"E aqueles que pensam em Me procurar, saibam que a vossa busca e vosso anseio devem beneficiar-vos apenas se vós souberdes o Mistério; se o que vós procurardes, vós não achardes dentro de vós mesmos, então nunca encontrarão fora. Pois eu tenho estado convosco desde o Início e Eu Sou Aquela que é alcançada ao final do desejo"


terça-feira, 7 de junho de 2011

SENHORA DO SANTUÁRIO



Celebração do Dia
07 DE JUNHO

Festival de Vestália em homenagem a Vesta, deusa padroeira dos lares e guardiã do fogo sagrado. As Vestais limpavam e renovavam os altares e abriam os templos para todas as mulheres, sendo o acesso proibido aos homens. Além de zelarem pela chama sagrada dos templos da Deusa, as Vestais colhiam os primeiros cereais e frutas, preparavam as oferendas e as ceias comunitárias das colheitas. As Vestais eram encarregadas, também, dos rituais de purificação dos templos, das praças públicas, das casas e das pessoas.
Celebração da deusa báltica Haltia, a protetora do lar, dos assuntos e dos animais domésticos. Segundo a lenda, ela morava na própria estrutura das casas e trazia saúde e boa sorte para seus habitantes. Se a casa fosse demolida ou destruída, a família deveria levar para sua nova morada um pouco de cinzas da antiga lareira para não ofender ou enfurecer a Deusa. Haltia também cuidava das vacas, ovelhas, cavalos, porcos e aves. As crianças tornavam-se mais obedientes se ela fosse homenageada com cânticos, orações e oferendas de pão, leite, queijo e mel.

Informações extraídas do livro "O Anuário da Grande Mãe"- Mirella Faur

O PRÍNCIPIO DE BERKANA



BERKANA, BERKANO, BJÖRK, BJARKAN

Enviado por Luciaurea para o Youtube em 25/03/2011

A Runa Berkana é um arquétipo muito importante no Sagrado Feminino. Nesta canção rúnica (Galdra), ouvimos seu nome como Björk.
Não conheço melhores palavras que as de Mirella Faur para sua descrição:

"Berkano é o poder gerador feminino que sustenta o processo de criação, manifestação, crescimento e decadência. Ela contém e guarda tudo o que foi concebido e também o protege e nutre até que chegue o momento propício para sua materialização; posteriormente também zela pelo seu desenvolvimento.
(...) Ela rege os quatro ritos de passagem da humanidade: nascimento, adolescência, casamento e morte. (...) Representa a Mãe Boa e a Mãe Terrível.
Todos os fenômenos da natureza estão sintetizados nessa runa; cada forma de existência tem sua unicidade em um certo momento, o ser, do qual é construído o porvir. (...) Sua forma reproduz os seios e o ventre em gestação (de perfil).(...)"

Beorc personifica os mistérios femininos, governa tanto a mãe quanto o filho. Sua energia é criadora, protetora e fortificante. Seu arquétipo está relacionado tanto ao equilíbrio do papel feminino (menina, adolescente, mulher, mãe, avó) quanto ao desequilíbrio. Berkana é autêntica. Nesse sentido, é tanto uma bênção quanto um alerta.

A música (Galdra, canto rúnico) é do grupo norueguês Wardruna
Disponibilizado por Luciaurea

http://www.youtube.com/user/luciaurea

domingo, 5 de junho de 2011

A FEITICEIRA PRECISA SER OUVIDA

DAS BRUXAS À PSICOLOGIA

Sonhos de unidade, visão transcendente de inteireza, potência e amor, outrora representados pela Grande Mãe. No Egipto, os Mistérios de Ísis, eram celebrados a partir de um ritual matutino e a cada hora uma celebração que só terminava na vigésima Quarta hora com a revelação dos mistérios quando as estrelas brilhavam no céu. A Grande Deusa era invocada e os segredos da vida revigorados, cultuados.. (...) O conflito entre os deuses patriarcais e a Deusa Mãe foi se intensificando e os cultos à Ela foram se dispersando ou sendo assimilados distorcidamente. Dionísio, deus do êxtase e do entusiasmo, do abandono aos poderes da natureza; Pã, expressão do espírito da natureza selvagem; Afrodite, Deusa do amor, da união sexual, Mãe de Eros; tornaram-se objectos da repressão cristã e reapareceram mesclados na imagem do diabo. Suas funções psicológicas submergiram nas profundezas do inconsciente. E a sensação intrínseca de confiança em pertencer à Grande Mãe Natureza deixou de existir reaparecendo séculos após nos sintomas das histéricas de Freud . Corpo, sexualidade e inconsciente/natureza emergem da escuridão para serem reintegrados. E neste fim de milénio as depressões que afligem a alma humana clamam pela busca de sentido, valor principal do arquétipo maior. Mergulhada na morte, a alma contesta os valores esquecidos, exige reflexão em redescobrir os mistérios femininos ligados ao ciclo vida – morte – vida e encaminha para a elaboração da morte simbólica. Faz repensar a questão espiritual, o ser criativo recriando-se, regenerando-se, curando-se dos excessos de violência e agressividade a que a humanidade se submeteu em prol do desenvolvimento da razão. (...) Na medida em que o Pátrio Poder se desenvolve e a lei do mais forte se instala, o uso da agressão se impõe nas relações humanas gerando competitividade, poder, conquista, luta pela posse de um território, guerras. Surge a questão da herança, institui-se o casamento. E a posse sobre a mulher, sua sexualidade, prazer e direito à própria vida se concretiza. Ao dominar a função biológica reprodutora o homem passa a controlar a sexualidade feminina. O poder cultural passa a desenvolver-se em oposição ao poder biológico nato na mulher. A vulnerabilidade permeia a função de parir, a mulher se inferioriza, torna-se dependente e o homem trabalha e domina a natureza.

(...) Usado no culto à Grande Senhora da Lua, O Graal continha a água do poço sagrado e num coro ritualístico as sacerdotisas faziam reflectir a luz da lua na limpidez da água e celebravam a natureza, a vida e os ciclos eternos, o ir e o vir. (...) O mal precisa ser elevado à consciência, pessoal e colectiva, para tornar-se fonte de criatividade.

A feiticeira, que é a antítese da mulher idealizada, símbolo das energias criadoras instituais, não domesticadas e não disciplinadas precisa ser ouvida
. A integração desta sombra traz de volta a mulher selvagem, que segue seu instinto de preservação, que possui sua energia vital, sexual, que fareja o perigo, que intui a cura e sabe o que a alma está pedindo, que sabe aplacar o sofrimento e pode transmitir o dom da vida. Esta integridade faz a ponte para a transcendência. É a mulher novamente apresentando-se como agente de mudança para uma nova etapa no desenvolvimento da consciência humana.

" Das Bruxas à Psicologia
Clara Rossana Ferraro de Sá
(Excertos de artigo)

IN:
SACERDOTISA D'ÍSIS - (REPUBLICADO)

sábado, 4 de junho de 2011

NESTE DIA ABENÇOADO


Celebração do Dia
04 DE JUNHO

Na Irlanda, celebração da Mãe Terra, a antiga deusa Danu ou Anu, conhecida também como Don no País de Gales e Domnu, Dana ou Donann em outros lugares. Reverenciada como a Mãe Ancestral de uma tribo de seres espirituais chamados Tuatha de Danaan, seu nome significava "sabedoria". Os Tuatha de Danaan eram a quarta raça de colonizadores que chegaram na Irlanda séculos antes da era cristã. Eles eram seres sábios, eminentes magos, cientistas e artesãos, possuidores de uma altíssima vibração espiritual, verdadeiros “seres de luz”. Após permanecerem duzentos anos ensinando suas artes para os habitantes nativos, foram vencidos pelos últimos conquistadores da ilha, os Milesianos, guerreiros e materialistas. Os sobreviventes do “povo da deusa Danu” refugiaram-se nas colinas ou embaixo da terra e passaram a ser conhecidos como “Daoine Sidhe” ou o “Povo das Fadas”.
Fim de Rosália, o festival romano das rosas.
Festival romano da deusa Pax. Essa deusa era a protetora das pessoas e das propriedades, a personificação da segurança. Acenda uma vela branca em sua homenagem e ore, pedindo proteção e segurança para você e para seus entes queridos. Medite também sobre meios atuais e eficientes para colaborar na manutenção da paz pessoal, familiar, coletiva e planetária. Contribua, mesmo que modestamente, para alguma organização ou movimento pela Paz Mundial.

Informações extraídas do livro "o Anuário da Grande Mãe" -Mirella Faur

sexta-feira, 3 de junho de 2011

QUANDO A MULHER ASSUMIR O PODER DA DEUSA...

QUANDO O VÉU DA MÃE SE LEVANTAR...

"No alto do ramo mais alto, uma tão rosa maçã. Mulher. Esqueceram-na os apanhadores de frutas? Não. Mãos não tiveram para a colher..."
(Safo)

Mulheres...vocês ainda não sabem nem sonham do vosso potencial, da vossa liberdade, da vossa generosidade e grandeza...Vocês ainda não imaginam sequer...o poder...do amor que em vós está oculto...
Mulheres....um dia, quando o Véu do oculto, o Veu da Mãe se levantar e Ela vos olhar de dentro de vós... e se erquer no vosso corpo e vos levantar à sua altura, vocês vão saber quem são e voltar a encontrar a plenitude do SER MULHER...e o mundo e a Terra vai mesmo mudar...
Muita gente hoje fala das crianças indigo, dos que hão-de vir, as novas almas...mas tal como a Terra e o Planeta está subestimado e reduzido à sua expressão mínima, também a Mulher como a Natureza foi vilimpendiada e destruida no seu potencial e vitalidade e um dia, quando a Terra se libertar desse jugo, ela vai voltar a dar os seus frutos, tal como também a Mulher voltará a ser vital e cheia de energia amor e força...E a regeneração do Planeta e da natureza está nas suas mãos...

E como as árvores que nos dão sombra e sorvem a luz a Mulher terá de novo as suas raízes bem fundas na Terra e o corpo erguido para o céu...

Não será mais a mulher subjugada à maternidade e ao sexo, vendida, escravizada, violada, abusada no mundo inteiro...a mulher reduzida a um verbo de encher...
Não, a Mulher voltará um dia a ser a Senhora e Deusa na Terra e ela continuará a ser a Amante e a Mãe de todas as almas que virão transformar o Planeta, mas é delas e por elas que a Terra será livre do jugo da guerra e da mentira dos homens que as mantiveram prisioneiras durantes milhares de anos. E os seus filhos serão livres e iguais à Luz do Novo Mundo que há-de vir...sem mentiras nem ódio...

Rosa Leonor Pedro

..."E são estes mistérios que convem abordar. Com respeito, com audácia e inocência, tentando recorrer à intuição sagrada, essa “ignorância” à qual nós não sabemos fazer suficientemente confiança.”

IN: MULHERES & DEUSAS

quinta-feira, 2 de junho de 2011

NEM TUDO SÃO ROSAS...

UM SITE MUITO IMPORTANTE PARA QUEM REALMENTE SE IMPORTA COM QUE ACONTECE COM AS MULHERES NO MUNDO!

ALMA FEMININA



Picasso- Deux femmes nues

Alma feminina é um espaço para homenagear a Mulher, contribuir com a luta contra a violência e desigualdades de gênero, bem como com a luta contra todo o tipo de preconceito e pela igualdade entre os gêneros.
Um espaço poético, para a expressão de toda forma de arte, principalmente as produzidas por mulheres ou para elas.
Pretende-se informar e conscientizar sobre questões ligadas ao movimento feminista, direitos sexuais e reprodutivos e saúde da mulher; compartilhar poesias, dicas de livros, filmes, eventos, etc.

Este é um espaço de todas e todos que acreditam no mundo de igualdade, justiça, paz e amor.


Érica professora e educadora
(provavelmente da rede pública)

CONSIDERE-SE FEMINISTA OU NÃO, COMO PODEREMOS CULTUAR UMA DEUSA SEM NOS IMPORTAR-MOS COM QUE ACONTECE COM AS MULHERES A NOSSA VOLTA, NO BRASIL...NO MUNDO?

terça-feira, 31 de maio de 2011

NÓS, TODAS NÓS....

“Aquelas que recebem os dons da Deusa"

Z Budapest: Eu estava mexendo em meus antigos arquivos e achei uma oração muito poderosa. Ela está escrita a mão e não fui eu quem a escreveu. Não sei quem possa tê-la escrito, mas essa oração me tocou. É um pouco longa.

“Aquelas que recebem os dons da Deusa
Devem utilizá-los.
Lustrem os seus dons de manhã
Lustre-os com anseio
Colha-os da trêmula Árvore da Criação
Gentilmente, guarde-os na cesta de seu amoroso esforço
Use-os ou eles deixarão de ser frutos e se tornarão pedras pesadas.
Os frutos da Mãe são suculentos e nutritivos
Ignore-os e eles se tornarão dentes e te morderão.
Estes dons são mais valiosos do que a noite e a manhã
Ignore-os e a noite e a manhã morrerão
A cova de seu conhecimento queima e se transforma nos frutos da Mãe, dentro de você
Saia da cova e você estará perdida
Quando utilizados, os belos dons são abundantes e começam a aumentar
Eles crescem conforme são consumidos
Balance os galhos da Criação
E os dons cairão em seu colo, resplandecentes
Dê as costas e a Árvore murchará
E o vento carregará a semente para longe
Utilize os dons da Senhora, então com grande abandono
Eles se tornarão seu alimento
Eles são os frutos, o florescer na escuridão dos sonhos
Eles são a luz que dissipa o caos
Eles são os frutos da árvore desconhecida mas que está sempre presente
Eles são os frutos que crescem eternamente nos galhos do desconhecido
Trazidos à visão
Eles são mais doces do que a evidência do amor no corpo
Não permita que ninguém dê as coisas enquanto os frutos caírem
Ao contrário, recolha-os
Eles são sua abundância e seu sustento.”
Abençoada seja.

(Tradução: Aphrodisiastes)

domingo, 29 de maio de 2011

A CRENÇA NAS DEUSAS


THEATEÍSMO

Thea (do termo grego Théas: Deusas; ismós: crença)

Aqueles que possuem como eixo de crença e culto às deidades femininas podem se autodenominar como Theateístas. Poderia apenas assumir o nome de religião matriarcal, ou religião da Deusa, entre tanto o termo Theateísta envolve em si um imenso coletivo de significados.
Ele se refere à crença, ao culto, a fé, a celebrações e práticas cotidianas onde a essência é uma ou mais de uma Deidade Feminina.
Fato que liga este conceito diretamente ao Politeísmo e o faz corretamente, porém calhando de modo mais concreto este pela sua identificação pessoal para com Deidades Femininas.

Assim o Theateísmo mesmo que tenha em seu culto ao Feminino Sagrado, seja ele dentro de um panteão específico ou com mais de um, não recai dentro do conceito mais conhecido, mais evidenciado, de ser o mesmo que a religião Wicca.
Não deve ser entendida como vertente ou Tradição da religião Wicca por não atender aos princípios que essa religião orienta, não há uma necessidade premente por ritos cerimonialistas, ou de uma presença masculina dividindo celebrações no caráter sacerdotal, e o universo da Magia e Bruxaria é considerado como parte que pode ou não existir dentro da vivência sagrada de cada um.
O Theateísmo pode ser cultivado em esferas diversas e distintas daquela que é a religião Wicca, contudo um wiccano/a pode se dizer também Theateísta.


Os movimentos femininos das décadas de 60 e 70 e cujos reflexos sentimos no hoje, perfazem ainda que distantes em tempo e geografia, o sentir espiritual do feminino pagão atual. Foi lá naqueles anos vestidos de roupas exóticas e movimentos libertários, que o Neo-Paganismo Feminino tomou formas, nasceu e perdurou… Não me refiro à história e registros antropológicos, mas a historicidade.
A historicidade é um conceito crucial para o entendimento da história, seja ela considerada “ciência” como queriam os estudiosos do século XIX, ou “narrativa verídica”, como definiu Paul Veyne. É a historicidade que dá caráter factual à vivência, em oposição à narratividade que cerca o homem; é aquilo que dá valor ao antigo apenas por ser antigo, e não por ter uma qualidade intrínseca - é o que define um mero objeto de um objeto histórico. Analisando a importância da história para o homem, Gadamer afirma: “o homem é, simultaneamente, o ser do passado remoto e o ser que vive no seu futuro como grande horizonte de expectativa e vasto campo de projetos que o seu ser modelado pela sua história lhe abre.” (GADAMER, 1988: 12).
Esse ‘ser modelado pela história’, no entanto, é impensável sem a preocupação consciente ou inconsciente, para com a historicidade.

É partindo dessa historicidade que os movimentos daquelas décadas representam papel preponderante para nosso fazer pagão atual.
Em outras palavras, não devemos menosprezar a história recente do feminino e suas manifestações, mas considerar seriamente a representatividade que ativistas feministas dos anos 70 possuem no que hoje é o Neo-Paganismo Feminino.
Entendo que assim como eu, outras pagãs possam se encaixar no conceito do Theateísmo, que é também pagão por decorrer da necessidade inerente entre quem o pratica em resgatar os saberes matrifocais dos povos primevos, o que de certa forma pode ser compreendido por alguns como um reconstrucionismo, mas por não deter em si um rígido entendimento quanto às bases e pilares sobre os quais deva ser realizado esse resgate, quiçá não caiba nessa nomenclatura.

Mas em suma é em base às dinâmicas psicossociais e espirituais das culturas matriarcais e matrifocais que se erige a construção do Theateísmo. Estudos e pesquisas de culturas pré-históricas proporcionaram insumos para esse resgate, onde essas culturas são entendidas como culturas de paz e equidade entre gêneros.
Cabe citar a personagens preponderantes nesse fazer arqueológico matrístico: Merlin Stone, Erich Neumann, Marija Gimbutas, Robert Graves, e ainda que muito se discuta a seriedade dos seus escritos, a James Frazer, que antecede aos primeiros no quesito interesse por esse tipo de estudo.
Eles, pesquisadores que focaram seus olhos nas culturas Europeias, Mediterrâneas e das regiões adjacentes. Eles que são compreendidos como pedra basilar nessa construção e resgate das culturas onde o feminino foi o núcleo, devem sempre ser lembrados, pois sem esse olhar arqueológico feminino, ainda a trilha do Theateísmo seria incipiente...
As culturas do matriarcado por terem a figura feminina como representação de eixo e liderança, e as matrifocais onde homens e mulheres possuíam o mesmo peso e permaneciam no mesmo status quo, se constituem nos modelos para a elaboração do propósito que orienta ao Theateísmo. Isto no que se refere aos papeis sociais, sexuais e espirituais atribuídos a mulheres e homens, ações que repercutem no sistema religioso não hierárquico, e talvez por isto mais aberto a práticas que podem ser coletivas ou não.

A forma como é percebido o construto sobre uma deidade também depende da cultura de origem do praticante, ou da sua ideologia e identificação com panteões, no entanto por questões de coesão e harmonia, grupos que se dedicam ao culto de deidades femininas optam por centrar suas atenções naquelas que advieram de núcleos matrifocais.

De modo que não se deve confundir ou fundir o Theateísmo com a Tealogia, em vista de que esta última se dedica à pesquisa do Feminino dentro das culturas religiosas judaicas e cristãs.

Dentro do movimento Neo-Pagão do século XXI, o Theateísmo pega emprestado muito do que foi elaborado pelos movimentos ativistas espirituais femininos como os encabeçados por Starhawk [Tradição Reclaiming], ZZ. Budapest [Dianismo], por exemplo, e por movimentos dentro do universo psicanalítico, onde podemos citar a seguidoras e revisionistas junguianas, como: Jean Shinoda Bolem; Marion Woodman; Christine Downing, entre outras.
Estas últimas que em suas analises pessoais e interpessoais resgatam o conceito da identificação da nossa psiquê e os arquétipos das deidades femininas oriundas em base à mitologia grega, mas que hoje em dia abarca a outras mitologias.

Pela semelhança se pode pensar que falamos do Dianismo. Com tudo tal suposição não é verdadeira, uma vez que o Dianismo é considerado pela sua genitora Zsuzsanna Budapest passível de apreensão como uma Tradição da religião Wicca, e não podemos esquecer que há no Brasil outras Tradições Diânicas, ambas Wiccanas. Assim como no Dianismo Feminista há a preferência pela não inclusão de homens em ritos diânicos. Então não é Dianismo.
Há uma congruência, entre tanto, no que se refere ao conceito a ser elaborado e implementado, onde a mulher pagã se entende como um ser politicamente ativo, não apenas em relação aos direitos civis, mas ao resgate da sacralidade da Terra e de si mesma. Nisto o Dianismo e o Theateísmo coincidem.

Para muitas o termo mais próximo ao conceito do Theateísmo, seja nomear suas práticas particulares ou comunitárias como uma “Espiritualidade Feminina”, não obstante há o risco de que se entenda a essa Espiritualidade Feminina como sendo qualquer culto a um feminino, podendo incluir aqui ao Marianismo, fato que seria incorreto, considerando ser o Marianismo o culto a Maria, não na condição de deidade como é encarado o Sagrado Feminino dentro do Paganismo, mas sim como mãe de um deus monoteísta.

A desambiguação quanto à dupla Theateísmo e Espiritualidade Feminina é necessária, e não há estudo religioso que seja simples de ser compreendido e internalizado apenas em base a uma leitura ou fala...
Faz-se imperativa essa desambiguação pela semelhança que mora em ambas as vivências, pois o Theateísmo é a Espiritualidade Feminina em toda sua dimensão contendo-a, porém a condição inversa não é verdadeira, a Espiritualidade Feminina não é por derivação o mesmo que o Theateísmo, pelas razões que já foram expostas.

Quiçá se fuja da rotulação religiosa como uma forma de emancipação para com as crenças monoteístas patriarcais, por outro lado há grupos e coletivos que se sentem a vontade com o uso e adoção do termo, que classifica e identifica a esse coletivo com esta prática religiosa.
No que tange à mulher, esse encontro com o Theateísmo lhe investe de valor e significância. De valor pessoal, emocional, espiritual e ancestral. A retira da esfera das simplificações patriarcais, proporcionando-lhe o direito a assumir uma outra religiosidade com nome, forma e historicidade.
Por ela ser pagã e ter nascido no século XX, vir a ser cópia fiel de outras mulheres do passado, no que se refere à passividade perante a extirpação dos seus direitos, a desclassifica e coisifica. Mencionar isto aqui advém da resistência que existe mesmo entre pagãos, para com a aceitação e legitimação da religiosidade Theateísta, e da mulher que a exerce como crença e fé.
O machismo não pertence a credos, ele se faz onde a intolerância se deixa permanecer. A coisificação da mulher não se restringe a mídias, ela surge aonde haja discriminação e intolerância. Logo aceitar que mulheres assumam como religião ao Theateísmo é de grande importância, sobretudo em nichos considerados como abertos a diversas leituras de fé e de vida.

Os movimentos femininos que defendem a criação de Círculos se mostram epicentros energéticos dos conceitos matrifocais, gilânicos [aqui o trabalho de Riane Eisler lança luzes sobre o que é a gilania, sobre a fala da equidade entre gêneros, sobre as relações de parceria, que nos levam aos conceitos de Humberto Maturana e sua teoria da dinâmica da Matriz Biológico-cultural da Existência Humana], onde a manifestação matrística não se limita ao feminino, mas contêm em si ao masculino, um masculino que aceita um conviver de igual para igual, e de valorização da figura feminina.

“Somos seres por natureza parida Matristicos, depois os rumos e trilhas nos separam desse primevo estágio”.
Humberto Maturana, no prefácio de
“O Cálice e a Espada” de Riane Eisler.

Círculos de Mulheres tais como os propostos pela escritora e psicanalista Jean Shinoda Bolen, em seu livro~poema “O Milionésimo Círculo” incitam a transpor barreiras rumo a um adentrar na Espiritualidade Feminina, onde seja pela ótica da psicanalise ou pelo caminho dum encontro com Thea[s], as mulheres em Círculo aprendem a se desfazer dos parâmetros hierárquicos que lhe foram cunhados na alma. Aprendem a dialogar sem escalas, de igual para igual, em respeito quanto a tempos, falas, e conceitos.
Ela, a autora, incita a reflexão sobre o conceito bem formado interior, sobre cada um, ato que salva a mulher do auto silenciar-se, de omitir-se e perpetuar a nulidade dos seus direitos e a repetição cíclica da sua exploração massiva ou particular.
Seja em Círculos ou Grupos, ou em Groves, a construção espiritual feminina permite que impere a sensação elástica e ampla que libera um sentir-nos “estar em casa”, onde podemos manifestar dizeres que exteriorizam aquilo que já passou horas demais internalizado.

Tais movimentos circulares, espiralados ecoam de maneira impressionante, envolvendo até aos mais céticos. Acolhendo uma realização ideológica, espiritual, ativista e pagã que aceita a mulher tal como ela se mira, como ela se vê refletida em seus espelhos mutantes.

Reuniões circulares celebrantes de manifestações da natureza, onde a reverência pode recair na sacralidade da Terra, da Lua, de ritos sazonais, ou de honra a Deusas, atendem as múltiplas formas que as mulheres pagãs possuem; mulheres pagãs que se entendam ou não, a si mesmas como Bruxas, como Feministas, como Ecofeministas, dentro da vivência e realidade do Theateísmo, sem que esse entender seja indispensável para que ela, a mulher, seja Theateísta.

A construção ativista dentro da visão matrística é defendida e exercida em base ao conceito da “co-inspiração”, não observando ao extremismo e à contraposição de gêneros. Ou seja, podem homens dizer-se Theateístas sem que isso induza sua desmasculinização.

Dentro da realidade brasileira é urgente citar a estudiosa e pesquisadora das celebrações panculturais do Sagrado Feminino, Mirella Faur, quem iniciou o movimento da religiosidade da Deusa no Brasil, facilitando encontros entre mulheres em rituais públicos ou reservados na cidade de Brasília. Deve ser esta pesquisadora inserida no elenco de personagens que construíram a Espiritualidade Feminina Pagã Brasileira, abrindo espaço para que muitas outras criassem coragem para assumir posturas, manifestar pensamentos e co-inspirar!
A sua obra “O Legado da Deusa” serve para essa co-inspiração espiralada, serve de mola propulsora para muitas, que seja em solitário ou não, celebram o Feminino Sagrado.
Havendo muitas outras mulheres que em nosso hoje dilatam as trilhas do Theateísmo no Brasil, fazendo com que o tempo no qual para saber, viver e apreciar o Sagrado Feminino Pagão se fazia necessário olhar para fora, seja um tempo pretérito.
A ritualística deste Feminino é permeada por simplicidade, singeleza, silêncios eloquentes, ou festivais infinitos, realizados a solo, ou em Círculos onde a partir de duas mulheres já se cria um.

Círculos que se alimentam da unicidade que a mulher descobre entre ela e outras, gerando movimentos que visam reconstruir a imagem feminina tão machucada pelo meio e também por outras mulheres que conhecem tão só a realidade obtusa e ferrenha que lhe foi repassada por outra geração de mulheres. Logo esse movimento pela recuperação da imagem, da honra, da plenitude feminina, empodera a mulher e modifica sua maneira de se discernir e inserir no mundo, garantindo que ela se torne uma agente modificadora por sua vez de outras realidades, umas mais imediatas do que outras, mas a torna um ser crítico e ciente do seu valor pessoal e do seu direito a assumir com inteireza suas formas, sua vida.
Dentro desse elenco de movimentos modificadores e vivificadores, vemos a grupos de mulheres que se voltam para a sacralidade dos nossos corpos, primando pela desmistificação de temas como a menstruação, a menarca, a menopausa, o aborto, a morte. Mostrando a naturalidade e o caráter inalienável que esses temas possuem. E aqui também não é mais preciso olhar para fora dos limites do país, o movimento se faz aqui, com e para brasileiras.
Quiçá um livro que marcará diferença para sempre dentro desse reconhecimento do sagrado em nossos corpos seja o “Rubra Força” da psicanalista Monika Von Koss. Faz da sua leitura uma ponte para um outro mundo e entendimento do que somos, como seres biológicos, históricos e espirituais.

A diversidade sobressai ao se falar de formas e focos a serem celebrados, entre tanto algo em comum entre os Theateístas é a criação, cuidado e zelo para com o altar em casa. E é especial perceber que ele não se esconde, ele se mostra com orgulho. Ultrapassa o limiar das casas e se expõe aos outros, ou pela sua pequenez torna-se uno ao lar onde mora.

O Theateísmo defende o empoderamento da mulher, sem sobreposição ao masculino, assim famílias matrísticas podem vir a ser pauta em nossa sociedade, famílias onde mãe e pai dispõem deveres, direitos e espiritualidade num fazer circular, de igual para igual, permitindo assim que uma nova geração seja elaborada, criada e parida para o mundo. Uma geração que entende esse mundo como sagrado, livre e passível de reinvenção, e releitura.

Uma releitura gilânica, matrística, Theateísta.

Luciana Onofre
São Luís, Maranhão, Brasil, 16 de maio de 2011.

Bibliografia Consultada
El Poder Mágico de las mujeres – Z. Budapest. Ed. Robin Book.
A Deusa Interior – Jennifer Barker Woolger & Roger J. Woolger. Ed. Cultrix.
A Deusa no Escritório – ZZ. Budapest. Ed. Agora.
Bruxaria e História – Carlos Figueiredo Nogueira. Ed. USC.
Como se escreve a história e Foucault revoluciona a história – Paul Veyne. Ed. UnB.
História e Historicidade - H.G. Gadamer. Ed. Gradiva. Lisboa.
A Dança Cósmica das Feiticeiras – Starhawk. Ed. Nova Era.
O Milionésimo Círculo- Como transformar a nós mesmas e ao mundo -
Um guia para Círculos de Mulheres – Jean Shinoda Bolen, M.D. Ed. Taygeta/Triom.
O Cálice e a Espada – Riane Eisler. Ed. Palas Athena.
Rubra Força – Fluxos do poder feminino – Monika Von Koss. Ed. Escrituras.
O Corpo da Deusa – Rachel Pollak. Ed. Rosa dos Tempos.
A Tecelã – Bárbara Black Koltuv. Ed. Cultrix.
O Livro de Lilith - Bárbara Black Koltuv. Ed. Cultrix.
Mãe Paz – Vicki Noble. Ed. Nova Era.
O Legado da Deusa – Mirella Faur. Ed. Rosa dos Tempos.

A obra Theateísmo de
Luciana María Onofre Martins foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Brasil.
Podem estar disponíveis permissões adicionais ao âmbito desta licença em http://gherminando.blogspot.com/.

ROSAS

CONTRADIÇÃO

Minha alma quer o mundo

Apesar de habitar neste corpo tão pequeno
Por vezes algumas vezes amado e outras muito odiado
Minha pequena alma ainda sim deseja o mundo
Minha pequena alma ainda sim tem sede das coisas belas
Minha pequena alma ainda sim está cheia de amor por Ti
E pelo mundo.
Minha Mãe, meu mundo...
Vive em mim!
Meu mundo mesmo com dor
Tão ternamente ardente flor em meu coração.
Meu amor mesmo que na dor que floreça
Meu amor mesmo no corpo tão ternamente marcado de feridas
Que são minhas acaricias de dor
Meu amor mesmo que separado do corpo
Corpo que arde, doi e sofre
Corpo que sofrerá mais
Mesmo nesse corpo aberto
Como rosa encarnada
Em vermelho
Mesmo na obscuridade da dor
Da ferida da rosa arrancada do galho
Meu amor vive
Vive naquele que provou o sabor do perfume desta tão mal formada rosa
Sua beleza secreta tão dentro e fundo
Tão fundo e mais docemente
A sugar a seiva da raiz,
Do grão do grão, da Terra, da Terra
De um mundo chamado vida
De um mundo Mãe,
Minha dor é rosa desabrochada
Machucada e encarnada
Na mas bela flor
No seio da Mãe.

A mais bela flor é aquela quem vem cheia de feridas e saudade, aquela que vem cheia de amor pela Mãe, pela vida...

sábado, 28 de maio de 2011

CAMINHOS DO CORAÇÃO

MULHERES & DEUSAS

Busca o encontro da feminilidade original e da mulher essencial no encontro com a Deusa esquecida...
Está exclusivamente vocacionado para o conhecimento alargado da consciência do Sagrado Feminino na sua dimensão ontológica.
Rosa Leonor Pedro


"As mulheres honram o seu Caminho Sagrado quando se dão conta do conhecimento intuitivo inerente a sua natureza receptiva. As mulheres precisam aprender a amar, compreender, e, desta forma, curar umas às outras. Cada uma delas pode penetrar no silêncio do próprio coração para que lhe seja revelada a beleza do recolhimento e da receptividade".


“O poder da Deusa, que se manifesta por meio das mulheres, é uma matriz emocional que convida a uma fusão ou simbiose inconsciente e transmite uma sensação de “chegada a casa”.
Jean Shinoda Bolen


domingo, 15 de maio de 2011

SÁBIA MULHER


EU, TU, ELA, TODAS NÓS...

A sacerdotisa é não apenas a uma mulher plena de poder e autoridade, mas também a mulher em pleno contato com suas dimensões profundas, uma mulher que não apenas emana poder e Sabedoria Feminina, mas que é de fato capaz de extrair de si mesma, a Sabedoria Feminina autêntica que antecede as noções de psicologia, mitologia e religião. Uma mulher realmente alinhada com sua sombra e em contato com a centelha da Deusa que há em seu interior, que não nega suas características ctônicas e sombrias, mas as aceita como parte da bênção e da dádiva da Grande Mãe, como parte dos Mistérios do Princípio Feminino. É está, a verdadeira Mulher que encontrará em si a força da Deusa que vai muito além dos conceitos esotéricos de sacralidade feminina, uma mulher que encontrara em si a Deusa Mãe que acordara chama vital de luz e escuridão que habita a alma de todas as mulheres, que sacraliza e revigora sua sexualidade e que por último é a única fonte de salvação e cura para a humanidade, para a Terra. - Gaia Lil


Deusa,
Eu sou sua sacerdotisa
Abre meus olhos para ver sua luz nos que me cercam
Presentei me com a coragem de transbordar com o seu amor.
Empreste a minha voz o poder de Seu Verbo Criador.
Grande Amada, que eu possa sentir Seu toque em tudo o que Você traga para mim
.

Ver o sagrado e o divino em todas as coisas e, especialmente, em todas as pessoas Ajudar os outros a encontrar o sagrado em si
Meditar o divino
Adorando o divino em todas as coisas
Ser divino
Ser o amigo do divino
Ser a voz do divino
Expressando o divino de forma que as outras pessoas possam entender
Viver de acordo com seus próprios códigos morais
Permitir que os outros vivam da maneira que gostam
Curar para que possamos curar a Terra.


Ishara,
Catherine Ann de Garis
IN: http://webspace.webring.com/people/ac/cathdeg/

Sua energia de Mulher nunca será acionada se você precisar depender de alguém.
Suas forças não existem para serem anuladas, e sim somadas, ampliadas.

...A maior violência que uma mulher pode cometer a si própria é se permitir ser dominada por seus apegos mundanos.
Dominada pelos interesses materiais ou financeiros.
...Você se mutila quando é comandada únicamente pelos interesses materiais.
Seu espírito se apequena para a vida, e sua sombra fica maior do que você mesma.

...Você tem o poder para brilhar e para ter independência em todos os sentidos.
O sexo-frágil não existe!

"Sexo-frágil" ...
Essa palavra foi criada para alimentar a ilusão das mulheres que se esqueceram o que elas são e também para as que, por comodismo, não querem se lembrar.

A mulher só se torna dependente por comodismo e medo.
Medo de agir, de convocar o seu poder.

...A mulher que não convocar seu poder e que não assumir seu compromisso de ser quem deve ser agregando energia essencial em sua vida, em suas atitudes, conquistando sua independência em todos os sentidos, irá se fechar para a Fonte e sentir a corrosão interna provocada pelo ego negativo.

...A dependência lhe consome e a torna menor.
A ilusão lhe adoece.

Seu Templo Sagrado é construído convocando seu poder nos atos simples da vida.
Não é se tornando 'feminista' que você manifesta sua força, e sim agindo a partir dos aspectos da sua essência, em todas as atitudes de sua existência sublime.

Fonte: 'Mulher, a Essência Que o Mundo Precisa' Bruno Gimenes
Postado por Anna Geralda Vervloet IN:
JANELA DA ALMA

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O MITO À LUZ DA VERDADE

Eu sou Pandora, a Doadora de todos os Presentes
Eu trago árvores cheias de flores que dão muitos frutos, árvores retorcidas com olivas penduradas e essa videira que irá sustentar vocês

Eu trago a vocês plantas para matar a fome e para curar a doença, para tecelagem e tinturaria. Sob a minha superfície vocês encontrarão minerais e argilas de inúmeras formas. Eu trago maravilhas, curiosidade e memória. Eu trago sabedoria. Eu trago justiça com misericórdia. Eu trago laços de cuidado e de comunhão. Eu trago coragem, força e persistência. Eu trago amabilidade para todos os seres. Eu trago as sementes da paz.



O JARRO DE PANDORA – MALDIÇAO OU BÊNÇÃO?


"Ao abrir a pesada tampa do seu jarro, Pandora soltou todos os males que afligem a humanidade. Assustada com o seu gesto, ela o fechou rapidamente, deixando aprisionada somente a Esperança. Persuadida a libertá-la, Pandora abriu novamente o jarro; foi assim que a esperança saiu voando para aliviar os sofrimentos dos homens"

Theogonia – Hesíodo 700 BC

O mito descrito pelo historiador grego Hesíodo relata a criação de Pandora como o castigo dado à humanidade pelo Zeus, enfurecido com o gesto de Prometheus que tinha roubado dos deuses o fogo para dá-lo aos homens.
Zeus pediu a Hefáisto, o deus ferreiro, para misturar água e terra e modelar uma linda imagem de mulher, a qual deu voz e vida. Athena a vestiu, colocou-lhe um cinto bordado, cobriu-lhe a cabeça com um véu e coroou-a com uma guirlanda de flores e uma coroa de ouro. Ensinou-lhe depois como tecer e bordar. Afrodite, a deusa dourada deu-lhe encanto e o doce veneno da sedução, enquanto as Cárites (as Graças) deram-lhe graça e suavidade. Somente Hermes lhe deu atributos racionais, uma mente ardilosa e o dom de enganar. E Zeus nomeou-a Pandora e pediu a Hermes que a levasse a Epimetheus, o irmão bobo de Prometheus. Apesar de ter sido avisado por Prometheus (cujo nome significava “precognição”) para não receber nenhum presente de Zeus, Epimetheus (sinônimo de compreensão retardada) aceitou Pandora e por ela se apaixonou. Mas em lugar de dar-lhe felicidade, ela decidiu abrir o jarro e espalhou discórdia, doença, velhice e morte sobre a terra.
A semelhança deste mito com o de Eva é espantosa. Em ambos os mitos atribuíram-se a uma mulher a origem da desgraça, dos males e da mortalidade dos seres humanos. Analisando com mais atenção a lenda bíblica de Eva, percebe-se que uma das fontes que a inspiraram foi o mito pagão grego de Pandora. A sustentação filosófica para a luta entre o bem e o mal foi dada por Pitágoras, em cuja visão o mundo tinha sido formado por dez princípios, cada um constituído por duas forças contraditórias – luz e escuridão, masculino e feminino, movimento e inércia, reto e curvo, direita e esquerda, par e impar. As qualidades positivas foram atribuídas ao princípio masculino enquanto a escuridão, a maldade, os aspectos tortuosos, ocultos e indefinidos foram considerados atributos femininos. Devido à desobediência da mulher (não comer da árvore do conhecimento; não abrir o jarro misterioso) a humanidade é castigada, ora por Yahve, ora por Zeus. E a existência da mulher passa a ser uma permanente lembrança do Paraíso perdido por sua causa, por ter desobedecido às ordens de Deus.
Retrocedendo aos mitos anteriores a estas versões patriarcais e analisando as raízes etimológicas podemos encontrar a origem verdadeira da sua história. Pan em grego significa “tudo”, Dora representa dons, e Pandora era o titulo da Mãe Doadora, Pandora Anesidora, aquela que detinha e distribuía todos os dons. O próprio ato da criação – um atributo exclusivamente feminino – foi transferido a Zeus e Hefaisto, que apesar de ser ferreiro, usou terra e água (elementos femininos primordiais na criação) para modelar “uma linda mulher”. Às deusas couberam somente as tarefas de vestir, embelezar e educar Pandora, mas foi o deus Hermes que lhe deu a capacidade mental (distorcida, claro, por ela ser mulher).
A definição original de “jarro” (pithos em grego) foi deturpada por Erasmo, escritor humanista cristão do século XV, que o transformou em pyxis, “caixa” (termo pejorativo para os órgãos sexuais femininos), banalizando assim o vaso primordial de criação, o ventre escuro e misterioso da Mãe Terra, doador da vida, porém também o receptáculo do corpo após a morte.
A própria idéia do jarro precede a versão do Hesíodo, aparecendo em um mito mais antigo que fala sobre uma mulher que tinha dois jarros fechados – um contendo o bem e o outro, o mal – que ela oferecia aos homens, deixando que eles escolhessem. A caixa aparece também no mito de Psique e Cupido, em que Psique não resiste à curiosidade e abre uma caixa fechada, desmaiando em seguida até ser socorrida por Cupido.
A inversão e distorção dos antigos mitos e valores das tradições centradas na Deusa foram usadas pelas sociedades e religiões patriarcais como um embasamento filosófico e moral para denegrir e diminuir a mulher. No século IV AD, João Crisóstomo, patriarca, orador e historiador cristão, define a mulher como “um mal necessário, uma tentação natural, uma calamidade desejável, um perigo doméstico, uma ameaça para a amizade, uma punição inevitável, uma criação má da natureza pintada com lindas cores”.
Neste momento em que presenciamos o ressurgimento de novos valores e manifestações do eterno e sagrado feminino, conhecer os mitos clássicos não é o suficiente. Precisamos ir além, voltando no tempo e no espaço para as verdades originais que foram desvirtuadas, invertidas ou escamoteadas nas versões patriarcais.
A mulher atual somente poderá trazer à tona a ampla gama dos seus recursos criativos e expressivos se reconhecer a riqueza dos dons que a Mãe Doadora lhe conferiu e que estão aguardando sua manifestação escondidos no misterioso jarro de Pandora. Desta maneira, ela se tornará responsável não mais pela difusão dos males inerentes à condição humana, mas por tornar a sua vida e a dos seus semelhantes mais belas, mais plenas e mais felizes.

Mirella Faur - IN: http://sitioremanso.multiply.com/journal/item/33

(republicado)