados é que a vida se renova.

Em culturas como as das Índias Orientais e Maias, a Dama da Morte envolve os moribundos, aliviando sua dor e os consolando. Do ponto de vista arquetípico, a natureza Vida/Morte/Vida é um componente básico da natureza instintiva. Mas boa parte deste conhecimento está contaminada pelo nosso temor à morte. Vida e Morte constituem o ser humano. O sentido que damos para a mesma, vai depender da nossa cultura e da sociedade em que nos inserimos.



Para o pensamento pré-hispânico, sempre existiu o princípio fundamental da dualidade. E segundo suas observações cotidianas, estes povos chegaram a conclusão, que para a existência da harmonia da ordem universal, a dualidade Vida-Morte era essencial. A morte segue a vida, assim como da morte surge a vida do mesmo modo que a temporada da chuva e vida seguia as secas e suas conseqüências: a morte. Portanto, o homem deve morrer para que volte a nascer a vida. Daqui se retira a explicação para os sacrifícios humanos.

O Dia dos Mortos é portanto, uma celebração de raízes pré-hispânicas e moralidade cristã. É uma época sagrada que requer que o homem pratique determinados ritos para ativar magicamente as forças sexuais e reprodutivas da natureza. Os mortos ao enterrarem-se entram para uma dimensão terráquea relacionada com a fertilidade e com o mistério do renascimento. A morte, seria semelhante ao enterro da semente que renasce e dá origem a uma nova vida.





Coatlicue chega até nós para nos ajudar a entender a DOR. Ela nos diz que não existe modo ou maneira de fugir dela, nem lugar que possamos nos esconder. O caminho da totalidade está em sentirmos à dor e aprendermos com ela. Você tem medo de enfrentar a dor e passar pelo processo de luto que ela trará? Você é daquelas pessoas que finge que está tudo bem, enquanto que em seu peito sente a pressão da dor? Pois saiba que você não está sozinho nesta, todos nós temos medo da dor e só a enfrentamos quando estamos encurralados e não nos resta mais nenhuma saída. Muitas vezes nos apegamos a uma situação que precisaria ser deixada para trás, com medo da dor que isso nos causaria. Mas saiba que o medo é como um nevoeiro, não nos deixa ver a realidade da vida. Ele descaracteriza e deturpa o aspecto de tudo. Entretanto, quando sabemos o que nos amedronta, retomamos o poder que havíamos investido no medo. Isso também separa o medo da noite do desconhecido, onde vive todo o medo. O medo é algo que multiplica-se no anonimato, ele esquiva-se a ter um nome. É imprescindível para o nosso processo de cura que não tenhamos medo da dor. Se seu medo é um gigante amedrontador, peça ajuda à amigos e familiares, compartilhe sua dor, mas não tenha medo de senti-la. A vida está para as perdas, do mesmo modo que as perdas fazem parte da vida. As estações mudam e tudo está sempre em transição. Mas tudo isso não é tão bom? O que seria de nós se o inverno fosse eterno? Um período de transição é sempre necessário e também muito saudável. E mesmo a dor, se encarada dentro deste contexto, finalmente terá sua intensidade diminuída. Com o tempo se sentirá forte e animada. Terá a convicção que um dia suas feridas cicatrizarão. Lembre-se de que o processo demora o tempo necessário e de que o tempo da tristeza é diferente. Coatlicue diz para você sentir a dor para que a cura possa vir.



RITUAL À COATLICUE

Para este ritual você precisará de um tambor e de baquetas.

Encontre um local em sua casa onde não possa ser incomodada(o). Sente-se confortavelmente. Coloque a língua no céu da boca, faça uma respiração abdominal, procurando encher completamente a barriga e os pulmões. Inspire pelas narinas e solte o ar pelos lábios entreabertos. Vá aumentando a intensidade respiratória por pelo menos 6 vezes, mantendo a respiração constante e solte-se. Quando se sentir inteiramente relaxada(o), conceda-se espaço e permissão para abrir-se à dor. Visualize em seu corpo um lugar onde você está retendo sua dor. A maioria das vezes é no coração e nos pulmões, mas pode ser também no plexo solar. Se você conseguir e souber visualizar, deixe que as imagens venham.

Pode se tratar de uma dor recente ou antiga. Pode ser até uma dor que está gravada em seu inconsciente e não conhecimento dela, deixe qualquer emoção aflorar. Deixe que tudo venha à tona e aceite.



Assim que começar a sentir a dor é hora de tocar o tambor. Toque-o do modo que achar melhor, ritmicamente e golpeando-o cada vez com maior força. Deixe-se entoar a dor. Movimente-se para os lados, para frente, tentando enlouquecer de dor. Quanto mais você conseguir se envolver, mas satisfatória será sua experiência. Faça o que for mais apropriado para você, mas entregue-se à sua dor e toque-a no tambor até que ela se transforme em outra coisa. Não se preocupe, o seu cansaço fará com que a dor transmute, pois neste momento você é uma guerreira e está travando uma batalha de morte.

Quando você tiver tocado toda sua dor no tambor e ela estiver se transformado, deixe o tambor de lado. Respire fundo e solte o ar devagar, inalando a energia que você despertou. Agradeça e louve sua coragem. Talvez hoje você tenha transformado um galho seco em uma sementinha de amor, mas na próxima vez você já terá um arado e muitas sementes, tendo então a satisfação de uma colheita bem maior.

Texto pesquisado e desenvolvido por

ROSANE VOLPATTO

domingo, 7 de dezembro de 2008

AS GÓRGONAS



As três Górgonas, originalmente, tinham rostos muito belos e corpos bem delineados, além de apresentarem graciosas asas douradas arqueadas por sobre os ombros. Essas irmãs, filhas imortais de Fórcis (o "Grisalho", filho do extremo Ocidente) e Ceto (os dois são divindades marinhas), chamavam-se Medusa ("a ladina"), Esteno ("a forte") e Euríale ("a que corre o mundo"). Medusa provocou a ira de Atena ao fazer amor com Poseidon (deus do Mar) em um dos santuários desta. Enfurecida, Atena tornou-a mortal e a transformou, e às suas irmãs, em feias megeras , as "Repugnantes". Tinham a pele escamosa de um lagarto e cobras silvantes por cabelos; sua língua era protuberante, cercada por presas de javali. Medusa era a mais feia e petrificadora das três.


O terrível olhar das Górgonas era tão intenso que transformava os mortais em pedra e por toda a volta da caverna em que viviam podiam-se ver figuras de homens e animais que tinham olhado casualmente para elas e foram petrificados por essa visão. Podemos vê-las nesse sentido, como figuras guardiãs, protetoras das fronteiras dos antigos mistérios primais, guardiãs do limiar. Robert Graves, entre outros, sugere que as sacerdotisas usavam, máscaras de Górgonas para afastarem os não-iniciados. Cabeças de Górgonas, na forma de grotescos entalhes, eram colocadas com freqüência nos muros das cidades gregas para aterrorizarem os inimigos, um exemplo de proteção de fronteiras pelo arquétipo das Górgonas.
As Górgonas viviam juntas no além-mar, na extremidade ocidental do mundo e seu santuário formava fronteira com o reino da Noite. Eram protegidas por suas irmãs mais velhas, as Gréias, que possuíam um único olho e um único dente que compartilhavam, passando-os uma para as outras.


A mitologia masculina posterior fala do herói Perseu, que, enviado numa missão suicida para trazer a cabeça de Medusa, atraiu a simpatia e ajuda de Atena. Com sua ajuda e com o empréstimo de sandálias aladas, um elmo de invisibilidade e um escudo brilhante, Perseu penetrou no reino das Górgonas. Encontrando-as adormecidas, ele delas se aproximou, protegido pelo elmo da invisibilidade e, caminhando de costas, olhando apenas para o reflexo da cabeça de Medusa em seu escudo, pôde decapitá-la com a espada guiada por Atena, e escapar. Ele levou a cabeça guardada em segurança em uma bolsa mágica e a deu de presente a Atena, que a pendurou no cinto ou, como dizem outras versões, fixou-a no centro da égide do seu escudo. Não só Atena usava a imagem da Medusa como tótem protetor contra os inimigos e todo o mal. Sua imagem era encontrada em cerâmica, jóias, portas e carregada pelos soldados nos campos de batalha.

mito de Perseu e a luta com a Medusa simbolizam a guerra íntima do ser humano na procura por si próprio. Quem vê a cabeça da Medusa é petrificado: é a conscientização, por parte do homem, do seu lado negativo, é a descoberta do peso petrificante de sua culpa.
O nome Medusa significa " sabedoria feminina soberana, " em Sanscrito significa Medha, Metis em griego e em egípcio, Met ou Maat.

Medusa foi trazida para a Grécia da Líbia, onde as Amazonas líbias a adoravam como a Deusa Serpente. A Medusa (Metis) correspondia ao aspecto destruidor da Grande Deusa Tríplice Neith também chamada de Anath, Athene ou Athenna na África do Norte e Athana em1400 a.C., em Minos Creta.


A Medusa tinha originalmente o aspecto da deusa Atena da Líbia onde ela era a Deusa Serpente das Amazonas. Seu rosto era oculto e pavoroso. Estava escrito que nada nem ninguém poderia levantar seu véu, e todo aquele que se atravesse a fazê-lo morreria instantâneamente. Foram os gregos que separaram Medusa de Atena e as tornaram inimigas.


Dando continuidade a nossa história..., mesmo após a sua morte, o sangue da Medusa conservou seus poderes e deu vida ao famoso Pégasus, o cavalo alado, obediente à Zeus. O sangue da Medusa é totalmente extraído de seu corpo e utilizado então, mais tarde, transformando Asclépio em um grande curador. Foi exatamente Atena quem deu a Asclépio dois frascos do sangue de Medusa. Venerado como fundador da medicina, Asclépio era habilidoso na cirurgia e no uso de remédios. Ele usou o sangue do lado esquerdo de Medusa para levantar os mortos; o sangue do lado direito provocava morte instantânea. Na verdade, Asclépio preferia trabalhar apenas com a capacidade curativa dos remédios. Mas o fato de o sangue de Medusa poder tanto curar como matar demonstra que a figura da Medusa ou da Górgona não era estritamente negativa e destruidora, tendo em si forças curativas positivas, o que lhe dava equilíbrio.


sangue mágico da Medusa se correlaciona ainda, com um antigo tabu relacionado com a menstruação. Povos primitivos acreditavam que o olhar de uma mulher menstruada poderia converter em pedra um homem. Também era crença popular que o sangue menstrual era fonte de toda a vida mortal e também da morte, pois ambas são inseparáveis.

As Górgonas aladas, cujos cabelos eram serpentes que também cingiam a sua cintura, juntamente com as presas dos javalis, a barba e a língua à mostra, são símbolos urobóricos do poder primordial do Grande Feminino, imagens da Grande Divindade Materna pré-helênica em seu aspecto devorador, como terra, noite e mundo inferior.

A acentuação urobórica masculino-feminina da Górgona não resulta somente da impressão causada pelas presas ferozes, mas também da língua estendida para fora, a qual, em contraste com os lábios femininos, sempre tem um caráter fálico. Na Nova Zelândia, a exibição da língua estendida é sinal de poder e de energia dinâmica. Onde quer que surja o aspecto terrível do Feminino, ele também será a mulher-serpente, a mulher com o falo, a unidade conceber-gerar da vida e da morte. Eis a razão pela quel as Górgonas são dotadas de todos os atributos masculinos: a serpente, as presas do javali, o dente, a língua exposta e, às vezes, até barba.


GÓRGONAS COMO ARQUÉTIPOS

As Górgonas são tidas históricamente como arquétipos da "Mãe Repugnante", ou "Mãe Terrível". Entretanto elas simbolizam bem mais do que só isso, representam: a sabedoria feminina soberana; os mistérios femininos; todas as forças da Grande Deusa primordial; os ciclos do tempo presente e futuro; os ciclos da natureza como vida, morte e renascimento. Elas são criatividade e destruição universais em transformação eterna. Elas são guardiãs dos umbrais e mediatrizes entre os reinos do Céu, da Terra e do Mundo Inferior. Elas fazem a conexão do Céu com a Terra; destróem para construir, alcançando assim o equilíbrio. Elas purificam e curam. Elas são a última verdade da realidade e da integridade.
São as Górgonas com sua terrível aparência, que nos alertam contra a imersão prematura nas sombrias profundezas do nosso mundo inferior psíquico, o nosso domínio inconsciente. Se penetrarmos nesse reino sem a preparação adequada, podemos ficar petrificados, ter a vontade paralizada e perder a capacidade de compreender as forças e os tenebrosos poderes do nosso inconsciente. Seríamos reduzidos a uma completa inatividade da alma.
As Gógonas surgem das profundezas das cavernas do mundo subterrâneo para nos desafiar com um grande enigma. As Desafiantes deste Lado Obscuro fazem parte da Grande Deusa e estão vinculadas a Deusa Anciã, que juntamente com a Deusa Virgem e a Deusa Mãe, participam do arquétipo da Deusa Tríplice. A Deusa Anciã e as Górgonas expressam energias iniciáticas, curadoras e libertadoras da sabedoria feminina. Nos relatos mitológicos elas tornam-se demoníacas em virtude das religiões patriarcais que purgaram da consciência da mulher qualquer tipo de poder mágico e transformador. A decapitação mitológica da Medusa simboliza o silêncio da sabedoria e da expressão feminina. É um ato que freia seu crecimento, limita seu potencial, movimento e contribuições culturais. A sabedoria feminina é um dos aspectos mais reprimido nas mulheres, produto de uma larga prédica contra o xamanismo das sacerdotisas, bruxas, curadoras e profetizas. Nós mulheres ainda guardamos na memória a perseguição e queima das bruxas européias e ainda hoje, qualquer coisa que esteja associada ao poder das bruxas é percebido com muito temor e como algo perigoso e obscuro pelo homem. Entretanto, as energias da Deusa Anciã nos dota de força, sabedoria e dignidade. As anciãs sábias das culturas matriarcais aborígenes não foram mulheres submissas porque haviam encontrado o seu verdadeiro "Eu" através das iniciações, ritos de passagem e consciência madura.

As histórias míticas das Górgonas propocionam um ponto de partida para se detectar as qualidades e energias internas em cada mulher. Qualidades das bruxas, xamãs, profetizas e sacerdotisas que se desenvolveram em distintas culturas, oferecem hoje, as demais mulheres e até para homens que se interessem sobre o assunto, experiências de conhecimento e transformação. Tal qual nossas ancestrais, nós, mulheres de novos tempos, necessitamos estar conscientemente vinculadas com a energia de nosso lado obscuro para descobrirmos o seu tesouro oculto, com o qual poderemos transformar tanto nossa vida pessoal como comunitária.

Rosane Volpatto IN: http://www.rosanevolpatto.trd.br/medusa.htm